De regras confusas para o uso de máscaras ao distanciamento social intermitente, a resposta da América do Sul ao novo coronavírus é marcada pela inconsistência. Embora o alcance real da doença seja desconhecido devido à falta de testes, há países claramente derrotados e outros que aparentemente se deram bem, em uma região que já andava mal das pernas antes da crise.

Sete meses depois que o vírus começou a se espalhar pelo planeta, o Uruguai conseguiu manter as infecções sob controle, enquanto o Chile foi capaz de reverter um recente aumento no crescimento do número de casos.

A doença explodiu na Argentina e no Peru, apesar da implementação de medidas de confinamento rápidas e rígidas. No Brasil, o presidente parece permitir que a Covid se alastre para manter a economia aberta.

A América do Sul registrou cerca de 5,3 milhões de casos e 177.200 mortes. Segue abaixo o panorama em diferentes países, segundo reportagens locais, dados da Universidade Johns Hopkins e da CIA World Factbook.

Argentina: 299.126 casos; 5.814 mortes; população de 45,5 milhões (taxa de infecção: 0,7%)

O governo da Argentina foi um dos primeiros a agir na América Latina, impondo um lockdown nacional e recomendando dois metros de distância e higiene frequente das mãos em meados de março. O uso de máscaras se tornou obrigatório um mês depois. Conforme o número de casos diminuiu, o governo permitiu a reabertura de algumas lojas. O ressurgimento de casos forçou uma recuada e todos os negócios não essenciais ficaram fechados durante as três primeiras semanas de julho. Essa reversão da flexibilização incentivou a resistência da população e muitos negócios não essenciais abriram discretamente.

Embora as máscaras sejam amplamente utilizadas, a imposição de medidas de distanciamento é branda e aglomerações clandestinas são comuns. Tecnicamente, as pessoas precisam de passes especiais para circular livremente (podem ser multadas ou presas se não portarem um passe), mas a polícia raramente pede que sejam mostrados e argentinos carregam sacolas para parecer que saíram apenas para comprar comida.

A Argentina está em confinamento há mais de quatro meses e o povo tem burlado cada vez mais as restrições.

Brasil: 3,36 milhões de casos; 108.536 mortes; população de 211,7 milhões (taxa de infecção: 1,6%)

Jair Bolsonaro minimizou consistentemente o perigo do coronavírus e argumentou que o desemprego e as consequências econômicas representam risco maior. O presidente, que foi diagnosticado com Covid-19 no mês passado, insiste que a doença não é muito pior do que a gripe.

Dois ministros da Saúde pediram demissão após entrarem em choque com o chefe que prioriza empregos. Bolsonaro ainda não nomeou um novo ministro.

Com a falta de consenso no governo federal sobre como responder à pandemia, estados e municípios decidem o que fazer por conta própria. Como nos EUA, algumas áreas do país estão se saindo melhor do que outras. O uso de máscaras é quase universal em cidades como São Paulo, mas nem tanto nas regiões rurais mais pobres. Bolsonaro quis anular a obrigatoriedade das máscaras em escolas, igrejas, lojas e fábricas, embora as mudanças tenham sido contestadas nos tribunais. O Brasil é agora o maior centro global da doença depois dos EUA.

Chile: 388.885 casos; 10.546 mortes; população de 18,2 milhões (taxa de infecção: 2,1%)

Grandes áreas do Chile, incluindo bairros em Santiago, se encontram em estágios diferentes de isolamento há vários meses e, em junho, o governo começou a reprimir com mais severidade o descumprimento de regras. O toque de recolher vai das 22h00 às 5h00 e a punição para infratores chega a 10 milhões de pesos (US$ 13.000) e três anos de prisão.

Máscaras são obrigatórias em todo o país. Autoridades também recomendam lavar as mãos com frequência e evitar contato próximo e comida comprada de ambulantes. Uma pesquisa recente concluiu que cerca de 80% da população estava seguindo as regras, embora ocorram reuniões clandestinas e pessoas mais pobres saiam regularmente porque precisam trabalhar para comer. Os moradores podem solicitar permissão para sair por duas horas, duas vezes por semana.

Peru: 535.946 casos; 26.281 mortes; população de 31,9 milhões (taxa de infecção: 1,7%)

O Peru adotou uma abordagem rigorosa para combater a pandemia, mas altos níveis de pobreza e urbanização prejudicaram esses esforços. Sem água encanada em tantas casas, é difícil tomar precauções básicas, como lavar as mãos regularmente.

O uso de máscaras é obrigatório e o governo recentemente exigiu que as pessoas também usem viseiras de plástico no transporte público e em aviões. Mas o alto custo desse item provocou resistência. A exigência recente de luvas de látex nas lojas foi descartada pelo mesmo motivo.

Conter a disseminação em Lima tem sido particularmente difícil. Quase um terço da população peruana vive na capital. A polícia reforçou as regras de distanciamento no início, prendendo quem violasse a quarentena. Quando essa abordagem se tornou insustentável, o governo passou a aplicar multas em dinheiro e outras penalidades, como o impedimento da realização de transações bancárias ou jurídicas.

Uruguai: 1.457 casos; 40 mortes; população de 3,4 milhões (taxa de infecção: 0,04%)

A decisão rápida do Uruguai em março de fechar as fronteiras com o Brasil e a Argentina e impor um lockdown voluntário valeu a pena. Os números de casos e mortes se mantêm baixos até agora. Uma robusta rede de proteção social ajuda, após anos de investimento público em saúde, aposentadorias e gastos sociais.

Tudo isso permitiu o início de uma reabertura gradual no final de abril. No final de junho, a maioria dos alunos estava de volta às salas de aula, com obrigatoriedade do uso de máscaras, mas presença física opcional. A baixa densidade demográfica do país contribuiu para o quadro.

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