Elon Musk causou rebuliço ao anunciar que possui a Síndrome de Asperger em sua participação no Saturday Night Live do último sábado. Em meio ao costumeiro monólogo que todos os convidados do show fazem de introdução, Musk afirmou ser a “primeira pessoa com Asperger a apresentar o programa – ou ao menos, o primeiro a admitir isso”.

Houve, porém, um equívoco por parte do CEO da Tesla, já que o programa antigamente contava com um membro assumidamente autista no elenco: o ator Dan Aykroyd, também conhecido por sua atuação no filme “Os Caça-Fantasmas”.

O anúncio do bilionário foi feito para embasar a própria piada que veio a seguir: “Não farei muito contato visual nesta noite com o elenco, mas não se preocupem, eu estou me saindo muito bem em simular o comportamento humano”.

A piada ácida de Musk tem explicação. É que existe um preconceito de que o autista é uma pessoa que não consegue fazer contato visual nem agir de uma forma tida como “padrão” pela sociedade, muitas vezes executando atos quase que “robóticos”.

É interessante também ressaltar que o termo Asperger, apesar de ainda ser utilizado por algumas pessoas, não existe mais. Os novos manuais de diagnósticos eliminaram essa antiga classificação, e agora abrangem tudo dentro do termo autismo.

Um pronunciamento desse tipo vindo do CEO da SpaceX tem muita importância hoje em dia. Essa visibilidade é necessária para que mais pessoas possam se sentir seguras em expor seu diagnóstico aos outros. Além disso, a representatividade de uma pessoa real, e não apenas de mais um personagem fictício da televisão, traz esperanças à comunidade neurodivergente e atiça a curiosidade da sociedade, que muitas vezes desconhece esse tipo de transtorno e suas características.

Claro que essa declaração acabou dividindo a comunidade autista, uma vez que o próprio Musk já havia afirmado possuir a “cura” para o autismo com os chips fabricados pela sua empresa Neuralink – um projeto com um conceito futurístico baseado em inteligência artificial, que conecta o cérebro humano com o computador. Oras, o autismo é um transtorno e não uma doença, e é considerado um subconjunto da biodiversidade – como Judy Singer, a própria criadora do termo neurodiversidade sugere. Portanto, uma afirmação desse nível é um tremendo desserviço para uma comunidade que busca tanto disseminar informações concretas e fidedignas. O perigo dessa alegação também vem do fato de sermos frequentemente inundados de promessas de charlatões que se aproveitam de momentos de fragilidade familiar com juramentos de “cura”, que muitas vezes acabam afetando a qualidade de vida tanto das pessoas no espectro, como de sua família, causando muita dor e sofrimento.

Com tão poucas pessoas deficientes ocupando cargos de liderança ou até mesmo empregadas, qual o impacto a declaração do CEO da SpaceX, que pretende pousar a Starship em Marte em 2024, e é a segunda pessoa mais rica do mundo, para o mercado de trabalho? Com porcentagens de desemprego tão desesperadoras entre pessoas no espectro, será essa a luz no fim do túnel? Definitivamente é uma afirmação que pode mudar a percepção de muitos empregadores e empresas ao recrutar e procurar novos talentos.

Em contrapartida, temos também o caso de Anthony Hopkins, recém ganhador do Oscar de melhor ator com o filme “O Pai”. Essa atuação agraciou o eterno Hannibal com o título de vencedor mais velho nessa categoria do Oscar.

O que Anthony Hopkins e Elon Musk possuem em comum? Ambos são autistas!

Hopkins teve um diagnóstico tardio e muitas características de sua vida são indubitavelmente traços de uma pessoa dentro do transtorno do espectro autista. Suas brigas e ataques de ira sucessivas ocasionavam discussões frequentes com diretores na década de 70. Seu vício na bebida, a falta da sensação de pertencimento na sociedade e a dificuldade de aprendizado também eram constantes. Com o passar dos anos, Anthony percebeu que uma vida baseada em rotinas estabilizaria grande parte de sua vida e tornaria todo o processo muito mais fácil.

Com o diagnóstico, Hopkins compreendeu certas características e aspectos de sua vida e muitas coisas passaram a ter explicações. Essa situação é frequente em autistas, já que um passado recheado de particularidades distintas passa a fazer sentido e a ter lógica: aprendemos a nos conhecer melhor e entender nossas dificuldades.

Em um mundo onde temos a visão pré-concebida de que todos indivíduos no espectro possuem um comprometimento nas habilidades social, podemos identificar também um grande valor que a representatividade de um ator famoso e esplêndido ao nível de Hopkins nos traz. Além disso, há também o aspecto da idade, já que é muito comum debatermos esse assunto apenas a partir do panorama infantil. Nesse aspecto, tanto Hopkins quanto Musk possuem então um importante papel em representar personas nunca antes vistos em nossa sociedade.