Estava eu, problematizando e ruminando questões simples da minha vida cotidiana, quando, de repente, vejo na televisão uma notícia sobre Paraisópolis – SP, e percebo o quanto até os dilemas que nos atormentam são determinados pelos nossos privilégios sociais, em meio a uma sociedade tão desigual. Digo, claro, que as questões que me atormentavam naquele sábado à tarde eram pertinentes para mim, mas quando ao ver que naquela comunidade estava ocorrendo um desabamento, e uma pessoa tinha perdido a vida, voltei a pensar no que realmente importa. Há pessoas no Brasil sem casa. Há pessoas no Brasil sem comida. Há pessoas no Brasil sem acesso a um bom sistema de saúde.

No dia seguinte, ainda buscando informações sobre o fato, pude ver em uma matéria do UOL, que 1.500 famílias, que moram irregularmente sobre um córrego, estavam correndo o risco de ficar desabrigadas. Bem, imediatamente, falei com o Gilson Rodrigues, líder comunitário de Paraisópolis e amigo de longa data, para entender de que forma eu poderia ajudar, o que poderia ser feito e, principalmente, como as lideranças políticas da cidade de São Paulo estavam contribuindo, atuando diante daquela situação de emergência.

Ainda nas minhas pesquisas, um trecho de uma das matérias que encontrei dizia, “De acordo com a prefeitura, o plano de urbanizar a região e fornecer as casas é antigo e foi retomado em abril. Ao reunir-se com lideranças comunitárias na manhã de hoje, Nunes voltou a propor o pagamento de um auxílio-aluguel de R$ 400 às 1.500 famílias sob risco, para só depois fornecer as novas residências.” Conheço de perto essa favela de São Paulo. Há cerca de quatro anos, estou presente em atividades com a comunidade, realizo palestras, faço a mentoria de uma das líderes comunitárias e, antes da pandemia, também visitei a lazer por diversas vezes, pois são inúmeros os eventos culturais e gastronômicos realizados lá.

Acredito que posso dizer – e que é mútuo – que tenho amigos em Paraisópolis. E por isso, fico imensamente triste em saber que semelhantes estão neste momento passando por uma situação tão difícil. Agora, não posso deixar de pensar no quanto naturalizamos a pobreza e a privação a direitos básicos.

Vejo as favelas no Brasil como um fragmento da escravidão, uma forma de ignorarmos, ou secundarizarmos, a privação de uma parcela da população. Segundo dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), do IBGE, cerca de 78% dos mais pobres no Brasil são negros. No caso de Paraisópolis, especificamente, sei por conversas com o Gilson, que a ocupação iniciou-se a partir da década de 1950, com famílias de baixa renda, em sua maioria migrantes nordestinos, atraídos pelo emprego na construção civil. E que hoje grande parte da atual população, de 100 mil habitantes, é negra.

E aí me pergunto, como conseguimos dormir, cada um de nós, com a consciência tranquila, sabendo do abismo de desigualdades que temos no Brasil? O que não corrigimos até hoje enquanto país na esfera pública, terá que ser resolvido por cada um de nós, em ações individuais e coletivas, atuando junto as diversas lideranças comunitárias distribuídas por todo o país. Não há outra saída. Portanto, se você nunca esteve em nenhuma favela, recomendo que vá. Veja a face real do Brasil. Se não está atuando junto a nenhuma favela, comunidade, liderança comunitária, atue! Participe de projetos, faça doações, articule sua rede de parceiros, amigos, colegas de trabalho.

O cenário atual de pobrezas e desigualdades do Brasil é resultado de 388 anos de escravidão, e uma abolição que não focou em políticas de igualdade racial. A tão comentada Lei Áurea tinha somente dois artigos, que em resumo dizia: “vá e serás livre” e “é irrevogável”. Não havia políticas públicas de moradia, trabalho e em saúde. Resultado, 133 anos depois, seguimos falando no país, sobre mortes, por precariedade de moradia e saúde. Realmente, não dá mais para esperar. Te convoco e peço, vamos mudar esse cenário, hoje!