Quase sempre quando falamos de diversidade e inclusão, jogamos a responsabilidade em outras pessoas. Achamos que somos super inclusivos, diversos, humanos, justos, mas que há alguém, um outro, distante de nós, que é ruim e faz da sociedade esse lugar machista, racista, LGBTfóbico, capacitista. Por isso, gosto muito desse título da palestra da Dra. Fernanda Macedo, advogada da Gestão Kairós: “Onde você guarda o seu preconceito?”.

Não se trata de se você é ou não preconceituoso, porque na sociedade atual todos nós somos. Trata-se de onde você guarda e esconde seu preconceito, seu viés inconsciente, seu prejulgamento sobre outras pessoas, qualificando-as ou desqualificando-as com base em seu gênero, raça-etnia, identidade de gênero, orientação sexual, se com ou sem deficiência, condição física, regionalismo ou tantas outras características.

E como eu posso te ajudar a refletir e pensar sobre isso? Veja, quando pensamos em discriminação, ou em uma pessoa capaz de destratar outra pessoa, única e exclusivamente, devido ao fato dela ser homem ou mulher negra, com deficiência, homossexual, bissexual, travesti, transexual, idosa, a maioria de nós concorda que isso é hediondo, sente aversão e pensa que alguém capaz de um gesto tão condenável deve ser uma pessoa monstruosa.

Aí é que está, não se constrói uma sociedade discriminatória sem que cada um de nós tenha a sua parcela de responsabilidade, sem que cada um de nós reproduza no dia a dia esses comportamentos ou mesmo valide esses comportamentos discriminatórios em outras pessoas.

Exemplificando, quando uma mulher sofre assédio sexual, a primeira coisa que você faz é perguntar como ela estava vestida, questionando o comportamento da mulher e não do agressor. Dessa forma, você está reproduzindo um comportamento machista. Ou quando você é se opõe à contratação de um profissional com deficiência para determinada função ou atividade porque acha que ela não conseguirá realizar o trabalho, devido ao fato de ela ser uma pessoa com deficiência, nesse caso você está sendo capacitista.

Ao expressar que de certa forma considera que pessoas LGBTQPIA+ (lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e todas as ramificações da diversidade sexual), são promíscuas, você está sendo LGBTfóbico. Se você em algum momento diz que não quer ser atendido por um profissional negro em qualquer lugar que seja, ou mesmo demonstra estranhamento em relação a presença de uma pessoa negra no mesmo estabelecimento que você está, estas são atitudes racistas.

São milhares de situações cotidianas, algumas mais evidentes e outras menos, nas quais reproduzimos um comportamento social excludente. E naturalizamos assim a ausência de mulheres, negros, pessoas com deficiência, LGBTQPIA+ nos lugares em que estamos ou frequentamos. Naturalizamos o assédio contra as mulheres. E por fim, o mais grave, naturalizamos que pessoas com esses marcadores identitários de diversidade sejam mortas simplesmente por serem quem são. O Brasil tem os índices mais altos de violência em relação a esses grupos sociais.

Esse caminho de naturalização também vira um caminho de omissão. Simplesmente nos omitimos quando vemos situações equivocadas na nossa frente no dia a dia. Por exemplo, se você passa na entrada de um banco livremente com uma bolsa e vê que a pessoa negra atrás de você também com uma bolsa é parada, você interfere? Fala com os seguranças? Conversa para saber o porquê daquela atitude?

Você vê uma mulher sendo assediada na rua, vai ajudá-la? Irá apoiá-la contra um eventual agressor, assediador ou qualquer outro tipo de abuso? E se ver uma pessoa homossexual sendo agredida na sua frente irá intervir? Passa pela rua e vê um grupo de pessoas sendo agressivas com um morador de rua? Isso lhe diz respeito?

No contexto de uma sociedade regida pelos direitos humanos e pela democracia, todas essas situações que menciono são responsabilidade de todos nós e de cada um de nós. Por isso, em todas elas deveríamos interferir, ajudar, contribuir para que as pessoas não tenham os seus direitos humanos básicos violados. Na diversidade, mas do que em qualquer outro tema, vale a máxima “quem cala consente”.  Ou quem cala se omite, e deixa o rumo das coisas seguirem como estão. Para construir uma sociedade mais inclusiva, precisamos que cada um de nós saibamos onde guardamos nosso preconceito, encará-lo de frente, e escolher ser proativamente no futuro, pessoas melhores do que somos hoje.