O impacto do coronavírus sobre o modelo de negócios das companhias aéreas pode ser permanente. O setor terá que lidar com uma realidade em que as viagens de negócios perderão parte da importância atual para as empresas.

Isso acontecerá porque algumas descobrirão que o uso da tecnologia pode substituir com eficácia encontros pessoais e outras temerão novas infecções no futuro, restringindo voos dos seus funcionários –os viajantes corporativos respondem por mais de 60% dos voos domésticos no Brasil.

A avaliação é do sócio da consultoria empresarial Bain & Company e especialista em aviação André Castellini, que em entrevista ao 6 Minutos afirmou que neste momento as grandes empresas, não só do setor aéreo, estão montando comitês de crise para lidar com as consequências da infecção.

“É uma situação que está evoluindo muito rapidamente. Assim como já caiu a ficha dos líderes políticos para o tamanho do problema, isso aconteceu também com os líderes empresariais”, afirmou. “É uma crise profunda, que vai passar mas vai deixar vítimas, tanto pessoas quanto empresas”.

Veja abaixo a entrevista completa com o especialista sobre a crise.

André Castellini, sócio da consultoria Bain & Company e especialista em aviação (Divulgação)

 

Como as empresas de diferentes setores estão reagindo ao coronavírus? A situação está evoluindo muito rapidamente. Assim como já caiu a ficha dos líderes políticos para o tamanho do problema, isso aconteceu também com os líderes empresariais. A maioria já entendeu que isso é algo muito sério. É uma crise profunda, que vai passar mas vai deixar vítimas, tanto pessoas quanto empresas.

Ainda não está claro quais serão todas as consequências dessas medidas de restrição à circulação de pessoas, como elas vão impactar toda a cadeia. Tudo vai evoluindo de forma muito rápida, e provavelmente a situação vai piorar em termos de incertezas antes de melhorar.

Quais as primeiras ações das empresas no enfrentamento do problema? As empresas estão constituindo comitês de crise, em geral com funcionários internos e a ajuda de consultorias. Normalmente, esses comitês têm as seguintes frentes: proteger os funcionários da infecção e colocar as operações em estado de emergência.

No caso dos funcionários, as medidas são para garantir a higiene e restrições viagens, por exemplo. Há também a preocupação de avisar sobre mudanças nas atividades aos clientes. E depois a adequação das operações ao novo contexto, por quantas horas vão operar, o planejamento para caso os funcionários fiquem doentes, calcular a liquidez, quanto as receitas vão cair.

As empresas vão ficar sem caixa porque estão sem clientes, precisam planejar sua liquidez e negociar com antecedência com fornecedores e credores antes que a crise se aprofunde.

As companhias aéreas vem sendo as mais afetadas. As brasileiras podem chegar a falir? Não acredito nisso. Se não houvesse medidas extraordinárias, sim, mas são empresas saudáveis e o interesse dos credores é que continuem a operar. Vai haver renegociação de obrigações e haverá prejuízos até o final do ano, com certeza. Você não retoma da noite para o dia.

O que se diz é que o receio de um covid-20, 21, 22 [ou seja, o medo de novas infecções similares no futuro] pode ter um impacto mais permanente na mobilidade. Hoje há muita gente se adequando para trabalhar mais online, e isso teria um efeito mais duradouro nas viagens de negócios.

Se desenvolveriam novos comportamentos de trabalho. Talvez se aprenda a trabalhar de forma remota, e isso pode gerar um impacto que vai permanecer mesmo com essa crise médica sumindo. As empresas podem começar a se perguntar, como responderei a sinais de novos vírus no futuro?

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