Acho que ninguém tem dúvida que pagar apenas o valor mínimo do cartão de crédito é tomar uma dívida ruim, assim como ficar devendo no cheque especial. Afinal, nos dois casos, as taxas de juros são bastante altas. Mas e tomar um crédito com taxa bem camarada? É bom ou é ruim? Depende.

Tomar um crédito, mesmo que seja barato, para trocar os móveis da sua casa, por exemplo, é uma dívida considerada ruim. Já um crédito tomado para liquidar outra dívida mais cara é considerado uma dívida boa. Qual o critério?

Indo direto ao ponto: dívidas boas são aquelas que melhoram a sua situação financeira atual. Dívida ruim é o oposto disso.

Quando contraímos dívidas ruins, nós consumimos agora algo que será pago com o dinheiro que ganharemos só depois. Como o valor do dinheiro muda ao longo do tempo (em geral, ele se desvaloriza), antecipar o nosso prazer custa. Infelizmente, a maioria esmagadora das dívidas tomadas por pessoas físicas é ruim.

Mas vamos focar no outro tipo de dívida, as dívidas boas, exemplificando três situações em que elas acontecem.

Primeira situação: Dívida mais barata para liquidar uma dívida cara.

Quando você faz um crédito consignado para zerar o seu saldo no cheque especial, o seu VPL (Valor Presente Líquido) aumenta, pois você passará a pagar menos juros mês a mês.

Trazendo essa situação para fora do sistema financeiro tradicional, é como pegar um dinheiro com um parente para quitar o que você deve para um agiota, e aqui estou assumindo que o seu parente não é outro agiota, ok?

Segunda situação: Dinheiro novo para investir e gerar mais lucro.

Isso é algo que as empresas bem geridas fazem bastante: elas aprovam projetos viáveis e rentáveis, tomam empréstimos e financiamentos, investem no projeto, executam o plano, lucram, pagam as dívidas e ficam com o restante do lucro do projeto.

Essa estratégia não se restringe a empresas com grande capital. Você também pode fazer algo similar. Quer ver como? Dona Melissa cozinha e prepara marmitex, que seu marido vende em frente a um condomínio em construção. Como o fogão da dona Melissa é antigo e pequeno, eles produzem poucas unidades e sempre vendem tudo. Então, se ela pegar um dinheiro emprestado para trocar seu fogão por um mais potente e comprar equipamentos de cozinha, isso pode ser considerado uma dívida boa – desde que sua produção aumente e os lucros com essas novas vendas sejam superiores aos juros do empréstimo.

Outro exemplo: Ricardo é dentista e sempre pede aos seus pacientes que façam raio-x em outras clínicas, já que ele não tem o equipamento no seu próprio consultório. Com o aumento do número de clientes e da demanda por raio-x, pode ser interessante para ele financiar um aparelho de radiologia odontológica digital direta com scanner intraoral (copiei do Google!), e com isso aumentar os seus lucros e quitar o financiamento. É preciso fazer as contas, mas essa também pode ser uma dívida boa e produtiva.

Vamos para a terceira situação, agora mais inusitada: dívida para forçar uma pessoa indisciplinada a poupar dinheiro. 🤔

Em situações normais, um planejador financeiro costuma recomendar que as pessoas invistam, comprem à vista com desconto e otimizem os seus recursos financeiros. Acontece que essa recomendação “morre na praia” quando a pessoa é daquele tipo que gasta o seu salário sem consciência, não sabendo o que fazer para sobrar dinheiro no fim do mês, o que zera as suas chances de investir. Pois bem. Se essa pessoa contrair uma dívida, ela vai se deparar com uma série de boletos mensais. Assim, vai ser obrigada a se organizar para pagar tudo em dia e, no final, ainda termina com um bem.

Nesse tipo de investimento “forçado”, o bem precisa ser algo que deprecie pouco e que tenha até a oportunidade de se valorizar. Então, dívida para comprar um carro ou uma moto não serve. O melhor seria uma dívida para a casa própria ou um imóvel que seja colocado para alugar. Nessa situação, os produtos financeiros podem ser um financiamento ou um consórcio imobiliário. Em ambos os casos, paga-se juros, é verdade, mas essa não deixa de ser uma maneira de se guardar dinheiro, ainda que menos eficiente.

Em resumo, como regra geral, se você está pensando em tomar um crédito, mas ele não se encaixa nas três situações descritas como dívida boa, não tome. Postergar o prazer pode ser doloroso no começo, mas compensa montar a sua reserva de emergência e a sua renda complementar ao INSS. Assim, você terá maior autonomia e liberdade para tomar melhores decisões e otimizar sua qualidade de vida e da sua família ao longo do tempo.

Agora, se no meio do caminho aparecer alguma ótima oportunidade para você pegar um dinheiro para ser mais produtivo e gerar mais valor, então eu te desejo um bom endividamento!