Nessas minhas andanças pelo Brasil ao longo dos últimos 16 anos falando sobre sustentabilidade, diversidade e inclusão, tive a oportunidade de compreender como este tema se reflete – e é refletido – pelos mais variados fatores. Por exemplo, pelo atual presidente, pelos governadores de cada estado, pelo prefeito de cada cidade. As nuances trazidas ou subtraídas pelos governos Lula, Dilma, Temer e atualmente por Bolsonaro são evidentes no meu dia a dia.

Vejo como as populações das grandes capitais e das pequenas cidades abordam os desafios do cotidiano, ainda que não usem as palavras diversidade e inclusão, mas ao falar sobre violência contra a mulher, mortalidade da população negra, acesso das crianças com deficiência às escolas, diversidade sexual humana, a inversão da pirâmide etária do Brasil, entre tantos outros assuntos que fazem parte da vida das pessoas, empresas e do poder público, em suas diversas esferas.

Além disso, estive nas mais variadas empresas seja dos segmentos de mineração, financeiro, varejo, agro, bebidas, energia e tantos outros. E, portanto, pude observar alguns fenômenos, entre eles, o fato de que não importa em que região do Brasil eu esteja, Sul, Sudeste, Centro-Oeste, Norte ou Nordeste, não importa se estou no Paraná ou no Acre, e nem qual o setor de atuação da empresa, quando estou em uma sala de liderança dentro de uma grande empresa, a composição é sempre majoritariamente ou exclusivamente de homens, brancos, héteros, sem deficiência e cisgêneros. Embora nem sempre estejam familiarizados com essas nomenclaturas.

Outro ponto é que, como nos últimos tempos, a liderança tem comentado sobre a falta de paciência de profissionais com marcadores identitários de diversidade, ou seja, mulheres, negros, pessoas com deficiência, LGBTQPIA+, entre outros, em ensinar, explicar e acolher aqueles que replicam, conscientemente ou inconscientemente, paradigmas ultrapassados na gestão das empresas ou das equipes que reverberam comportamentos tidos como excludentes ou discriminatórios.

Esse tipo de ocorrência, recentemente, extrapolou publicamente as paredes das grandes empresas e foi para o entretenimento de massa. Quem assistiu ao Big Brother Brasil pode notar, em quase toda a edição, que muitas vezes em situações de conflitos, aqueles que estavam envolvidos, como agentes causadores da situação, pediam paciência e que alguém explicasse qual seria a forma correta a ser feita, alegando não saber o que estavam fazendo de errado e o porquê de as pessoas estarem tão magoadas com as situações levantadas.

Bem, de fato, quem quer mudar o mundo e transformar a sociedade tem mesmo que ter paciência para explicar. Eu mesma sou alguém que ano após ano me comprometo em ensinar pessoas, dialogar com elas, escutar, aprender e construir junto. Portanto, concordo com alguns dos pedidos de ponderação, paciência e explicação. No entanto, o que tem me chamado a atenção é o entendimento, praticamente compulsório, de que o lado que é o receptor da ação, e que por vezes se sente agredido, e com razão, ser sempre o lado de quem é demandada a inteligência emocional.

Digo, uma mulher que sofre uma fala machista, um negro que escuta uma fala racista, um LGBTQIAP+ atingido pela LGBTfobia e uma pessoa com deficiência que passa por capacitismo uma pessoa gorda que passa por uma situação de gordofobia, devem, por essa pretensa lógica, sofrer a ação de desrespeito ou desigualdade e, ainda assim, ter o equilíbrio emocional de lidar com a situação, entender que aquilo que foi dito foi um equívoco e explicar, pacientemente e com todo o cuidado, para não incorrer no risco de ofender o interlocutor no caminho de volta dessa conversa. Porque se isso acontecer, haverá o risco eminente dessa pessoa ser taxada como desequilibrada, extremista e afins.

E é claro que isso nem sempre será possível, depende da ofensa, do contexto, da história de vida de cada pessoa. São inúmeros os fatores. Então, pensamos, por que quem está do lado da dúvida e do desconhecimento, da reprodução – que seja, inconsciente de seus vieses – também não tem despendido tempo para pesquisar proativamente? Ler livros, assistir aos milhares de vídeos gratuitos e de excelente qualidade disponibilizados on-line, reestudar à luz da perspectiva da vida adulta e contemporânea a história do Brasil? Mudar a postura de “se é importante para você me ensine” para uma postura de “isso é importante para mim e para nós e vou buscar conhecimentos sobre isso”? Somos todos responsáveis pela construção de uma sociedade melhor para todas e todos, não é mesmo?

O simples fato de jogar a bola no pé do outro, esperando que aquele que se encontra no grupo minorizado seja sempre aquele que tem que ter mais paciência e boa vontade para explicar, já é a expressão direta de uma sociedade desigual e que trata as pessoas de forma diferenciada em relação aos seus diretos básicos.

Trata-se de entendermos, ou não, que todos são igualmente sujeitos de direitos, e que é responsabilidade de cada um de nós estudar, entender, conversar e buscar proativamente em suas ações cotidianas a transformação da sociedade.