Dos muitos efeitos colaterais do coronavírus, talvez os menos levados em conta sejam os psicológicos. Infectados que evoluíram para casos graves e sobreviveram podem sofrer estresse pós-traumático por anos, como pessoas que estiveram em guerra ou sofreram acidentes. E mesmo aqueles que se mantêm saudáveis podem padecer de problemas psicológicos. Os jovens adultos, em particular, estão ficando mais deprimidos e ansiosos à medida que o SARS-CoV-2 destrói quaisquer planos de vida que eles tinham em mente.

Agora está claro que a Covid-19, como qualquer grande desastre, está causando um aumento nos distúrbios de saúde mental e seus males associados. Isso vai desde alcoolismo e dependência de drogas a espancamento de mulheres e abuso de crianças. Nas Américas, a região mais afetada do mundo com pontos críticos dos EUA ao Brasil, esta crise psicossocial se tornou uma epidemia própria, afirmou o braço regional da Organização Mundial da Saúde esta semana.

Nos EUA, a taxa nacional de ansiedade triplicou no segundo trimestre em relação ao mesmo período de 2019 (de 8,1% para 25,5%), e a depressão quase quadruplicou (de 6,5% para 24,3%). Na Grã-Bretanha, que também teve um surto severo e um longo período de isolamento social, a decorrência de depressão praticamente dobrou, de 9,7% dos adultos antes da pandemia para 19,2% em junho.

Como tudo o que está relacionado ao coronavírus, o sofrimento psicológico não se espalha de maneira uniforme. Como eu disse em abril, a Covid-19 atinge os pobres com mais força do que os ricos e as minorias mais do que os brancos. E, como escrevi no mês passado, isso também atrapalha as carreiras e as vidas de algumas gerações – especificamente, os millennials – mais do que as de outras. É uma história semelhante com a propagação da depressão e ansiedade, que atormentam desproporcionalmente as minorias.

Talvez mais surpreendentemente são também os adultos mais jovens que sofrem mais angústia mental, nos EUA e no Reino Unido e, provavelmente, em outros lugares também. À primeira vista, isso pode parecer estranho, uma vez que adultos jovens, assim como crianças, têm menos risco de complicações graves de saúde com Covid-19.

Mas mesmo os jovens se preocupam com seus parentes mais velhos. A justificativa para isso esteja no fato de que os adultos mais velhos já haviam construído suas vidas antes da pandemia – com rotinas, estruturas, carreiras e relacionamentos aos quais recorrer. Os jovens não tinham suas vidas constituídas e estavam apenas embarcando nessa aventura quando o Covid-19 atacou.

E que estrago isso fez com todas essas esperanças. Mesmo em épocas mais tranquilas, adolescentes e jovens adultos não são exatamente modelos de estabilidade emocional. Muitos estão insatisfeitos com o próprio corpo ou confusos em relação à trajetória profissional, às opções sexuais e às amizades.

Mas em 2020 todas essas preocupações só fizeram crescer. Escolas e universidades foram fechadas e mesmo as que resolveram abrir no próximo período escolar podem ter de recuar para o fechamento novamente. Isso ou a abertura parcial, com rodízio de estudantes, distanciamento, uso de máscaras e pouca diversão. Os acampamentos de verão foram cancelados, assim como muitos estágios e ofertas de emprego. Shows e festas são reprováveis ou proibidos. Para essa geração de jovens adultos, a vida social e as redes de procura de emprego sofreram uma paralisação sem previsão de volta pela primeira vez.

Além disso, trocar interações pessoais, com tato, olfato e troca de fluidos, pelas telas e aplicativos simplesmente não resolve. Biologicamente, ainda somos como outros primatas, que precisam de estímulos e redução nos níveis de cortisol para nos sentirmos bem. Nessa situação atual, especialmente para os jovens com os hormônios em ação, o que resta é o isolamento e a solidão, que podem levar à apatia e ao desespero: em resumo, depressão.

O aumento da ansiedade pode ter mais a ver com um outro efeito que a Covid-19 impôs a todos nós, mas especialmente aos jovens: uma incerteza sem precedentes. Em essência, a pandemia cancelou todos os planos e todos os planejamentos. Muitos jovens adultos não puderam fazer os exames finais e não podem iniciar o processo de escolha de uma universidade. Eles não sabem se e quando se inscrever e em qual instituição, visto que as faculdades podem ou não abrir ou valer a pena a mensalidade. E sequer eles sabem se seus pais poderão arcar com as despesas educacionais, já que isso depende de eles saberem se terão ou não fontes de renda no pós-pandemia.

Jovens ou idosos, os indivíduos diferem em sua classificação na chamada Escala de Intolerância à Incerteza (EII). Quanto menos uma pessoa for capaz de abraçar a incerteza, mais provável será que ela entre em espirais de preocupação sobre todos os cenários possíveis. Isso acaba causando estragos em nossos cérebros e é uma das principais causas de ansiedade, incluindo sua forma severa, Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG).

Portanto, nem todas as pessoas, mesmo entre os jovens, estão em risco, porque todos são psicologicamente únicos – os introvertidos podem até prosperar nesta época de distanciamento social. Mas a propagação da ansiedade e da depressão é uma questão grave o suficiente para se colocar ao lado da transmissão viral como uma preocupação. As cicatrizes serão de longo prazo, desde o aprendizado atrasado e relacionamentos rompidos até sonhos abandonados e mais suicídios.

Para os formuladores de políticas públicas, isso significa que eles devem levar em consideração o vírus e a mente humana ao decidir futuras medidas de isolamento social. E eles devem buscar mais dinheiro e ajuda para aqueles com problemas – globalmente, há menos de um profissional de saúde mental para cada 10.000 doentes, a maioria dos quais não recebe nenhum tratamento.

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