Durante os primeiros meses das campanhas globais de imunização contra a Covid-19, os Estados Unidos acumulavam vacinas enquanto China, Rússia e outros países distribuíam doses para nações desesperadas. Isso começa a mudar.

Os EUA já começaram a exportar vacinas, pois a oferta doméstica supera cada vez mais a demanda. Isso permitiu que o presidente dos EUA, Joe Biden, assumisse o papel de estadista das vacinas após recusar por meses fazer o que Europa, Índia, China e Rússia fizeram: exportar uma parte dos imunizantes antes que a demanda doméstica fosse totalmente atendida.

Na terça-feira (4), Biden prometeu que os EUA serão um “arsenal para lutar contra a Covid-19” globalmente, o que inclui a doação de 60 milhões de doses da vacina da AstraZeneca enquanto as fábricas do país produzem outros imunizantes.

“É um compromisso humanitário significativo”, disse Biden. “Vamos agir o mais rápido possível para conseguir o máximo de produção possível de doses da Moderna e da Pfizer e exportá-las para o mundo todo.”

A mudança chega em um momento crítico. Depois de mais de 3,2 milhões de mortes, o mundo enfrenta uma nova onda de casos de Covid-19, apesar de cerca de 1,2 bilhão de doses administradas, segundo o rastreador de vacinas da Bloomberg. O Brasil ultrapassou 400 mil mortes confirmadas sem alívio à vista, enquanto o número crescente de casos na Índia, agora em 20 milhões, levou os EUA a restringirem viagens com origem no segundo país mais populoso do mundo.

Países em desenvolvimento, como Argentina, México e Índia, pediram vacinas em território americano. Embora os EUA sejam um dos maiores produtores mundiais, exportaram apenas alguns milhões de doses até agora, em comparação com 217 milhões de doses enviadas pela China, 94 milhões pela União Europeia, 67 milhões pela Índia e cerca de 12 milhões pela Rússia, de acordo com a Airfinity, uma empresa de informações e análise científica.

O foco dos EUA em vacinar sua população primeiro deu frutos, o que permite ao país olhar para o exterior justo quando mutações mais contagiosas do coronavírus ganham força. Embora Índia, China e Rússia tenham saído na frente na diplomacia das vacinas, agora estão bem atrás dos EUA na imunização de suas próprias populações, de acordo com o rastreador de vacinas da Bloomberg, uma estratégia que se mostrou especialmente prejudicial no caso da Índia.

Apesar de enviar vacinas para o exterior, a Rússia imunizou apenas cerca de 20% da população, que está cada vez mais cética em relação aos imunizantes. Em Hong Kong, a demanda dos cidadãos pela vacina da Pfizer-BioNTech foi muito mais alta do que pela Coronavac, da chinesa Sinovac que, segundo dados, seria menos eficaz. E mesmo a Europa, sob fortes críticas por não exportar vacinas inicialmente, reverteu a postura.

A contribuição dos EUA para os esforços globais será modesta no início, com foco em acelerar o envio de suprimentos para vacinas à Índia, bem como na distribuição de parte de seu estoque crescente de imunizantes. Biden disse na terça-feira que, até 4 de julho, sua meta é enviar “cerca de 10% do que temos para outras nações”.

A primeira pergunta do presidente é como dividir as remessas iniciais de até 60 milhões de doses já produzidas e não utilizadas da AstraZeneca, que aguardam revisão de segurança. A vacina ainda não foi autorizada para uso nos Estados Unidos e, com oferta de sobra de três outras vacinas, talvez nunca seja necessária no mercado interno.

Biden disse que pretende enviar pelo menos algumas doses da AstraZeneca para a Índia, ao mesmo tempo que sinalizou ajuda para o Canadá, México e países da América Central. Mas os EUA receberam pedidos de países do mundo todo por qualquer sobra de vacinas.

“Os EUA precisam encontrar uma maneira de ganhar crédito por isso, já que chineses e russos estão ocupados fazendo isso agora”, disse em entrevista Thomas Shannon, ex-subsecretário de Estado dos EUA para Assuntos Políticos.

Quer receber notícias do 6 Minutos direto no seu celular? Estamos no Telegram (t.me/seisminutos) e no WhatsApp (https://6minutos.uol.com.br/whatsapp).