A Christie’s of London, uma casa de leilões fundada em 1766, realizou um leilão do registro de uma “obra de arte digital” no valor de US$ 69 milhões.

Se você pensa que foi um evento único e fora do padrão, além do registro digital da obra recordista do artista Beeple, a tradicional leiloeira levantou US$ 17 milhões pelo certificado digital do conjunto de 9 avatares retratados acima.

Afinal, o que é um registro digital de uma obra de arte?

Para entender o NFT, esse registro digital, é preciso compreender o mecanismo básico das criptomoedas. O que impede alguém de clonar um Bitcoin, por exemplo?

De maneira simplificada, existe um banco de dados compartilhado por todos os usuários. Se alguém envia para essa rede uma versão com uma pequena diferença em uma transação de 2 anos atrás, todos conseguem perceber o erro imediatamente.

Por que uma alteração nos dados invalida a sequência?

Essa mágica acontece em função do hash, um algoritmo que transforma uma sequência de dados de qualquer tamanho em uma “chave digital”.

Repare acima que pequenas alterações na entrada (input) causam uma mudança brusca na saída. Esse hash engloba toda a sequência de dados, tornando virtualmente impossível alterar um dado do passado.

Outra forma de compreender isso é através das amostras de densidade, conforme vemos abaixo.

Tendo em mãos o volume e peso de um objeto, é possível estimar com razoável certeza do que ele é composto. No entanto, estas informações não informam qual o formato ou cor do item.

O que é NFT?

NFT (non-fungible token), é um registro digital em um blockchain, esse banco de dados de alguma criptomoeda, como Bitcoin, Ethereum, ou Solana. O autor da obra de arte, ou qualquer item, na verdade, cria um certificado digital que representa sua propriedade.

Em outras palavras, da mesma maneira que a posse de um imóvel fica registrada em um cartório, qualquer bem pode ser registrado no blockchain. A diferença é que o imóvel possui leis e força de polícia para assegurar a propriedade deste bem.

No caso do NFT, trata-se apenas de uma “homenagem”. Quando uma equipe de futebol levanta recursos para construir um estádio, é normal oferecer “placas comemorativas” para os doadores. A vantagem da digitalização é que esses “certificados” podem ser transacionados com um registro organizado.

O dono do NFT é proprietário da obra de arte?

Não. A tecnologia blockchain não possui relação com direitos autorais, embora seja possível criar uma solução nesse sentido. Não há como impedir alguém de copiar uma imagem digital. Além disso, é possível criar NFTs de qualquer coisa, inclusive de itens imaginários.

Ou seja, qualquer um pode registrar NFTs, colocando nesse registro o que bem entender. Se existe demanda para tal item digital, é outra questão. De maneira similar, não tenho como impedir alguém de criar um NFT do link ou imagem desta matéria publicada no Portal 6 Minutos.

Por que alguém compra um NFT?

Pelo mesmo motivo que alguém compra uma “réplica oficial” do uniforme de 1996 do falecido jogador Kobe Bryant na loja da NBA. O modelo custa quase 3 vezes mais que a atual camisa da equipe, porém quem busca o item mais caro busca status.

No caso do NFT existe um registro público onde somente o proprietário da “senha” de determinado endereço pode transacioná-la. O detentor pode mostrar para seus amigos que pagou uma fortuna pelo registro digital da imagem da pedra de número 42.

Isso mesmo, alguém criou 100 imagens de pedras e as colocou à venda, na coleção EtherRock. Por algum motivo, um comprador pagou US$ 1,83 milhão por esse certificado digital.

Vale a pena investir em NFT?

Olha, o que posso falar é que o maior marketplace de NFT, OpenSea, atingiu US$ 10 bilhões em negociação acumulada. O vice-líder é o jogo Axie Infinity, onde foram movimentados mais de US$ 3 bilhões.

Já existem fundos de investimento exclusivamente dedicados para o segmento, e a maior corretora de ativos digitais do mundo, Coinbase, com mais de 50 milhões de clientes, está prestes a lançar seu próprio marketplace.

O difícil é saber quais coleções ou itens vão virar “mania”, e quais vão permanecer no anonimato. Como sempre, este mercado exige estudo, paciência, e apetite para risco.