O relatório sobre mudanças climáticas publicado pela ONU há poucos dias deu o que falar. Estamos chegando próximo ao aumento de 1,5ºC na temperatura uma década antes do previsto. O nível do mar já está subindo, e alguns efeitos no planeta parecem estar atingindo um patamar irreversível – ou um ponto de inflexão, como dizem os especialistas.

Com o avanço da tecnologia e dos procedimentos científicos, os especialistas e pesquisadores já conseguem provar que a atividade humana tem influência direta nas mudanças climáticas.

Por exemplo, as ondas de calor marinhas têm sido muito mais longas e frequentes nos últimos anos, e de 2006 para cá, a sociedade já é responsável por 84% dos fatores que levaram a essa mudança no padrão. O efeito sobre a vida terrestre é grande: 90% de todo o comércio internacional se dá por vias marítimas. Se ele é afetado, cai a oferta de produto e aumentam os preços e a inflação.

Diante da avalanche de informação e notícias um tanto ruins, dá até uma sensação de impotência. Mas que tal olhar essa responsabilidade humana não como “culpa” mas sim como possibilidade de reação? Se a atividade humana influenciou as mudanças climáticas negativas, o que outro tipo de atividade, também humana, pode fazer para mitigar os danos e reverter os que forem possíveis?

Investidor, a bola está contigo. 

Vale reforçar a importância do mercado de capitais e investimentos. Os investidores têm o poder de influenciar o rumo da economia na medida em que seu capital estimula esta ou outra empresa, deste ou daquele setor. Então vale redobrar o cuidado e entender como está a emissão de carbono das empresas da sua carteira ou que seus fundos de investimento estão considerando hoje, e o que essas empresas têm dito sobre as emissões no futuro.

Onde investir? Algumas empresas que se destacam no esforço de reduzir as emissões estão no ICO2 B3, o Índice de Carbono Eficiente elaborado pela B3. Exemplos de companhias que compõem o índice hoje são Cemig (CMIG4), CPFL(CPFE3) e Duratex (DTEX3).

Mas focar a atenção apenas em formas de reduzir as emissões provocadas por modelos de operação tradicionais não é suficiente, e a um extremo pode limitar o potencial de rentabilidade no longo prazo. Precisamos ir além da compensação das emissões (compra de créditos de carbono equivalentes ao total de emissões de uma operação ou produto) e da redução dessas emissões (mudando fontes de energia e melhorando processos) na promessa de se tornar “net-zero”.

Oportunidades de mercado: A transformação para uma economia de baixo carbono passa por uma mudança mais sistêmica, que propicie novos produtos, modelos de negócios e soluções mais completas e integradas ao sistema. Precisamos inovar na forma como geramos e consumimos itens básicos. E não, a solução não se resume a mudar totalmente nossos hábitos e virar vegano.

O que quero dizer é que os investidores também precisam se atentar a pelo menos três setores de alto potencial de mercado e rentabilidade, e que estão desenvolvendo soluções em si, indo além da redução de emissão de GEE.

O primeiro é o setor de energia, responsável por cerca de 35% das emissões de GEE, segundo o próprio IPCC. Não é à toa que está crescendo o número de empresas que desenvolvem soluções de microgeração de energia solar ou eólica. Há potencial de mercado porque esses negócios entregam um sistema de energia sustentável, com fonte renovável, distribuição e transmissão mais eficientes por estarem mais próximas do consumidor final – indústrias, empresas e residências.

Outro setor que se destaca são as inovações no agro e uso do solo (responsáveis por 24% das emissões), representadas por novos modelos de negócios e tecnologias que fomentam o sistema agroflorestal (SAF). O modelo combina espécies nativas da região com cultivos agrícolas, e acaba mais econômico e sustentável porque, em geral, dispensa o uso de fertilizantes, faz melhor uso do espaço e não gera desmate.

Por fim, as foodtechs chamam a atenção ao desenvolver tecnologias usadas em toda a cadeia de alimentação, oferecendo soluções para equilibrar demanda e oferta de alimento, redução de desperdícios, substituição das fontes de proteína, combate às mudanças climáticas e mitigação do impacto ambiental dos alimentos. Claro, não fica de fora a demanda dos consumidores por hábitos alimentares mais sustentáveis.

Na medida em que fica mais clara a importância de se integrar a sustentabilidade socioambiental às decisões de decisão de consumo e investimento, mais comuns e robustas começam a ser as oportunidades de bons negócios.

Então, investidor, fique atento às novidades e tendências sustentáveis dos setores mais próximos do seu dia a dia. Afinal, como 100% dos investimentos impactam vidas, é importante entender como você quer fomentar os seus. Há muito trabalho para ser feito nesse movimento de consolidação de um mundo mais sustentável.