Fico impressionada em como a forma recorrente que as pessoas encontram para expressar seus preconceitos é disfarçando a discriminação por meio de piadas. Um comportamento hediondo de desqualificar outras pessoas, com a prerrogativa de que, se a outra pessoa não acha graça, ela não entendeu a piada, é mal-humorada ou chata.

“Mas agora não posso mais fazer piada de nada, Liliane?”, perguntam os engraçadinhos que se divertem às custas da desqualificação, tentativa de humilhação e falta de empatia total com outras pessoas.

O caso do momento é do Zé Felipe e da Virginia Fonseca. Faço questão de, como sempre, reforçar que meu intuito aqui não é gerar o chamado cancelamento de ambos, nem instigar uma “caça às bruxas”, mas realmente reforçar que todos nós somos responsáveis por aquilo que falamos. E pessoas públicas, no caso, deveriam ser ainda mais responsáveis, coerentes e cuidadosas.

Gordofobia recreativa – busco aqui as referências do racismo recreativo – sobre o qual estudo muito – é um comportamento totalmente reprovável, sendo o humor gordofóbico uma expressão de ódio, em uma sociedade que prega um falso padrão no qual os corpos naturalizados e aceitos são sempre magros. São padrões estritos e ilusórios que deixam grande parte da população de fora.

Lembremos que, por vezes, o humor deriva de um pretenso sentimento de superioridade em relação ao outro, trazendo uma analogia com o livro “Racismo Recreativo”, de Silvio de Almeida, a psicologia analítica nos diz que, “aquele que conta piadas não o faz por um simples objetivo de produzir efeito cômico, que traz prazer para as pessoas que ouvem […].” Para Freud, “o humor de caráter hostil ou derrogatório procura atacar um grupo de pessoas vistas como diferentes ou inferiores”.

Assim como a Cristiane – jovem vítima da gordofobia dos influenciadores –, ninguém deveria passar por situações similares a esta, seja por uma postagem nas redes sociais, seja em família ou seja no dia a dia no trabalho.

Lembro de histórias de empresas nas quais vi pessoas deixando de ser contratadas para a recepção por serem gordas, ou pessoas serem motivo de piadas de colegas de trabalho devido ao tamanho do seu uniforme.

Não à toa, influenciadores positive body têm ganhado cada vez mais espaço nas redes sociais e no nosso coração. Queremos ver todos os corpos refletidos e apreciados! Amo Juliana Romano, Caio Revela, Polly Oliveira, Beta Boechat, Mayzinha Plus, Mel Soares, e tantos outros que nos dão um banho de empoderamento, autoestima e corpo livre.

Precisamos, portanto, ter consciência da construção de padrões sociais de beleza instituídos e que foram reforçados pela indústria da moda que, historicamente, excluiu por tanto tempo corpos gordos.

Parece que a história está mudando, já que neste ano a SP Fashion Week trouxe corpos e estilos diversos. Tivemos pessoas baixas, altas, gordas, magras, negras, brancas, com e sem deficiência. Foi um show de diversidade! Revistas que são referência na moda também têm, cada vez mais, estampado em suas capas e nas páginas toda a representatividade da sociedade brasileira.

Como diria Ale Mujica, em uma palestra que fizemos juntos, “queremos construir coletividade e reconstruir espaços de empoderamento de todos os corpos, gêneros, sexualidades, etnias”.

Quais são os corpos possíveis, movimentos possíveis, velocidades possíveis, jeitos de ser possíveis e por que estamos restringindo tanto o que significa ser humano? Como quebramos o pensamento hegemônico que coloca alguns corpos e formas de ser como sujeitos centrais na sociedade e outros não?

E encerro com a frase da escritora feminista Chimamanda Ngozi Adichie, “precisamos sair da narrativa de uma história única”. O homem ou mulher, branco, magro, hétero, cisgênero, de meia-idade não representa a totalidade das narrativas e das vivências que temos em sociedade! Então, minha proposta é que você reflita sobre isso e haja diferente hoje, seja inclusivo, ame o seu corpo e todos os corpos como eles são!