Não tem cara!

Caro leitor, começo minha primeira coluna com a frase que mais ouvi nesses últimos tempos. Em 2018, fui diagnosticada como autista. Desde então, toda vez que divulgo meu diagnóstico para alguém desconhecido, me preparo para a montanha russa de emoções e a enxurrada de perguntas que virão.

Pudera, o próprio conceito de autismo foi reformulado pelos manuais de diagnóstico e classificação recentemente. O termo “Asperger” – forma como muitas pessoas ainda categorizam o autismo leve, também chamado de grau 1 – foi removido do manual que a maioria dos profissionais de saúde utilizam, sendo agora considerado dentro da denominação do TEA (Transtorno do Espectro Autista).

Aliás, você sabia que muitas pessoas no espectro preferem ser chamados de autistas ao invés de pessoa com autismo?

Mas esse não é mais um texto para te cancelar ou falar o quanto você está errado. Eu também errei, não serei hipócrita. Minha percepção sobre o autismo era rasa e baseada em estereótipos, já que a representação midiática é embasada nos extremos. A ideia de que eu mesma poderia ser autista nunca passou pela minha mente até eu ser questionada pela minha própria irmã.

“Você é muito inteligente, deve ser autista”, dizia ela.

Mais um estereótipo.

Autistas são muitas vezes representados como sendo um indivíduo com altas habilidades, um gênio com uma aptidão invejável por muitos, mas com um grande déficit em sua empatia. Sei agora que o espectro é amplo, como o próprio nome diz. Há também um grande questionamento da academia em relação à possibilidade da presença de uma hiperempatia ou hipoempatia. Cada autista é único e tem suas próprias pecularidades dentro de um conjunto de características, e é por isso que o estereótipo chega a ser nocivo. Esse “padrão autista” popularizado fere e provoca uma negacionismo frente ao diagnóstico de muitos outros. Ora há a ideia de que o autista é uma pessoa prodígio, ora é um indivíduo não verbal que está sempre a balançar o corpo. Caso você não se encaixe em nenhum desses cenários, simplesmente não é autista no ponto de vista de quem tem essa visão.

Muitas pessoas dentro do espectro fazem lives, dão palestras, ministram cursos e atualmente há até podcasts constituído apenas por autistas. Nossa eloquência e capacidade de nos expressar não elimina nosso diagnóstico, pelo contrário.

Em minha experiência, o processo do diagnóstico foi libertador, pois passei a compreender meus comportamentos e a relacioná-los com características de pessoas no espectro. Revisei também muitas atitudes e passei a me respeitar melhor e entender minhas limitações. Os problemas de comunicação do passado foram superados – ainda que não completamente em sua totalidade – por meio de desafios pessoais realizados a fim de sair de minha zona de conforto. Claro que isso não quer dizer que saí do espectro, nunca sairei. Isso é uma possibilidade inexistente, mesmo que alguns indivíduos afirmem ter a cura do autismo. Um belo argumento para se aproveitar da fragilidade e desespero de certos cidadãos em busca de uma solução para prover uma boa qualidade de vida aos seus entes queridos. Por ser um transtorno e não uma doença, o autismo não necessita de uma cura, é apenas uma condição neurológica diferente.

Vários adultos adquirem hábitos e comportamentos diferentes ao longo da vida, e com pessoas com TEA isso não seria diferente. Passamos por experiências transformadoras enquanto seres humanos, crescemos e aprendemos devido à neuroplasticidade. O comportamento de um autista adulto não se assemelhará ao seu perfil quando criança, e como a maioria dos estudos são feitos a partir do público infanto juvenil, o diagnóstico chega a ser um processo difícil.

Há um alto índice de coexistência de outras condições juntamente com o autismo, assim como ansiedade, depressão, transtorno obsessivo compulsivo (TOC) e ideações suicidas.

Normalmente, as circunstâncias dessas condições acabam levando uma pessoa a se consultar com um profissional da área de saúde, e é quando geralmente é levantada essa suposição para o autismo. É normal a ocorrência do diagnóstico tardio justamente por esse motivo. A insuficiência de profissionais verdadeiramente especializados no assunto também é um grande obstáculo a ser enfrentado. Muitos autistas, principalmente mulheres, acabam sendo diagnosticados erroneamente com outros transtornos ou doenças, o que complexifica ainda mais essa investigação.

E não acaba por aí! Juntamente com o diagnóstico, é comum observar um processo de luto, tanto da pessoa recém diagnosticada, quanto da família. Esse luto é caracterizado como resposta para o preconceito velado que temos em nossa sociedade. Há, geralmente, a preocupação dos pais perante o futuro do filho, a angústia imensurável da possibilidade de que algo aconteça de modo que ele tenha que depender do suporte do sistema. Como depender de uma sociedade apática às pessoas com deficiência e um sistema que ignora a necessidade das adaptações mais comuns como rampas e calçadas rebaixadas?

O tipo de suporte e adaptação que uma pessoa no espectro necessita é muitas vezes desconhecida para muitos, principalmente por ser uma deficiência invisível. Uma imensa parte da população desconhece o motivo e a manifestação de crises em autistas, e se levarmos em conta apenas esse fator, já podemos evidenciar algumas mortes de autistas por policiais nos Estados Unidos. Então, como obter o respeito e prover essa dignidade?

O fato é que precisamos aprender a nos desconstruir e entender a grandiosidade e complexidade do mundo à nossa volta, ter empatia pelo próximo e não depender de conceitos pré-concebidos em relação às características e comportamento das pessoas. Afinal, não há qualquer tipo de aspecto físico que caracterize um autista, portanto, como podemos afirmar que alguém não tem “cara de autista”?