De uma hora para outra home office virou a expressão da vez, aulas escolares foram suspensas e comércios e academias fechados. Um vírus desconhecido suspendeu o direito de ir e vir das pessoas, abalando suas rotinas, além de ameaçá-las com o fantasma do desemprego. A situação incomoda, a adaptação é necessária, mas impossível fazer isso do dia para a noite. Boa notícia: ampliar o autoconhecimento pode ajudar nessa transição.

O que autoconhecimento tem a ver com coronavírus? Todos sabem que a melhor saída para conter o coronavírus é reduzir o contato físico entre as pessoas. Isso mexe com a rotina. Mudam o ambiente e as companhias de trabalho.

Essa adaptação flui melhor quando percebemos quais os pontos nos tiram do sério e como reagimos se nos alimentamos fora de hora, temos ou não preguiça e ansiedade de trabalhar, estresse com o parceiro ou o filho.  É aí que entra o autoconhecimento, explica a neurocientista com foco em comportamento Claudia Feitosa-Santana.

“Para a neurociência, quanto mais entendemos o comportamento, mais informações temos para replanejá-lo, se necessário”, diz Claudia, que é professora da Casa do Saber.

Como usar o autoconhecimento agora? Você vai precisar parar por pelo menos uns 15 minutos para perceber o que te faz bem e o que te faz mal, o que te cansa e descansa, irrita ou diverte.

Claudia compartilha a própria experiência: ao longo das últimas três semanas em que está de quarentena, e depois de se alimentar e dormir muito mal, ela percebeu que desligar (desligar mesmo! e não apenas deixar de lado) o celular e o notebook profissional lhe dá a sensação de sair do furacão de informações e dúvidas sobre o coronavírus.

Você relaxa cozinhando? Vendo série de comédia? Montando quebra-cabeça? Desenhando? Talvez seja hora de lembrar qual era sua brincadeira predileta de infância. Que tal fazer isso na hora do almoço, antes de começar a trabalhar ou antes de dormir? Ou quando sobrar um tempo?

O tempo que leva a adaptação:  Pelo menos uma semana, e é preciso tentar por partes. Primeiro se acostume com o novo espaço de trabalho, depois em como manter a ordem na casa, depois em dividir o espaço com as pessoas da família, depois com compras de supermercado ou deixar a comida pronta pelo menos para o horário do almoço. A ansiedade dos primeiros dias de quarentena é de tirar o sono. Aceite isso e saiba que é normal. De forma geral, todo mundo está sofrendo com a situação e as limitações.

Autoconhecimento e saúde:  Como a saúde é mais importante que nunca, perceba que alimentos deixam seu corpo mais leve ou mais pesado. Ou quais interferem no seu sono. Uma boa noite de sono combina cansaço físico e mental. Então considere ter pelo menos 20 minutos de qualquer atividade física que seja, como polichinelo, yoga, alongamento. Experimente próximo da janela, perto da luz e vento natural. Isso também vale para os outros moradores da casa.

É normal ter tanto incômodo? Sim. Até porque de forma geral a sociedade estava no automático até se deparar com uma mudança brusca. O quadro piora porque a incerteza de não saber até quando essa situação vai, assusta. Claudia fala que o contexto envolve vários temores. A começar pelo medo do desconhecido —  ninguém sabe ainda que tipo de vírus é esse — , das consequências econômicas, de ficar doente, de precisar e não ter leito disponível, de perder alguém que ama, de ficar trancado em casa por muito tempo. “Não sabemos quando a situação vai se normalizar e isso gera uma insegurança maior”.

Como e por que isso de afeta tanto a minha vida? É que a rotina mudou da noite para o dia, mas nosso jeito de se organizar, pensar e agir não muda assim tão rápido. Há um descompasso.

Para Claudia, há uma guerra interna: a gente tenta se estabilizar enquanto tem a movimentação reduzida e é forçado a aumentar o contato com a família, que só víamos fora do expediente.

O novo não vai ficar normal de uma hora para outra, assim como a gente só vence a guerra depois de vencer uma sequência de batalhas. “Ninguém ganha tudo de uma vez”, lembra a neurocientista.

Como lidar melhor com tudo isso? “Se  encaixe” na situação, sugere Claudia. Entenda  qual o contexto e os riscos do coronavírus. Isso deixará mais claro por que é preciso ficar em casa. E com tudo o que tem um motivo, a gente consegue lidar melhor.

Por fim, talvez seja o caso de buscar entender o por que da quarentena em vez de monitorar cada detalhe sobre quantos são os casos e mortes confirmadas.

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