O mercado de tech & durables (produtos de IT, telecom, linha branca, linha marrom teve um 2020 excepcional em vendas, muito baseado pela demanda reprimida das casas brasileiras. Esse movimento foi puxado pela necessidade de laptops, impressoras e afins, tão necessários para o home office ou home schooling.

Ao mesmo tempo, a necessidade da execução de tarefas como limpeza e comida, também ajudou no desenvolvimento do mercado de tecnologia e duráveis.

Mas esse caminho de crescimento não foi e não está sendo tranquilo, mesmo neste ano de 2021. Fatores externos importantes estão impactando de forma incisiva em como o mercado responde a essa demanda reprimida e mudança de comportamento dos consumidores.

Vamos começar pela confiança do consumidor. Dados disponíveis no mercado e da consultoria GfK demonstram uma clara dissonância entre a confiança das pessoas com maior e menor renda. O impacto da alta taxa de desemprego e o descolamento entre a recuperação econômica com a retomada do emprego causa uma pressão singular nas camadas mais simples da população que foram as mais afetadas durante todo o processo pandêmico. Porém, que fique claro que o menor índice de confiança da população menos favorecida com a economia não necessariamente significa uma perda do desejo de compra.

Outro ponto relevante para esta discussão foi a forte desvalorização da moeda brasileira perante o dólar e em conjunto a este movimento a elevação dos preços das commoditites, que resultou em uma pressão inflacionária que foi transferida para os consumidores, não necessariamente em sua totalidade, mas foi. Tanto que o preço médio de produtos duráveis e de tecnologia teve um aumento médio de 20% em 2020 e esse movimento se estende para 2021, com um percentual de aumento médio de 14%.

Essa pressão de mercado fez com que as empresas trabalhassem de forma intensa para conter aumentos de custos fixos e varáveis, forçando um aumento de produtividade. Apesar de todo esse movimento e de ajustes que podem ter ocorrido de negociações com os varejistas, não há dúvida que a pressão por margem nas empresas foi e é dominante; logo mesmo que o repasse de preço não tenha sido integral ao longo dos últimos meses ele ocorreu de forma expressiva, pressionando ainda mais o consumo. Assim, qual é a saída para trazer esse consumidor?

A indústria caminhou para uma clara estratégia de downgrade (retirada de características não essenciais para o produto, reduzindo suas especificações técnicas) e premium acessível. O downgrade de quantidade é algo comum no segmento de FMCG em conjunto com a revisão de fórmulas. O caminho da indústria de tecnologia e duráveis não foi assim uma grande inovação, mas foi um movimento importante para a manutenção das vendas.

Vamos, por exemplo, olhar para o mercado de laptops que tem um peso grande do seu custo baseado nos processadores: comparando a participação de mercado de Celeron vemos que diferentemente do mercado global, ele cresce sua participação no mercado brasileiro em mais de 10%, quando comparamos 2018 vs. 2021. Neste mesmo sentido, Atom que vinha perdendo espaço no mercado do Brasil, volta a crescer e a ter o mesmo share de mercado de 2018. Não há dúvida que esse balanço entre preço, acesso e desejo foi muito bem dimensionado pela indústria que sustentou a demanda em um ano de tamanha complexidade, inclusive com o fechamento das lojas físicas por vários meses.

Mas esse movimento não foi isolado. Na outra ponta da balança a indústria trabalhou de forma ágil para garantir a compra de produtos premium pela parcela mais rica da população ou por aqueles que têm o espírito early adopter mais presente em seus desejos de consumo. Neste sentido o premium virou premium acessível, pois o mercado certamente não se moveria da maneira apropriada com price points extremamente elevados para garantir o acesso à tecnologia de ponta.

Nesse sentido, temos mais um exemplo do mercado de laptops no Brasil: comparando a participação de mercado do processador core i7 em 2021 vs o mesmo período de 2019 há uma perda de aproximadamente de 50% de sua participação no total de mercado, sendo que quem ganha espaço é a família “5”, independente da marca, mostrando que sim há como ter tecnologia, mas não necessariamente a última disponível em nosso mercado.

Não há dúvida que o mercado fez seu movimento, mas a retomada da economia e dos empregos é fundamental para que a renda volte a crescer, só assim diminuiremos o gap que temos em termos de tecnologia para os países mais equilibrados social e economicamente. Talvez a recente valorização do real nos ajude para que este movimento seja mais rápido, mas não podemos nos esquecer que ainda há uma ruptura importante nas cadeias globais de suprimento. Haverá produto para quem puder pagar.