Existem diversas métricas para medir o estrago que o coronavírus causará na economia. As projeções para o PIB (Produto Interno Bruto) variam de queda 6%, nos cenários otimistas, até recuo de 8%, nas estimativas de quem espera pelo pior. O fato é que, mesmo que tudo vá bem a partir de agora, o Brasil deve ter uma nova década perdida na economia.

Pode explicar melhor? 6 Minutos conversou com Luana Miranda, pesquisadora do IBRE (Instituto Brasileiro de Economia) da FGV. Pelas contas do instituto, a economia brasileira deve encolher 6,4% em 2020, o que marcará a pior contração anual do PIB de toda a história. A pesquisadora pondera que o cenário pode ser ainda pior, dependendo de como a pandemia se comportar no segundo e terceiro trimestre.

“Essa previsão de 6,4% já leva em conta um cenário em que o terceiro trimestre será melhor que o segundo. Para isso acontecer, não poderia haver uma segunda onda de contágio, e nem um novo lockdown  — e dessa vez um lockdown bem feito”, diz a pesquisadora.

Junho é o primeiro mês do trimestre, e olhando pela perspectiva sanitária atual é difícil acreditar que os próximos meses serão melhores do que antes — principalmente considerando a curva de contágio. Mas mesmo que este trimestre traga melhores notícias, a economia deve mergulhar para o pior nível desde 2010.

Isso significa que a média da produção das empresas, o rendimento dos trabalhadores, os investimentos e o comércio exterior vai voltar para o mesmo nível de dez anos atrás. É como se o país tivesse entrado em uma máquina do tempo, fazendo com que a riqueza acumulada na última década fosse perdida.

Os números além do PIB

Olhar o dado do crescimento por si só pode dar uma sensação de distância. Quando decomposta, a queda do PIB é ainda mais dramática. Começando pelo consumo das famílias, que representam 75% de todo o desempenho econômico. “Esperamos uma retração de 9% desse indicador neste ano. O dado é especialmente ruim porque o consumo era o motor que vinha puxando o nosso crescimento depois da última recessão, em 2015 e 2016”, conta Luana.

Neste ano, ao invés de ser motor, o consumo vai ser uma âncora, puxando o PIB para baixo. O nível de consumo das famílias vai cair também para o menor nível desde o final de 2010. Pela importância do indicador, é fácil perceber que as medidas que ajudam a preservar a renda das famílias são muito importantes para conter os efeitos negativos do coronavírus na economia.

E os rendimentos dos trabalhadores? O IBRE calcula que a massa salarial ampliada (que leva em conta todas as fontes de rendimento, como salários, pensões, aposentadorias e benefícios sociais) cairá 11% em 2020. Será a maior queda real de toda a série histórica que acompanha a massa salarial, iniciada em 2003. Ou seja, nem mesmo nos últimos dois ciclos recessivos (2009 e 2015-2016) o Brasil viveu uma queda tão intensa dos rendimentos das famílias.

“Esse número já leva em consideração as políticas de transferência de renda, como o Bolsa Família e o auxílio-emergencial. Sem essas iniciativas, a massa ampliada de rendimentos cairia 16,5% neste ano”, pontua a pesquisadora do IBRE. “Isso mostra a importância desses programas e de outros programas de impulso fiscal adotados por governos no mundo todo”.

Luana lembra que esses estímulos são importantes para garantir a subsistência das famílias, mas que os efeitos positivos alcançam toda a economia e evitam uma queda ainda maior do PIB.

O desemprego vai aumentar? Provavelmente sim. O IBRE calcula que a taxa de desemprego vai chegar a 18,7% em dezembro deste ano — a maior desde a década de 80. Nesse caso, a máquina do tempo levou o Brasil para um passado ainda mais distante, de volta para um período em que a economia foi assolada pela hiperinflação.

“O mercado de trabalho já estava fragilizado antes da crise, e tínhamos a informalidade muito alta”, lembra Luana, do IBRE. Essa estrutura informal no mercado de trabalho deve acelerar o ritmo de desemprego, já que os empregos sem carteira assinada são os primeiros a serem eliminados na crise.

Qual o tamanho do problema?

Esses indicadores dão a pista de que ainda há um longo caminho a ser percorrido até o fundo do poço. A questão é que não só a descida será mais funda, como mais rápida. De acordo com os dados da FGV, a recessão do PIB em 2020 pode ser maior do que a registrada em 2015 e 2016. Ou seja, perderemos em um ano tudo que levou mais de dois anos para ser perdido.

Caso as previsões mais pessimistas se concretizem, como a do Banco Mundial, que prevê uma perda de até 8% do PIB, podemos ter em 2020 a pior recessão de toda a história — pior até do que a que foi registrada entre o final da década de 80 e do início da década de 90, marcada pela hiperinflação e pelo sequestro do saldo da poupança pelo governo de Fernando Collor.

“Mesmo que haja crescimento nos próximos dois anos, só devemos voltar ao patamar do final de 2019 no final de 2022”, prevê a pesquisadora do IBRE.

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