Na minha época de faculdade, na década de 90, assistíamos o crescimento do que seria o fenômeno tecnológico do então chamado telefone celular. Wilton Azevedo, que foi um dos precursores dos conceitos de design gráfico com conteúdos digitais, costumava dizer em suas aulas que o futuro da mídia e dos meios se daria através de dispositivos que ele denominava “expressores”.

As imagens, por exemplo, não precisariam de telas e seriam projetadas no espaço como hologramas tridimensionais. Nunca me esqueci dessas convicções do saudoso professor. Ao escrever esse texto relembrei das antigas discussões em sala de aula diante do que de fato ocorreu nos últimos 25 anos. Mais de duas décadas depois, quando eu penso nessas previsões, me atrevo a dizer que essas ideias parecem ter algum sentido com o que ocorrerá nos próximos 10 anos. O querido professor imaginava nos anos 90 o que seria a vida em 2030.

Num artigo anterior mencionei o conceito de desmaterialização das coisas, ou seja, a realidade virtual/aumentada e as experiências sensoriais serão mais importantes do que o gadget (dispositivo) em si. Essa é uma tendência irreversível e que mudará todos os dispositivos com tela, inclusive o nosso desejado smartphone. Os smartphones funcionarão como um hub de gerenciamento de experiências antes de serem desmaterializados e substituídos por projeções holográficas, assistentes de voz onipresentes e interfaces difusivas. Os consumidores em breve estarão cercados por informações, desvinculados de uma única tela e utilizando até mesmo seus objetos mais ordinários na execução de tarefas menos ordinárias ou, quem sabe, extraordinárias

Hoje, seu smartphone é tudo: desde câmera, rastreador fitness, localizador, banco pessoal, navegador, o antigo jornal, o não menos antigo livro, companheiro de viagem e carrinho (ou jornada) de compras. Você também pode fazer qualquer pergunta para o assistente de voz sobre qualquer assunto. E ouvi rumores de que ainda serve para fazer ligações fora do Whatsapp!

Neste cenário, experimentamos  um grau cada vez maior de dependência: olhamos hipnotizados para nossos smartphones enquanto andamos, dirigimos (e não devemos cair nessa tentação), comemos, bebemos, fazemos exercícios, assistimos TV e até mesmo quando tomamos banho.

Embora o smartphone seja o gadget mais inovador que já tivemos, provavelmente você e eu estamos involuntariamente comprometendo nossos esforços e, consequentemente, a efetividade nas tarefas do dia a dia ao adicionar cada vez mais recursos e aplicativos não utilizados em sua plenitude. Nesse contexto é crescente a ideia de que os smartphones, da mesma forma que estão sobrecarregados, sobrecarregam nossas habilidades cognitivas

Para falar dessa sobrecarga e seus efeitos relembro um artigo da Harvard Business Review de 2010 – “Pare de tentar agradar seus clientes”- apontando que mais do que encantar os seus clientes as empresas (simbolizadas por seus produtos e/ou marcas) devem resolver os problemas de maneira rápida e eficaz. Esse artigo colocou luz sobre o conceito de CES (Pontuação de Esforço do Cliente), que mede justamente o nível do esforço de um cliente para resolver um problema. Se pensarmos no conceito de CES e aplicá-lo sobre a experiência proporcionada pelos smartphones, realizaremos que em muitos casos ele transformou nossas rotinas ao desmaterializar o atendimento humano, se tornando o ícone tecnológico em encantamento e solução de problemas. No entanto, assim como toda aprendizagem e experiência em algum momento chega a um ponto de inflexão e mudança,  a nossa relação com o smartphone talvez esteja a beira do momento da inflexão e presenciamos o limite da sensorialidade possível para o que o smartphone materialmente representa.

Ainda pensando no conceito de CES, coloco em termos práticos as ações: desbloquear seu smartphone, encontrar a função desejada e executá-la simultaneamente a interrupções por alertas, mensagens, anúncios, toques, tons, perguntas e avisos de que o sistema operacional será atualizado automaticamente esta noite – mas para isso somente se estiver conectado à tomada.

Ao longo do dia, nossos smartphones costumam falhar devido a erros de autenticação, nomes de usuário inseridos erradamente, senhas incorretas, falta de conexão, entre outras ações que devem ser refeitas por falha de operacionalização. Todos esses momentos da nossa relação com o smartphone também concorrem com as rotinas fora do aparelho, tornando nossa realidade mais e mais complexa.

Se o smartphone é tudo, o Consumer Life, um estudo global da GfK, demonstra na prática o efeito desse hábito do consumidor quando avalia o conceito de “aplicativos em tudo”. Fenômeno que é potencializado pelas novas gerações, destacando os millennials. Desde as mídias sociais, instaladas em mais de 60% dos smartphones, até aplicativos que monitoram nutrição e sono, instalados em 15% dos smartphones ativos no mundo. Uma infinidade de aplicativos para digitalizar absolutamente todos os momentos do consumidor (consumindo ou não) ao longo do dia.

O futuro se esboça e percebemos que as crescentes cargas concentradas nos smartphones estão sendo distribuídas para outros dispositivos que sintetizam de diferentes formas as experiências sensoriais, encorajando-nos a olhar para as novidades, como: smartwatches, assistente de voz, óculos inteligentes, roupas inteligentes e nossos automóveis interativos. Alternativas para lidar com os diferentes momentos e experiências espalhando-as entre esses novos dispositivos. Uma tendência que se consolidará rapidamente à medida que os nossos gadgets conectados à web aprofundarão o nível de inteligência artificial através do uso em escala. Por exemplo, seu refrigerador inteligente, muito em breve, se tornará um meio de gestão das necessidades básicas e o ajudará a cumprir com o primeiro nível da Pirâmide de Maslow.

Um levantamento global apresentado pelo Gartner e feito desde 2014, mostra que a partir de 2017 há uma inversão nas tendências das curvas de crescimento, ano a ano, dos smartphones e dispositivos conectados a web (IoT), portanto os gadgets do futuro.  Essa realidade global ocorre em diferentes estágios de amadurecimento nos países desenvolvidos e em desenvolvimento. No Brasil, por exemplo, ainda vivemos o momento de premiunização dos smartphones. Dados da GfK apontam que no primeiro semestre de 2021 as vendas de smartphones cresceram 6% em unidades, mas 36% em valor. Apesar dos efeitos de aumento de preços em tempos de pandemia é inegável o movimento de premiunização no mercado brasileiro. Em paralelo, assistente de voz e outros dispositivos conectados crescem a taxas de 300 a 500% ao ano, mas devemos considerar que são produtos de nicho no Brasil, concentrados nas classes A e B, e que acelerarão o crescimento em volume e a penetração em todas as classes sociais ao longo dos próximos anos.

Os ciclos de disrupção entre as novas tecnologias são cada vez menores. Desde a primeira até a quarta Revolução Industrial assistimos incrédulos um célere processo de mudança de realidade. E essa dinâmica me dá a sensação de que as aulas do professor Wilton Azevedo e as discussões  de conteudo digital e cultura de vigilância ocorreram em outra era. Você poderia me dizer que isso é um pouco assustador, mas ao mesmo tempo desperta imensa curiosidade. O desenvolvimento tecnológico não tem e não terá fim. No entanto, esses avanços estão facilitando nossas vidas e abrindo as portas para novas e incríveis possibilidades, que transformarão nosso mundo em um lugar melhor.

Vamos nos preparar para mais emoções e descobertas na era dos novos gadgets!