Muitos locais adicionaram os autistas no público preferencial de seus serviços e atendimentos prioritários. Por isso, é provável que você já tenha esbarrado com alguma dessas placas de sinalização em seu dia a dia, seja nos assentos dos transportes públicos, filas de supermercados ou demais locais.

Ali, mascarado do que um dia já me foi descrito como sendo um “cachecol colorido”, está um dos símbolos da conscientização do autismo criado em 1999: uma fita com peças de quebra cabeça coloridos.

O começo

Tudo isso só foi possível com muita luta. Em 2012, foi sancionada a lei Berenice Piana, criada em homenagem à ativista militante de mesmo nome. Mãe de três crianças, Berenice logo percebeu que seu caçula tinha dificuldades no desenvolvimento. Mesmo após se consultar com diversos médicos que afirmavam que o pequeno tinha um desenvolvimento típico, ela seguiu sua intuição e começou a ler vários livros a fim de entender melhor a atipicidade de seu filho. Depois de muito estudo, a hipótese de autismo foi levantada. Ela foi então atrás de um acompanhamento adequado.

Após passar por várias dificuldades devido à falta de suporte necessário para seu filho, Berenice passou a lutar pelos direitos dos autistas. Assim surgiu a criação de sua lei, que visa prover uma série de serviços de apoio ao autista: do diagnóstico precoce ao tratamento e terapias adequadas. Acima de tudo, essa lei também declara que pessoas no espectro autista são consideradas pessoas com deficiência.

Desse modo, juntamente com a Lei Estadual nº 16.756, de junho de 2018, que torna obrigatória a inserção do emblema autista na indicação de grupos preferenciais em estabelecimentos que tenham atendimento prioritário, estamos finalmente vendo uma conscientização quanto as adaptações de uma pessoa no espectro.

A problemática

Será que na prática temos então uma execução assertiva da lei? Muitas pessoas desconhecem a fita de conscientização do autismo, até mesmos os próprios autistas. Também não há um consenso quanto ao símbolo ou bandeira de representação do autismo. Aliás, a realidade é justamente contrária. Muito se fala de que o símbolo de quebra cabeças é problemático ao dar a sensação de que há algo faltando, ou de que somos um mistério a ser descoberto.

Juntamente a esse símbolo, o autismo também é comumente representado pela cor azul. Essa cor é justificada pela compreensão de que o autismo tem prevalência em homens. Entretanto, muitos artigos científicos levantam a suspeita de que há na verdade uma grande “camuflagem social” por parte de autistas que se consideram mulheres, com o intuito de se adequar à sociedade. Portanto, essa seria a principal causa de um possível subdiagnóstico de mulheres autistas.

Também é relevante ponderar a questionável discussão polêmica sobre a ideia de que homens utilizam azul e mulheres rosa. Nesse quesito, há de se perceber que um símbolo na cor azul é um tremendo desserviço para uma comunidade tão plural.

A vacinação do Covid

Em algumas cidades, pessoas no espectro já possuem prioridade no plano de imunização contra a Covid-19. Isso ocorre porque muitos autistas possuem sensibilidades sensoriais à utilização de máscaras, consistência do álcool em gel e por não conseguirem se adequar à necessidade de constante higienização e distanciamento social.

Mesmo com essa prioridade, é comum encontrar relatos de diversas dificuldades para se obter a vacina, seja quanto à classificação do diagnóstico (algumas pessoas foram diagnosticadas como Asperger, outras autismo), seja pela quantidade de documentos necessários (alguns locais podem exigir documentos extras além do laudo, como o BPC – Benefício de Prestação Continuada), até a limitação quanto ao grau de autismo (algumas cidades apenas vacinam autistas de nível 3, o considerado severo) ou apenas pela pessoa não ter “cara de autista” (infelizmente um caso real).

O despreparo de alguns profissionais é imenso mesmo em locais propriamente designados à vacinação de pessoas com deficiência: crises são desencadeadas, vacinas são aplicadas forçadamente, e algumas pessoas se negam a aplicar a vacina por causa da própria crise incitada pela desqualificação na interação com um autista.

Muitas vezes, o autista é segurado à força para que a vacina seja aplicada. Nisso, é importante lembrar que a maioria das pessoas no espectro possuem sensibilidade ao toque, chegando até a sentir dor.

Revogação dos direitos

Diante de tantos possíveis cenários absurdos que possam ocorrer, muitas pessoas no espectro optam por não usufruir de seus direitos para não passar por desconfortos e situações desgastantes. E é muito comum que isso ocorra.

Quantas vezes você já julgou alguém por utilizar um serviço preferencial sem saber se aquela pessoa realmente era beneficiada por aquele serviço?

Normalmente associamos os serviços preferenciais a idosos, pessoas com deficiência física e grávidas, e nosso senso de justiça fala mais alto quando o usuário desses serviços não se encaixa à visão que temos.

Por isso mesmo, é comum observar grávidas levando documentos comprobatórios de sua gestação quando necessitam sair de casa e ainda não possuem uma barriga aparente, assim como muitos autistas precisam perambular com laudos e carteirinhas que comprovem seu diagnóstico. Mesmo assim, a humilhação predomina e por vezes os serviços são negligenciados.