O vídeo é simples. O pastor Claudio Duarte, muito educado, cortês e ponderado diz: “nunca coloquei ninguém para fora porque é hetero ou homo. Ninguém jamais vai sair expulso da igreja que eu pastoreio”, e, logo depois, afirma “eu não sou a favor do relacionamento homoafetivo”. Ou seja, fala sobre não segregar, excluir nem expulsar pessoas homossexuais da sua igreja, mas conclui afirmando que não concorda com essa forma de relacionamento e assim reforça o seu posicionamento contrário ao casamento gay. E ainda complementa que “não irá negociar com o homossexualismo”.

Sei que em tempos de polarização, espera-se que eu talvez deixe de valorizar o que há de bom na fala do pastor Claudio Duarte. No entanto, é justamente o fato de ele ter uma postura cordial que pode nos levar a misturar as estações: entre o quanto ele se mostra e é uma pessoa gentil versus a mensagem que passa em seu discurso LGBTfóbico.

Antes de qualquer reflexão, é importante destacar esses dois pontos, pois a vida, não é em si, definida na base de tons pretos e brancos, extremistas e polarizados, como, por vezes, temos feito parecer no Brasil desses últimos anos. Há uma imensidão de tons de cinza! Neste caso, o pastor Claudio é uma pessoa cativante e que tenta trazer, pelo visto, genuinamente, um discurso acolhedor, mas por fim, acaba reforçando falas excludentes e que não englobam em plenitude uma perspectiva do direito de todas as pessoas.

Por que resolvi escrever sobre esse tema? Porque há alguns anos tenho notado o quanto é perigoso o caminho que mistura intenções e práticas. E o quanto pessoas – a priori boas, sem querer acabam reproduzindo um comportamento discriminatório. Ou seja, por mais cordata e cordial que uma pessoa é ao expressar uma opinião, se ela estiver de algum modo desrespeitando direitos humanos básicos, como o direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal, a fala é em si equivocada.

Neste sentido, em um país no qual, segundo o Relatório: Observatório de Mortes Violentas de LGBTQPIAI+ no Brasil, de 2020, do Grupo Gay da Bahia, uma pessoa LGBTQIAP+ é assassinada a cada 36 horas, e em um país em que lideramos o ranking de assassinato de pessoas trans, é um risco ter pessoas públicas, famosas, formadores e influenciadoras de opinião como Caio Castro e Rafa Kalimann, compartilhando e, em certa medida, endossando a fala equivocada do pastor, devido à sua postura amigável ao abordar esse tema.

Em que pese o pastor Claudio traga uma narrativa de vida que nos sensibiliza, e por que não que nos cativa? Culmina a sua explanação em que afirma, repito, “não negociar com o homossexualismo”.

Aqui, as analogias históricas podem nos ajudar, da mesma forma como hoje muitas pessoas consideram casamento homossexual um equívoco, vamos lembrar que durante muitos anos casamentos entre pessoas brancas e negras também eram proibidos. Até o dia 7 de novembro de 2000, por exemplo, o Estado do Alabama, nos Estados Unidos, possuía uma previsão constitucional que proibia o casamento entre negros e brancos.

Lembrando que o artigo nº 16 da Declaração Universal dos Direitos Humanos diz que “os homens e mulheres de maior idade, sem qualquer restrição de raça, nacionalidade ou religião, têm o direito de contrair matrimônio e fundar uma família. Gozam de iguais direitos em relação ao casamento, sua duração e sua dissolução”.

Neste sentido, parafrasearia, dizendo que não podemos negociar com falas bacanas, mas que terminam por reforçar uma perspectiva excludente de sociedade. Então, quando falamos de diversidade, parece que estamos o tempo todo escorregando no dilema do que é uma simples manifestação de opinião, e o que é expressão deliberada de discriminação, preconceito, racismo e LGBTfobia.

Minha dica é simples: se o seu pensamento, por mais interessante que você seja, ao final defende a privação de algum direito básico de alguém, como acesso ao trabalho, estudo, saúde moradia ou o exercício pleno do ser o que se quer ser, e nega a alguns o direito de se casar, isso não é uma simples opinião, é exclusão!

O pensamento emitido impacta a vida das pessoas e reverbera na estrutura social que trata de forma desigual pessoas homossexuais, bissexuais e transgênero, e demais ramificações da diversidade sexual, das heterossexuais e cisgênero, cuidado, tenha muita atenção!

A minha opinião é a mesma de Gil do Vigor, que se posicionou e teve que explicar à Rafa Kalimann o porquê de ser errado o compartilhamento de tal conteúdo. Então, pense duas vezes antes de emitir sua opinião ou compartilhar o que quer que seja. Avalie o que é de fato ser inclusivo. O que é de fato amar a todas as pessoas sem distinção e criar um mundo igual para todos. É o mês do orgulho LGBTQIAP+ e teremos muitas oportunidades para conversar de forma aberta e clara sobre esse assunto e realmente coconstruir uma sociedade melhor para todas e todos.