Nestes últimos dias do ano, quis compartilhar a minha vivência como empreendedora e executiva negra ao longo do ano de 2021. Como sempre, penso que ser uma mulher, negra, lésbica, oriunda de baixa renda e, ao mesmo tempo, ser fundadora de uma das maiores consultorias de Sustentabilidade e Diversidade do Brasil, sempre me coloca um pouco no papel de simultaneamente ser médica e paciente.

Por um lado, trato das curas que a nossa sociedade precisa, por outro vivo no cotidiano as mazelas que essa estrutura impõe a mim mesma. No que se refere à valorização da diversidade, 2021 me fez perceber muito avanço, mas também muito retrocesso em andamento.

Ao mesmo tempo que a demanda das empresas por consultorias de diversidade e inclusão aumentou, a propensão a pagar por este tipo de serviço especializado ainda segue duvidosa. Ao mesmo tempo que falamos mais sobre ESG (Ambiental, Social e Governança) no contexto empresarial, os parâmetros para contratação de pequenos empreendedores seguem sendo massacrantes.

Da mesma forma que a visibilidade de mulheres, negros, pessoas com deficiência, LGBTQPIA+, jovens, idosos, pessoas das mais variadas religiões e com todos os tipos de corpos aumenta, seguimos vendo uma sub-representatividade tremenda na alta liderança e em posições de destaque em toda a sociedade. E ainda, seguimos vendo fotos das mais variadas empresas com uma ausência quase que total de negros, como foi o caso da XP Investimentos, da Audi e do Nubank.

Vemos comerciais e propagandas lindas sobre diversidade e sustentabilidade, mas clientes negros sendo barrados, espancados nos mais variados estabelecimentos em todo o Brasil. Estaríamos ainda vivendo as complicações do Diversitywashing, da Lavagem da Diversidade? -termo do qual sou detentora oficial com registro no INPI e biblioteca nacional, cunhado para chamarmos a atenção justamente para o fato de que algumas empresas se apropriam de atributos de diversidade sem – de fato – realizarem um trabalho efetivo nesta frente.

Por isso, como empreendedora negra, digo que esse ano vi minha empresa crescer ainda mais, fiquei feliz em contratar para trabalhar comigo equipes com marcadores identitários diversos, em ver que nosso trabalho tem ganhado o mundo e que, pelo terceiro ano consecutivo, fui eleita uma das 101 lideranças globais de diversidade pelo World HRD Congress, realizado em Mumbai, Índia.

Ainda assim, por vezes sinto na pele o racismo, o machismo e a LGBTQPIA+fobia estruturais no Brasil. Às vezes, em processos cotidianos bem simples como, por exemplo, não mencionarem o nome da empresa que fundei, a Gestão Kairós, e, portanto, a nossa propriedade intelectual.

Pois bem, se você está pretendendo empreender em diversidade e inclusão, ESG, sustentabilidade no ano que vem, saiba que encontrará incoerências, pois essas são intrínsecas à natureza humana. Terá lacração, mas acima de tudo terá muita ralação.

O trabalho do empreendedor é constante, cotidiano e os perrengues não são vistos, mas fazem parte de toda a jornada. Por outro lado, você também encontrará muita gente, muitos profissionais com uma vontade genuína de mudar a realidade, muitas pessoas que têm dedicado a vida a esta missão.

Tenho tido a alegria de conhecer presidentes de empresas, artistas, pessoas públicas que estão profundamente engajados com a mudança e isso me renova a cada dia, mesmo nos momentos mais difíceis, é essa constatação que me enche de energia para seguir trabalhando, consistentemente, na mudança da sociedade.

Que 2022 seja, de fato, um ano com mais diversidade e inclusão para todos!