Quem acompanha o mercado financeiro notou que nos últimos meses o noticiário sobre ESG (sigla em inglês para fatores ambientais, sociais e de governança considerados na análise e gestão de investimentos) e investimentos de impacto tem crescido significativamente.

Apesar de não serem conceitos novos, com a primeira menção a ESG datando de 2004 e a investimentos de impacto em 2007, a pandemia do Covid-19 pareceu ter acelerado a adoção dessas estratégias por gestores de investimento de todos os tipos e tamanhos.

O propósito desta coluna é discutir, de forma prática e acessível, como a consideração de fatores que vão além dos retornos financeiros impacta as decisões de investidores e empreendedores ao redor do mundo e por que você deveria se preocupar com isso.

Neste post inaugural, trago o caso do IPO de uma empresa na bolsa de valores de Londres mas cujo modelo de negócios tem sido muito presente no nosso dia-a-dia em tempos de isolamento social.

A Deliveroo (LON: ROO) é uma empresa inglesa de tecnologia que funciona como um marketplace que media a relação entre restaurantes, entregadores autônomos e clientes de delivery, um modelo semelhante aos nossos aplicativos de entrega brasileiros. A empresa conta com investidores de “placa” no mundo da tecnologia e já havia levantado mais de US$1,5bi antes da abertura de capital.

O IPO de US$ 2,8 bilhões seria o maior da bolsa de Londres desde 2011, e era antecipado como um grande sucesso dada a demanda por negócios de tecnologia nas bolsas do mundo todo. Mas o sucesso não veio e as ações fecharam em queda de 26% no primeiro dia de negociação e parte do fracasso é explicado justamente por fatores sociais e de governança relacionados ao negócio.

Analistas de diferentes casas de investimento apontaram que o preço da empresa não levava em consideração diversos riscos e externalidades negativas relacionadas a como a empresa trata seus entregadores.

Hoje “empreendedores autônomos”, trabalhadores da gig economy (economia do “bico” numa tradução livre) têm ganhado batalhas jurídicas ao redor do mundo para serem tratados como funcionários das empresas de aplicativos. Em março, a Uber anunciou que classificaria o status de mais de 70 mil motoristas do Reino Unido como empregados da plataforma.

Se os custos dessa conversão fossem somados aos fluxos de caixa da Deliveroo, empresa que ainda não dá lucros, talvez o modelo de negócios sequer fosse viável. Aqui no Brasil, o modelo começa a encontrar resistência por movimentos como o Breque dos Apps e o coletivo Entregadores Antifascistas que lutam por condições mais dignas de trabalho.

Além dos fatores sociais, investidores apontaram problemas na governança confusa da empresa. A empresa se organizou em um modelo com duas classes de ações, permitindo que os fundadores da companhia mantivessem maior influência sobre o controle do negócio.

O modelo de duas classes de ação em si é comum, presente em várias jurisdições, incluindo a brasileira. No entanto, a empresa buscou listagem em um segmento premium da LSE (algo como nosso “Novo Mercado”) cujas exigências de governança são refratárias ao arranjo.

O preço das ações segue em queda e é difícil prever qual será o desfecho da história para a Deliveroo ou mesmo as implicações para modelos semelhantes em outros mercados, mas o caso deixa claro que investidores e consumidores estão cada vez mais atentos ao papel desempenhado pelas companhias na sociedade.

Como meu sócio costuma dizer, investir seu dinheiro sem se preocupar com o impacto que essa decisão tem na sociedade ou no meio ambiente está ficando tão fora de moda quanto fumar no avião ou jogar papel na rua. A boa notícia é que além de fora de moda, isso está começando a doer no bolso também.