Acho que preciso começar esse artigo com uma confissão. Amo comer! E nesse amar cabe toda a variedade de pratos, sabores e experimentações. Inclusive porque, em geral, consigo unir dois amores, as viagens e o sabor com o qual cada cidade, estado, país se apresenta diante dos nossos olhos, nos cativa e por vezes nos mostra a história de um povo.

Em meio a esta forma de ver o mundo, e amando a culinária diversificada do meu Brasil, cada vez mais, um questionamento tem se tornado latente! Por que diante de uma história tão miscigenada, tão plural, em termos de ancestralidades, pratos e sabores, algumas culinárias são praticamente endeusadas e outras marginalizadas?

Perceba, quando alguém pergunta qual seu prato favorito, é bem provável que você responda os clássicos arroz, feijão, bife e batata frita, ou ainda, algum prato que será referência em alguns dos estados brasileiros, como a moqueca de camarão, o tutu à mineira e tantos outros.

Mas também é muito provável que você encha a boca para fazer referências a culinárias estrangeiras. “Amo gastronomia Italiana”, “Adoro a comida espanhola”, “Minha favorita é a comida mexicana”, “Não vivo mais sem comida japonesa” ou “Gosto muito de um restaurante Indiano que conheço” são algumas das possíveis respostas.

No entanto, por que somente quando falamos da culinária africana existe um estranhamento? Posso dizer que já estive em alguns dos continentes e países aqui mencionados, e sempre fui muito surpreendida por tamanho estranhamento ou desconhecimento dos sabores africanos.

Em um país que há anos gourmetiza e valoriza culinárias dos mais diferentes povos, por que será que ainda vemos o total desconhecimento ou rechaço com a culinária, os pratos e os restaurantes africanos?

Recentemente, pudemos ver o caso do programa Mais Você, em que a apresentadora Ana Maria Braga e o jornalista Thiago Oliveira, demonstraram estranhamento a um prato feito pelo chef Sam do restaurante Mama África. Até aí, tudo bem, qualquer um pode estranhar algo que lhe é novo. No entanto, as palavras usadas na conversa é que foram o problema! “Se a gente passar mal, passa mal junto”, essa foi uma das frases utilizadas no mútuo encorajamento para que experimentassem o prato.

O prato simples foi colocado no lugar do exótico. Ugali, típico do Quênia, é feito à base de farinha de milho e água. A comida foi acompanhada por um refogado de carne bovina e peixe defumado com cebola, tomate, cenoura, pimentão, espinafre, ervas e sal.

Veja, não acho que o foco aqui seja o comportamento individual da Ana Maria Braga, até porque, recentemente, em diversas polêmicas que ocorreram sobre a questão racial no Brasil, é notável o quanto a apresentadora está em processo de desconstrução de antigos paradigmas e no letramento para a diversidade. O quanto tem buscado também no seu programa matinal levar mais conhecimento sobre o tema para milhares de brasileiros. Também sabemos da sua personalidade descontraída e brincalhona nas mais variadas situações.

A questão aqui é o quanto cada um de nós, cotidianamente, valoriza ou desvaloriza a cultura africana, seja quando falamos de comida, de roupas, de história, de ancestralidade, principalmente quando comparado a forma como exaltamos algumas outras culturas no Brasil. Uma das formas de rebaixar algo ou desqualificar é justamente colocar como estranho, repulsivo, desgostoso, e isso cada um de nós está fazendo diariamente de várias formas distintas.

Bem, na minha jornada pela diversidade, inclusão e pela valorização da cultura negra, uma das programações que adotei como praxe, antes da pandemia, foi conhecer bons restaurantes africanos em São Paulo. Já estive no Biyou’z e também no Mama África La Bonne Bouffe do Chef Sam, que esteve no centro das discussões desse momento. O chef Sam, inclusive, tem como praxe nos receber com todo carinho, atenção, de forma customizada, compartilhando informações, curiosidades e histórias. É bom demais. Abra sua mente e expanda seu paladar ou como diria Shakira, “This time for Africa”.