A frase desse título não é minha, ela é da querida professora Ester Freitas, com quem aprendi muito quando fiz, em meados de 2009, o MBA de Gestão da Sustentabilidade. No curso de Teoria das Organizações, a professora nos colocava uma série de reflexões e, entre todos os aspectos, nos chamava à atenção para um traço comportamental do brasileiro, o de contornar situações, ao invés de confrontar de forma madura, educada e consciente quando há algo errado acontecendo e que precisa ser mudado.

Na prática, isso quer dizer que mesmo quando vemos algo errado acontecendo em nossa frente, para não nos indispormos, preferimos deixar passar, sorrir e fazer a política da boa vizinhança. Esse traço de comportamento pode até ter sido de alguma forma justificável no passado, mas hoje em dia não faz mais sentido. Estamos em um mundo pandêmico, polarizado, da pós-verdade, sendo expostos a situações que clamam pelo nosso posicionamento e tomada de decisão a todo instante.

Diante de comportamentos mórbidos, irresponsáveis e maldosos, como nós, individual e coletivamente devemos nos posicionar? Seja em empresas, seja dentro de casa, seja ao caminharmos pelas ruas?

O que não podemos mais aceitar em 2021? O que está contrário aos padrões civilizatórios que temos buscado há anos? Vale a pena nos indispor e fazer inimizades em prol de lutas por direitos universais de vida e dignidade humana? Na minha opinião, com certeza sim! Mais do que valer a pena, é preciso fazer isso!

Por exemplo, você está andando na rua e vê uma pessoa negra sendo chamada de macaca ou, uma pessoa homossexual sendo agredida física ou verbalmente? O que você faz? Teoricamente, o problema talvez não seja seu, no sentido que você não conheça os envolvidos ou não fez nada para se envolver em uma situação desconfortável. No entanto, como cidadão, indivíduo que por meio dos seus comportamentos diários, gestos e escolhas, está fazendo parte da construção da cultura, da sociedade e do país, seria o caso de parar, atentar-se para o que está acontecendo, e quem sabe se alguma injustiça está ocorrendo ali naquele contexto, até se envolver.

Quem sabe sinalizar aos envolvidos que discriminação no Brasil é crime? Ou ainda, que segundo a Declaração Universal dos Direitos Humanos, toda pessoa tem direito à vida, à liberdade e à segurança? E, em caso de violência explícita, como vimos recentemente no Brasil uma pessoa sendo morta devido ao uso desproporcional da força por parte de seguranças em um estabelecimento comercial. O que você faria diante de uma situação como essa? Paralisaria diante do horror? Pegaria o celular para filmar? Ou quem sabe chamaria ajuda, exigiria que os seguranças parassem com a violência? Quem sabe até tentar juntar um grupo de pessoas e se colocar entre os agressores e o agredido?

Da forma como temos visto o avanço de violências e injustiças no Brasil, certamente, você em algum momento se verá diante de uma situação dessas e precisará decidir se irá contorná-la, fingir que não viu, se omitir, ou, confrontá-la de forma consciente, madura, educada, porém transformadora.

Nossos antepassados talvez tivessem menos informações do que temos hoje. No entanto, apesar de tanta informação, que às vezes até nos desnorteiam, não conseguimos assimilar, nem transformar informação em conhecimento. Mas uma coisa sabemos e é certa, não podemos mais como cidadãos firmar um pacto pela mediocridade que nos leva a não atuar diante de situações de injustiça, de violência ou de morte.

Não podemos mais contornar e nos omitir frente à realidade complexa que se descortina diante de nossos olhos, por receio de confrontar e fazer o que é certo. A mudança começa a partir da gente, vamos juntos rumo ao mundo melhor?