Uma das áreas mais fascinantes no estudo de economia é o campo das finanças comportamentais. No mundo das finanças tradicionais, o investidor é perfeitamente racional e o preço dos ativos reflete em tempo real todas as informações disponíveis sobre aquele ativo, em um ambiente em que os participantes são alocadores de recursos preocupados com a maximização de resultados.

Já nas finanças comportamentais, o mundo é compreendido como sendo mais complexo do que um lugar de simples otimização de risco e retorno, e os participantes são seres humanos que tomam decisões influenciados por suas preferências distintas e por uma diversidade de vieses cognitivos.

Para gestores de investimento que lidam com decisões de alocação diariamente, a verdade está em algum lugar no meio do caminho. De um lado, modelos de precificação nos ajudam a balizar o valor de ativos financeiros e podem ser úteis se não confiarmos tão cegamente em nossas projeções de fluxos de caixa descontados. Por outro lado, conhecer as preferências e comportamentos dos participantes do mercado nos ajuda a antever volatilidade sobre os preços e identificar mudanças estruturais que podem não ter sido capturadas por indicadores exclusivamente financeiros.

Sabendo disso, como será que o mercado reage ao crescente volume de notícias sobre os fatores ESG das companhias listadas? Um artigo recente de pesquisadores das Universidades de Harvard e Northwestern traz insights bastante interessantes ao tentar responder exatamente esta pergunta.

O artigo parte de uma base de dados com notícias diárias de mais de 3 mil empresas e classificadas com base na matriz de materialidade do Sustainability Accounting Standards Board (SASB), se valendo de técnicas estatísticas para avaliar como o preço das ações dessas companhias reagiu às notícias positivas e negativas para diferentes categorias de fatores ESG.

Como resultados principais, os autores identificam que o preço das ações reage apenas àquelas notícias que possuem materialidade financeira, sugerindo que o investidor é seletivo e não é qualquer informação social ou ambiental que movimenta o mercado, mas aquelas que podem afetar indicadores financeiros da empresa. Além disso, investidores parecem mais suscetíveis a celebrar boas notícias do que punir maus comportamentos, com reações positivas de preço mais intensas no caso de notícias boas do que as reações negativas em casos de notícias ruins.

O primeiro resultado é boa notícia (e ponto para os defensores das finanças tradicionais), mostrando que – ao menos em mercados mais maduros – o investidor é menos suscetível a green washing ou social washing, tomando decisões racionais que consideram a efetiva influência dos fatores ESG nos resultados da empresa. Já o segundo é um alerta (e dá crédito para os defensores de finanças comportamentais), mostrando que nossos vieses ainda afetam decisões, e que o clima positivo em torno da adoção de boas práticas parece ter mais força do que uma vigilância e ativismo necessários em torno das práticas negativas.

Outro resultado interessante da pesquisa é que notícias relacionadas a fatores sociais (como acessibilidade, bem-estar do consumidor, qualidade e segurança de produtos, entre outros) tendem a ter uma reação de preço mais intensa do que as relacionadas a capital humano (como segurança no trabalho e relações trabalhistas) ou capital natural (impactos na biodiversidade, emissões e uso de recursos).

Esse resultado é particularmente interessante porque ainda é incipiente a compreensão e disponibilidade de informações sobre fatores sociais no mercado. Além disso, o comportamento pode ser indicativo de que as informações mais próximas do core business (que afetam produtos, serviços e clientes) têm maior influência ou relevância na criação ou destruição de valor.

Fato é que o mundo está ficando cada vez mais complexo, com mais velocidade e disponibilidade de acesso a informações, e consumidores cada vez mais preocupados com o que o seu dinheiro faz para o mundo. Pesquisas desse tipo são importantes para mostrar que não podemos mais enxergar o mundo exclusivamente sob uma lente bidimensional de risco e retorno, e que investidores que souberem incorporar o “terceiro D” em seus modelos provavelmente obterão melhores retornos de longo prazo.