O varejo brasileiro vive um momento bem interessante. Até então deixado em segundo plano, o mundo geek saiu das sombras e ganhou espaço em um dos principais players do varejo nacional: a compra pelo Magalu do KaBuM! e Jovem Nerd não foi por acaso – tanto que o resultado se refletiu de forma imediata no valor das suas ações.

O curioso é que na visão geral o mundo geek é composto por aficionados por videogames. Mas essa talvez esta seja uma personfiicação imediatista, muito próxima de um Gregory Heffley em seu terceiro filme da saga “Diário de um Banana”, mas de certa forma bem restrita e minimalista. Prefiro ter um pensamento mais amplo neste momento. Vamos tomar como base o conceito da consultoria GfK que traduz os geeks em leading edge consumers/LECs (consumidores antenados) – que são os consumidores que têm 3 alicerces bem estruturados:

1 – são apaixonados por categorias de tecnologia (celulares por exemplo)

2 – são aqueles consumidores que dentro de seu círculo de convivência compram tecnologia de ponta antes dos outros

3 –  e com essa paixão e movimento de compra mais rápida que os demais, acabam por influenciar uma boa parcela dessas pessoas a seguirem seus recentes hábitos de compra.

Claro que essa relação de influência dos LECs nas outras pessoas é positiva, pois ajuda a traduzir/desmistificar a tecnologia para uma grande parcela da população que não tem intimidade e/ou background suficientes para avançar em uma decisão de produto. Por isso, quero trazer mais algumas visões importantes sobre o comportamento de consumidor que reforçam ainda mais a importância deste segmento “geek ampliado”.

Primeiro ponto de destaque e disruptivo: individualmente não é nenhuma plataforma de comunicação que mais inspira na decisão final de compra de produtos de tecnologia, como buscadores, TV ou mídia social, mas sim a recomendação de amigos e/ou familiares. Não obstante, quando quebramos essa análise de influência de pessoas próximas, para entender se as interações não cara a cara também têm o mesmo impacto, vemos que quanto mais distante ou fria essa interação, menor o seu poder de influência. Ou seja, uma pessoa reforçar a compra de uma marca ou produto via “zap” não terá o mesmo impacto de uma recomendação em um bate-papo no meio de um churrasco.

Mas porque isso acontece? Anualmente, a GfK segmenta a população brasileira como um todo para definir as personas que compõem nosso espectro social e compará-las com outros países e regiões do mundo para que empresas tenha mais assertividade em seus negócios. Quando olhamos para nosso Brasil, uma das personas com maior presença é a que tem como cerne de sua vida a espiritualidade, trabalho duro e família. Se a família é centro das atenções, claro que ela terá um papel mais do que relevante em assuntos de tecnologia. E mais do que isso, temos 3 pontos básicos que compõem o comportamento de qualquer uma das personas de nosso Brasil:

1 – busca por segurança

2 – consumo “consciente”

3 – conhecimento

Fazendo uma direta correlação destes comportamentos com a jornada de compra dos brasileiros, temos que: o consumo consciente não é necessariamente uma compra ecológica, mas uma compra que não impacte em uma recompra, pois o dinheiro que se tem em mãos é finito e restrito, logo não há espaço para erros. A busca por segurança, reforça isso, bem como suporta – mais uma vez – a busca por informações que me deem uma luz no fim do túnel e me digam qual tecnologia é melhor, OLED ou QLED? Por fim, o conhecimento é claro: sou ativo na busca de fontes que me auxiliem neste processo.

Se ainda há algum pingo de dúvida sobre a importância dos geeks ou LECs, nos últimos 3 anos a GfK mapeou a compra de mais de 250 milhões de produtos eletrônicos/duráveis no Brasil e descobriu que aproximadamente 40 milhões foram vendidos diretamente para nossos queridos LECs. Resultado simplesmente impressionante e que reforça de forma prática e irrefutável o que falamos até agora.

Mais do que discutir se investidor do varejo A ou B ganhou milhões de reais com operações de compra para composição de seu ecossistema é como vamos dar mais conhecimento para nossos LECs continuarem seu processo de democratização da tecnologia em um país que ainda está muito distante de receber as grandes inovações da indústria global em primeira mão.

Uma vez vi uma camiseta onde um dos patos mais famosos da Disney era classificado como o real e primeiro “angry bird”. Usando este mote como inspiração, não há questionamento: os LECs são os reais influencers de nosso Brasil, eles estão ao nosso lado nas pizzadas, churrascos, velórios e nos casamentos. Os demais influencers são meros frutos midiáticos para vender gordura hidrogenada.

Vida longa aos LECs brasileiros!