Há algum tempo, Rodrigo Fernandes me incentivou a escrever um artigo chamado Preto Velho, um trocadilho com a expressão de religiões de matrizes africanas, para falarmos sobre a interseccionalidade raça e idade. Evidentemente, a expressão ‘velho’ também é utilizada no sentido figurado – como diria Mário Sergio Cortella: ‘pessoas não envelhecem, objetos envelhecem, se degradam com o tempo. Uma pessoa no ano de 2021 é a sua mais nova versão revista e atualizada’.

Gosto dessa perspectiva, pois amadurecemos e evoluímos, sempre!

Todos nós envelhecemos, isto é um fato. Mas, dependendo dos marcadores identitários que cada um de nós apresenta, pode-se viver mais ou menos. Pode-se viver com mais ou menos qualidade de vida. Pode-se, ou não, ter uma velhice de maior acolhimento e cuidado, resguardada por anos de vida nos quais foi possível ter acesso às melhores posições no mercado formal de trabalho.

Na umbanda, preto velho ou pretos-velhos são uma linha de trabalho de entidades.  As palavras são utilizadas para identificar espíritos que se expressam sob o arquétipo de velhos africanos que viveram nas senzalas. Aqui, neste artigo, além da homenagem às religiões e à cultura africana, pretendo lançar uma reflexão sobre como é hoje o processo de envelhecimento da população negra brasileira.

Segundo o Mapa da Desigualdade da Região Metropolitana, elaborado pela Casa Fluminense, em 2020, dentro da região metropolitana do Rio de Janeiro, a expectativa de vida pode variar em até cerca de 22 anos de acordo com a cor da pele, ou seja, a raça e etnia da população. Os motivos são os mais variados, e tristes, como a diferença de acesso ao sistema de saúde, diferença de alimentação, diferença de qualidade de vida e acesso aos direitos básicos essenciais. Também temos falado com frequência que a mortalidade da população negra é maior desde a juventude, já que entre os jovens assassinados no Brasil, cerca de 75% são negros.

Se somente 4,7% da liderança das grandes empresas são compostas por executivos negros e pessoas negras seguem sendo a base do trabalho braçal, informal e mal remunerado na sociedade brasileira, o que a população negra brasileira pode esperar da velhice em um mundo no qual estamos vivendo a inversão da pirâmide etária?

Segundo a Agência Brasil, “pretos e pardos que compõem a população negra do país são maioria entre trabalhadores desocupados (64,2%) ou subutilizados (66,1%)”. E por fim “Enquanto 15,4% dos brancos do país estão na faixa da pobreza, 32,9% dos negros compõem a parcela de brasileiros que vivem com até US$ 5,50 por dia”.

Em tempos nos quais falamos sobre tsunami prateado, poder de compra da população mais idosa, no Brasil e no mundo, e apontamos o envelhecimento da população como um tema que deve ser central na construção de políticas públicas, projetos de ESG (Social, Ambiental e Governança), Sustentabilidade e Diversidade nas grandes empresas, como estamos tratando os nossos pretos velhos e as nossas pretas velhas?

No país do racismo estrutural, até a longevidade deve ser tema central na perspectiva da inclusão. Como estamos cuidando, acolhendo, assegurando a velhice de negros e negras no Brasil? Após uma vida de luta, refletida em toda uma batalha ancestral pela vida, conseguiremos garantir, ao menos para a próxima geração de negras e negros idosos, equidade e qualidade de vida?

Recentemente, tive a alegria de ver Gilberto Gil, aos seus 70 anos de idade, sendo reconhecido como um dos imortais da Academia Brasileira de Letras. Uma alegria imensa tomou conta de mim, e uma esperança de que negros e negras brasileiras, das próximas gerações, ao chegarem em idades mais avançadas, terão cada vez mais oportunidades de serem reconhecidos, enaltecidos e positivamente imortalizados.