É tempo da campanha do Setembro Amarelo, dedicada à prevenção do suicídio e promoção da saúde mental no Brasil. Não era o ideal, mas foi preciso uma pandemia para que mais gente compreendesse o efeito dominó, no aspecto social e econômico, da negligência no cuidado com a saúde mental.

Para os investidores – que vale lembrar, são pessoas – fica a dica: quanto mais atenção uma empresa dá à saúde mental dos seus funcionários, menor o risco e maior o potencial de retorno financeiro para os investidores. No mundo do ESG, o S também é de saúde mental.

A explicação por trás disso é que empresas são um conjunto de pessoas trabalhando juntas. Quanto mais equilibrado e saudável estiver esse grupo de pessoas, mais disposto e produtivo ele fica. Mas, se ao contrário, os funcionários ficam ansiosos por vários dias seguidos e há sucessivos casos de burnout, o conjunto de pessoas entra em desequilíbrio. O resultado você já deve ter sentido na pele: a produtividade cai.

Na lógica das empresas, perder produtividade é risco e sai mais caro. Já ganhá-la significa potencial de retorno, já que ela eleva o potencial de inovação, novos negócios e até vantagem competitiva. O investidor também sai ganhando.

O impacto da saúde mental em dólares

Casos de ansiedade e depressão impõem uma perda de US$ 1 trilhão por ano para a economia global, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). É esse o prejuízo econômico da perda de produtividade dentro das empresas.

Na contramão, a mesma OMS aponta que a cada US$ 1 gasto na promoção e tratamento das questões mais comuns da saúde mental, como ansiedade, há um retorno de US$ 4, que vem do aumento da produtividade das pessoas mais saudáveis. Ou seja: a saúde mental não é uma questão restrita à área de gente e recursos humanos.

Na pandemia, o contraste entre o cuidado e o não cuidado ficou evidente e fez crescer as discussões sobre o tema e o número de empresas oferecendo benefícios relacionados à saúde mental, como sessões de terapia gratuitas. Segundo a Fortune Business Insight, o tamanho do mercado global de terapia digital era avaliado em US$ 2,6 bilhões em 2019, e deve alcançar US$11,8 bilhões em 2027.

Atenção investidor: o movimento das empresas precisa soar como um sinal de alerta. Se o mercado está investindo na saúde mental, é porque o tema impacta as contas. E da mesma forma, precisa impactar a sua tomada de decisão – se não pelo bem-estar de cada um, pelo potencial das empresas mais atentas.

Como identificar as políticas de saúde mental de uma empresa?

● Pesquise o que há sobre a empresa nas redes sociais
● Como colaboradores antigos ou atuais interagem com as publicações nas redes sociais?
● Há reportagens noticiando casos de assédio ou práticas inadequadas?
● O que dizem os conhecidos que trabalham ou trabalharam na empresa?
● Busque informações em sites e bancos de dados como Glassdoor

O antiexemplo do Goldman Sachs

Mesmo em meio a tantas discussões sobre saúde mental e burnout, em agosto deste ano o Goldman Sachs, um dos principais bancos de investimento do mundo, decidiu dobrar a aposta – e não foi na saúde mental.

Analistas em início de carreira, já representados pelas novas gerações atentas à responsabilidade social e propósito, vinham reclamando das condições de trabalho, pressão e burnout. O resultado é que nunca o salário para os primeiros anos da carreira foi tão alto. Quem recebia US$ 85 mil/ano, passou a receber US$ 110 mil/ano. Os salários de US$ 95 mil foram elevados para R$ 125 mil.

Resta saber o limite do quanto as pessoas estão dispostas a “se venderem”. O Goldman Sachs está literalmente pagando para ver, mas o ajuste pode ter vida curta.

Afinal, o que é uma boa política de saúde mental?

A que promove a segurança psicológica entre os funcionários, como mostra uma pesquisa do Google. Essa segurança fomenta a colaboração e a diversidade de ideias, ampliando o potencial de inovação e mitigando situações em que diferenças pessoais causam atritos, reduzindo a produtividade do time. A conclusão do Google é que importa mais como o time funciona do que quem faz parte dele.

E uma das formas de promover tal segurança é via um programa de gestão de saúde mental oferecido pela empresa. A proposta é fomentar a autopercepção e autocuidado, de modo a reduzir o risco de ansiedade, depressão, insônia e burnout entre os colaboradores.

Para deixar o tema mais comum, as empresas devem falar mais sobre saúde mental, autoestima, confiança, ansiedade e estresse. Que sensações são comuns? Que situações podem ser gatilho? O que é inteligência emocional? Junto aos gestores, é preciso ir além e capacitá-los com as melhores práticas de gestão e inclusão, mitigando o risco de abuso de poder ou indiferença com o sofrimento dos colegas.

Por fim, antes de colaborador, chefe, consumidor ou investidor, somos pessoas. E como pessoas sentimos na pele a importância do bem-estar e da saúde mental no nosso dia a dia e no trabalho. Como 100% dos investimentos impactam vidas, que tal você pensar como os seus estão impactando a saúde integral e mental de cada um?