Em meio à essa pandemia, muitas pessoas perderam o emprego, a empresa e até os próprios familiares. O que antes era normal, agora está longe da realidade. Novos hábitos e costumes foram adquiridos.

Estamos fazendo o que podemos para nos reinventar e adaptarmos à essa nova realidade. Muitos trocaram de profissão, venderam seus pertences e estão dando o famoso “jeitinho brasileiro” para se virar.

Várias empresas optaram pelo home office: modalidade que até pouco tempo era temida pelos empregadores, por medo de queda da produtividade. Porém, após a pandemia, algumas até cogitam mantê-la para seus funcionários.

Apesar de tudo isso, para quem tem algum tipo de deficiência, o problema é ainda maior. Muitas empresas não estão preparadas e, portanto, não fornecem a devida adaptação – e a maioria delas nem sabe como e o que fazer em relação a isso.

Mas e a lei de cotas?

A lei de cotas para pessoas com deficiência (Lei nº 8213/91) foi criada em 1991, ou seja, há exatamente 30 anos. Muito tempo se passou, mas algumas coisas continuam iguais.

Atualmente, muito se ouve sobre a emergente necessidade de diversidade nas equipes, fato que estimula pensamentos críticos e inovação no trabalho. Algumas empresas até criaram núcleos de diversidade e inclusão para estimular esse quesito.

Entretanto, ainda é muito comum que o preenchimento dessa cota seja feita de maneira equivocada. Algumas empresas optam por contratar pessoas para preencher a cota, porém, não fazem questão de que o indivíduo trabalhe, e o funcionário acaba não exercendo sua função. Outras, preferem pagar a multa ao invés de preencher essas vagas.

No pior dos casos, e infelizmente algo bem frequente, é também comum ouvir recrutadores e gestores na procura de uma pessoa com deficiência, “mas nem tão deficiente assim”. Esse modo de pensar é pobremente justificado pela tentativa de reduzir as demandas em relação à adaptação necessária.

Além desses problemas, a maioria das vagas disponíveis pela cota são de nível básico, e a possibilidade de se fazer carreira na empresa não é nem cogitada.

Esses cenários e atitudes vem de um capacitismo estrutural de nossa sociedade. O capacitismo é o preconceito contra pessoas com deficiência e está muito presente em nosso dia-a-dia. E aí, vale ressaltar que as pessoas contempladas pela cota não querem nada mais a não ser equidade nas oportunidades.

Então, muitas vezes não há qualquer tipo de inclusão, adaptação e acessibilidade para essas vagas, tanto na acomodação e integração do funcionário na empresa, quanto no processo de seleção. Será que sua empresa tem suporte à tecnologias assistivas, além das acessibilidades físicas já conhecidas?

E para deficiências invisíveis como o autismo? Você já parou para pensar nisso?

O medo da divulgação do diagnóstico

Muitos autistas me procuram perguntando se deveriam ou não divulgar seu diagnóstico na empresa em que atuam. Esse medo é constante e real, principalmente frente à uma possível demissão. Tudo começa durante o processo de seleção: muitos de nós temos medo de comentar sobre nosso diagnóstico (ou até mesmo de uma doença crônica). Então, abrimos mão de uma possível adaptação e inclusão no trabalho pela maior probabilidade de conseguir a vaga tão cobiçada.

No caso do autismo, uma entrevista já lhe põe em desvantagem por conta da possível falta de habilidades sociais. Muitos não conseguem emprego por não saber como responder uma pergunta abrangente ou por se perder em devaneios em uma pergunta simples ou até mesmo não saber a hora correta em oferecer uma réplica às questões feitas.

Uma vez que você consegue a vaga, vem outra enxurrada de dúvidas: a empresa vai oferecer ou estar disposta a realizar as ambientações que você julga necessárias? Algumas empresas já fornecem a adaptação necessária aos funcionários e muito se fala em acessibilidade hoje em dia, porém, muitas vezes a conversa com o funcionário sobre suas reais necessidades é ignorada e a pessoa fica desamparada.

É comum também o constante medo e relutância em falar abertamente sobre doenças crônicas ou problemas de saúde mentais no ambiente de trabalho. Estamos em um país onde infelizmente ainda é tabu falar ou cuidar de nossa saúde mental, e muitas pessoas são demitidas por conta disso. As sobrecargas físicas e emocionais se tornaram tão comuns que burnouts, ansiedade e depressão estão cada vez mais habituais.

Trabalhamos mesmo que com dor ou incômodo, pois o medo de uma possível retaliação é grande. Somos repetidamente acusados de “utilizar nossa deficiência como desculpa”, e isso gera uma omissão ainda maior. Por todos esses problemas e muitos outros, a taxa de desemprego é grande, e muitos não conseguem continuar na mesma vaga por muito tempo.

Será que sua empresa está preparada para empregar pessoas com deficiência? Você já teve um colega com deficiência em seu ambiente de trabalho? Reflita sobre isso.