A frase que dá título a este artigo parece um bordão discriminatório e sem graça dos antigos programas de humor “Zorra Total” e “A Praça é Nossa” da década de 1990, mas – acreditem ou não – foi dita por uma pessoa que é profissional de Recursos Humanos de uma grande rede de farmácias, em um grupo de WhatsApp destinado à troca de informações para contratação de profissionais.

O áudio começa assim: “Uma observação, já estou ligando para as lojas para liberar as vagas para esse mês ainda, porém você sabe que feio e bonito é o mesmo preço, né gente. Pessoas muito tatuadas, vocês sabem que a empresa não gosta, […] pessoas muito gordas, então, assim, cuidem das aparências. Se pegar alguém – com todo respeito – viado, tem que ser uma pessoa alinhada que não desmunheque. Vamos cuidar das equipes que a gente vai pegar. Vamos pegar gente com a aparência boa, com disposição, com vontade. Eu tenho feito as entrevistas para as lojas de Imbé e tem muita gente boa disponível no mercado. Então, não esqueçam: feio e bonito a gente vai pagar o mesmo preço, então vamos pegar os bonitos, né. Porque não somos bobos nem nada.”

E sinceramente, tem tanta, mas tanta coisa errada neste áudio, no procedimento da funcionária e na postura da empresa que fica até difícil elencar. Eu, particularmente, não gosto de escrever sobre casos do momento, nem de entrar em linchamentos virtuais sobre fatos que estejam todos palpitando, mas alguns casos realmente servem para exemplificar tudo o que está acontecendo de errado e que precisamos de uma vez por todas abolir das práticas corporativas. Sendo assim, optei por listar abaixo os sete principais erros cometidos pela empresa em questão:

1) Funcionário(a) de Recursos Humanos despreparado(a) – Sempre digo em todos os treinamentos e palestras que a liderança e a área de Recursos Humanos devem, obrigatoriamente, ser as primeiras a passar por treinamento quando falamos de diversidade e inclusão. Não por serem mais importantes que as demais, mas por serem as guardiãs das práticas de gestão de processos e pessoas das empresas. Quando o RH e a liderança incorrem em práticas discriminatórias, dificilmente o restante da empresa estará atuando em prol da diversidade, inclusão, responsabilidade corporativa e ESG (Ambiental, Social e Governança).

2) Naturalização da discriminação como forma de gestão – Quando ocorre um caso extremo, como a morte de alguém, uma agressão física, um processo, a gravação da ocorrência, entre tantos outros fatos, a prática discriminatória com certeza já está acontecendo, cotidianamente, em menor grau, mas certamente todos os dias.

3) Coisificação de funcionários e colaboradores – Quando a profissional de RH diz que vai abrir as vagas e que “feio ou bonito é o mesmo preço”, está equiparando funcionários, colaboradores e equipe a coisas, objetos, produtos que podem ser comprados. Isto, por si só, já evidencia as práticas de RH ultrapassadas que estão sendo utilizadas pela empresa.

4) Padronização de uma visão única do que é beleza – Ainda sobre o “feio ou bonito é o mesmo preço”, ocorre uma qualificação ou desqualificação de um possível padrão de beleza na sociedade, quando na verdade sabemos que, em uma sociedade discriminatória, por vezes, a questão em si não tem nada a ver com a “beleza”, mas sim com racismo, gordofobia, LGBTfobia, capacitismo, entre outros.

5) Negação da ocorrência como primeiro posicionamento – O primeiro posicionamento que li nas redes sociais e portais de notícias, quando o áudio da empresa vazou, é que se tratava de fake news. Isso é muito triste, para não dizer deplorável, pois negar o que aconteceu é uma tentativa clara de se eximir da responsabilidade e tentar seguir em frente sem tomar as providências necessárias e corretas.

6) Resposta medíocre, de “isto é um caso isolado”, como segundo posicionamento – Logo depois de finalmente assumir que o caso realmente ocorreu, a empresa (CNPJ) terceiriza a responsabilidade para a funcionária (CPF), afirmando que ela foi demitida e que este é um caso isolado. Ou seja, a empresa não assume responsabilidade nenhuma, não diz que irá mudar as suas práticas internas de treinamento e capacitação, nem os seus processos em geral para se tornar uma empresa mais inclusiva.

7) A apatia do consumidor brasileiro no exercício pleno da sua cidadania em todos os momentos – A última reflexão é com você, caro leitor e cara leitora! Como você tem cobrado empresas que exercem ou chancelam práticas discriminatórias? Quando você vê uma empresa com práticas e condutas similares, cobra a responsabilidade dessa empresa? Sinaliza que poderá deixar de ser cliente se a empresa não mudar a forma de atuar? Atua como fiscalizador(a) ao entrar no estabelecimento novamente para verificar se algo realmente mudou? Não adianta dizer em pesquisas de opinião que não compraria mais de empresas racistas, machistas, LGBTfóbicas, capacitistas e no dia a dia, quando há uma ocorrência, ficar indignado por 24 horas e depois seguir comprando na empresa como se nada tivesse acontecido. As empresas e a sociedade mudam quando você muda.