Vira e mexe, algum amigo, aliado ou parceiro, quando estamos conversando sobre os privilégios que algumas pessoas têm na sociedade, me pergunta como é possível ajudar a fazer a diferença. Como eles podem, no papel de aliados, contribuir para que as vivências cotidianas de grupos minorizados na sociedade brasileira sejam menos árduas?

Recentemente, durante uma reunião como Conselheira Consultiva de Diversidade, eu disse algo que ecoou muito entre os presentes e que gostaria de trazer para este artigo. A minha frase foi, “Eu me desgasto menos quando você, que está aqui nessa sala, se desgasta junto comigo!”. Depois dessa conversa, tive o cuidado de procurar o significado da palavra desgaste e não poderia ter achado mais pertinente. Na física, desgaste é a corrosão, modificação ou diminuição de algo por contato, fricção ou atrito. Não é exatamente isso que ocorre cotidianamente com pessoas que tem marcadores identitários de diversidade no Brasil atual?

Acho importante explicar o que eu quis dizer com isso. Atualmente, temos ouvido muito falar sobre aliados, em geral homens, mas também mulheres, brancos e brancas, heterossexuais, cisgênero, sem deficiência, que, dentro das empresas ou na sociedade, têm falado sobre a importância da valorização da diversidade, que é preciso tratarmos de forma igualitária negros, mulheres, lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, pessoas com deficiência. Até usam camisas em prol da diversidade, falam sobre esse tema em palestras e às vezes até mesmo brigam nos grupos da família. Tudo isso é muito louvável!

Mas, a minha questão central aqui é: será que estão realmente dispostos a se desgastarem, se cansarem junto conosco, que temos esses marcadores identitários, que somos mulheres, negros, LGBTQPIA+, pessoas com deficiência e estamos, cotidianamente, passando por uma série de sufocos, desrespeitos e violências na sociedade e nas empresas?

Vou exemplificar! Em uma sala de reunião, onde todos são homens e brancos, e eu sou a única mulher negra, quando um dos executivos presentes diz algo racista ou machista, caberá a mim que sou uma mulher negra sinalizar o inconveniente, ou será que poderei contar com o posicionamento, e às vezes desgaste, dos demais? Porque sempre é cansativo corrigir, por mais cuidadosa e acolhedora que seja a correção a alguém que não estava esperando por ela.

Às vezes corrigir alguém que fez um comentário racista, machista, LGBTfóbico e/ou capacitista pode nos custar aquele relacionamento para sempre. Tenho comigo que, por isso, tão poucas pessoas o fazem. Por esse motivo, também, essa obrigação é sempre delegada para aquela ou aquele da sala que tem um marcador de diversidade.

Vale para aquela frase que tem circulado muito nas redes sociais recentemente. “Você tem amigas que sofreram assédio? E amigos que são assediadores?”. Veja, se você tem amigas, funcionárias, colegas que sofreram assédio, mas não conhece nenhum assediador, algo está errado. Porque alguém na sociedade está exercendo o assédio sexual, o assédio moral, ou no limite, inclusive, essa pessoa pode ser você mesmo que está lendo esse texto.

Por isso, fico tão preocupada quando vejo cada vez mais pessoas se declarando aliados e aliadas da diversidade, e às vezes essa fala parece, como tantas outras, tomar contornos de superficialidade. Afinal, de nada adianta dizer “negro é lindo” e quando vê um negro sofrendo racismo na sua frente não fazer nada em relação a isso. Ou defender “mulheres no poder”, mas não ligar quando ver uma mulher sofrendo assédio.

Não adianta dizer que tem empatia com o meu desgaste, mas deixar eu me desgastar sozinha. Pensar que a responsabilidade por corrigir o outro, mudar cenários, ensinar as pessoas é sempre minha. Não é! A responsabilidade é de todos, mas principalmente a responsabilidade é de quem se diz aliado ou aliada da causa.

Sempre gosto de mencionar o caso da Dra. Ana, médica, branca, classe média, que ao passar na catraca do banco com uma bolsa, e ao ver uma mulher negra atrás dela sendo barrada também com uma bolsa, na mesma catraca, no mesmo banco, no mesmo momento, olhou para o segurança e disse, “ou as duas entram com a bolsa, ou eu vou sair imediatamente e deixar a minha bolsa lá fora”. Isso é se desgastar, se comprometer junto. Lutar lado a lado, de verdade, não de faz de conta.

Não há mais tempo para usarmos palavras bonitas, dizer que nos importamos e no dia a dia continuarmos a nos comportar da mesma forma. Também não há mais tempo para só intervir ou nos importar quando é conveniente, porém, nas situações mais difíceis, fazer de conta que não é conosco. O convite que te faço hoje é para que empenhe sua energia junto comigo, se desgaste, lute como se fosse com você, porque é! Se você não mudar, a sociedade não muda.