A tomada de decisão está no centro de nossa vida pessoal e profissional. Todos os dias tomamos decisões. Inevitavelmente, cometemos erros ao longo do caminho. A realidade assustadora é que decisões extremamente importantes tomadas por pessoas inteligentes e responsáveis com as melhores informações e intenções, às vezes, são irremediavelmente falhas. Neste sentido, a revolução da Economia Comportamental levou a muitos insights. Como não somos seres puramente racionais, muitas fontes de influência podem impactar nossas decisões. Achamos que estamos cientes do que impulsiona nosso comportamento, mas essas influências – em particular intuição e emoção – governam nossas escolhas, muitas vezes, apesar de nós.

Por essência, tomar decisões é uma responsabilidade fundamental no papel do líder. Defino liderança como a capacidade de tomar decisões e influenciar outras pessoas a tomarem decisões para atingir determinados objetivos. Mas um volume crescente de decisões gerenciais são complexas e podem ser causalmente ambíguas, o que implica que os líderes diferem em suas avaliações e decisões sobre os múltiplos caminhos e fatores capazes de criar valor para a organização. Consequentemente, essas diferenças na efetividade das decisões gerenciais explicam em grande parte a heterogeneidade de desempenho das empresas, tornando os líderes peças importantes do quebra-cabeça.

Assim, quero aproveitar o lançamento do último livro do vencedor do prêmio Nobel Daniel Kahneman, “Noise: A Flaw in Human Judgment”, para revisitar um dos conceitos que tem sido a pedra angular de seu trabalho sobre a tomada de decisão: vieses, endereçado nomeadamente em “Thinking Fast and Slow”.

Para ilustrar como vieses podem interferir na tomada de decisão sólida e atrapalhar seu sucesso ou o da sua organização, vou utilizar um exemplo vindo do domínio do futebol. Na França, costumamos dizer que somos 66 milhões de técnicos de seleção. Contudo, uma decisão que uma maioria desejava, mas sem esperança, foi a inclusão de Karim Benzema no grupo de 26 atletas selecionados para a disputa da Euro 2021. Depois de quase seis anos, o jogador estrela do Real Madrid regressa à seleção, da qual tinha sido afastado por razões diversas e complicadas, mas, em nenhum momento, por falta de mérito técnico. Essa decisão comentada no mundo inteiro, incluindo no Brasil, colide com dois vieses poderosos: acreditar que os padrões do passado irão se repetir e não desafiar o óbvio.

Acreditar na repetição de padrões

Incontáveis exemplos mostram que esperamos que os padrões do passado continuem ou se repitam. Os gerentes gostam de mostrar o desempenho anterior de uma unidade de negócios para angariar mais recursos, mas o desempenho anterior nem sempre é uma prova do futuro.

A França é campeã mundial, foi finalista do Euro 2016 e Benzema esteve ausente de ambos os torneios. Na última competição em que o Benzema participou – a Copa do Mundo 2014 no Brasil – a França foi derrotada pela Alemanha nos quartos de final e, embora fosse essencial para o Real Madrid, Karim não tinha conseguido ganhar uma legitimidade absoluta na seleção da França, como evidenciado pelos 1.222 minutos sem marcar gols entre 5 de junho de 2012 e 12 de outubro de 2013.

Se é difícil saber se Deschamps estava certo ao convocar Benzema para a seleção francesa, tenho convicção que ele terá revisitado suas respostas para algumas destas questões: quais são os padrões aparentemente estáveis dentro do meu ambiente (interno e externo) nos quais eu baseio minhas decisões? Tenho realmente certeza de que meu sucesso continuará? Como estou monitorando as tendências de mudança no meu contexto?

Não desafiar o óbvio

À medida que o número de anos de permanência de profissionais no mesmo cargo aumenta, existe um risco crescente de que eles possam minimizar inovações que ocorreram em outras empresas e desenvolver pontos cegos, resultantes de ideias profundamente arraigadas na cultura da organização e que perderam base sólida na realidade atual. As pessoas continuam a fazer as coisas como sempre fizeram e raramente se perguntam por quê.

Desde que Didier Deschamps assumiu o cargo de técnico da França em 2012, sua prática não foi de escolher obrigatoriamente os 23 melhores jogadores, mas de moldar uma equipe definida pela união, harmonia e complementaridade. A equipe tem as qualidades que ele valoriza e as habilidades de que ele precisa. A liderança do Deschamps é simplesmente a aplicação das regras: é preciso atingir a meta, cada um tem que respeitar as regras coletivas, cumprir o seu papel, e respeitar as instruções do treinador. Por consequência, selecionar o Benzema, por um longo tempo, pareceu conflitar com seus princípios e valores.

Assim, a decisão invulgarmente ousada de Deschamps – convocar novamente Karim Benzema –, poucas semanas antes de iniciar uma competição, pode desestabilizar tudo o que ele trabalhou tão arduamente para conseguir e descredibilizar a sua liderança. Como Deschamps é conhecido desde o início de sua carreira por escolhas cuidadosamente consideradas e raramente impulsivas, estou convencido de que, para chegar a essa decisão, foram necessários passos importantes: a) refletir sobre como ele poderia expandir seu próprio quadro de referência construído ao longo do tempo em função da experiência e do conhecimento; b) identificar as principais suposições tidas como certas (por exemplo, convocar Benzema poderá prejudicar a união da equipe); c) desafiá-las sistematicamente, começando sua frase com: e se a premissa X não for mais verdade?; d) discutir as possíveis implicações de alterar sua premissa para o atingimento dos seus objetivos.

Quanto à decisão do Deschamps, todos podemos concordar ou discordar. No domingo 11 de julho de 2021 (ou talvez antes), não faltarão pessoas para relembrá-lo de suas escolhas. De forma mais ampla, concluo dizendo que longe de complicar demasiado algo que, em sua essência, já é complexo, aconselho a considerar a tomada de decisão como um ponto de partida e a não sobrestimar os resultados possíveis, sejam eles positivos ou negativos. Afinal, o pior que pode acontecer é refrear a tomada de decisão. Então, por favor, tomem decisões e aprendam com elas!