Nestes dias me lembrei de discussões, não muito distantes, sobre o digital, as novas mídias e o poder do social selling. Naqueles dias em que discutíamos sobre o retorno do investimento para as verbas de mídia das novas mídias, tudo parecia ser uma obra de ficção cientifica, como em Matrix, para alguns clientes.

Passados pouco mais de cinco anos a impressão é a de que essas conversas ocorreram há mais de uma década. Embora tenhamos muito pela frente, num país onde parte significativa dos consumidores não seja capaz de interpretar um texto, a democratização da digitalização começou rompendo barreiras através do comando de voz no Whatsapp e se projeta para o futuro imediato na velocidade e escala que só o digital consegue impor.

Na era da desmaterialização, o live commerce surge como uma força que pode envolver e arrastar todos os consumidores, não somente millenials, X e boomers, mas principalmente os novos consumidores, a geração Z e, finalmente, a geração Alpha daqui a dez anos.

Os Alphas são os nativos digitais e eles chegaram a um mundo sem fronteiras entre o físico e o digital. Quando eles se tornarem consumidores provavelmente estaremos vivendo em uma realidade já não tão fantasiosa como a ficção de Matrix.

Antes de mergulharmos no tema quero rapidamente relembrar as definições das gerações por idade:

– Baby Boomers são os nascidos de 1946 a 1964
– Geração X são os nascidos de 1965 a 1979
– Millennials são os nascidos de 1980 a 1997
– Geração Z são os nascidos de 1998 a 2009
– Geração Alpha são os nascidos a partir de 2010

Suspeito que o live commerce é só o primeiro movimento nessa promessa de um mundo Matrix. Combinando entretenimento com compra instantânea, o live commerce oferece aos varejistas, marcas e plataformas digitais um novo meio de interação com clientes para o maior engajamento com as marcas e a conversão certeira das jornadas de compra.

Remonto a 2016, que marcou a abertura de um novo capítulo nas vendas. O varejo chinês Alibaba foi pioneiro em uma nova abordagem: conectar uma transmissão ao vivo online com uma loja de comércio eletrônico para permitir que os não mais apenas espectadores, mas também consumidores, assistissem e comprassem ao mesmo tempo. Algo que havia fracassado na tradicional televisão aberta, justamente por ser um modelo estático e não customizável. O live commerce rapidamente se estabeleceu como parte das jornadas compra nas campanhas de vendas para o Dia dos Solteiros – um importante evento de compras na China – e, de forma mais ampla, como uma plataforma digital confiável para impulsionar o engajamento do cliente e aumentar a conversão de vendas. Em 2020, em somente 30 minutos após o lançamento da campanha de pré-vendas do Dia dos Solteiros, o Alibaba no Taobao Live vendeu US $ 7,5 bilhões.

A transformação das jornadas e como esse novo canal se desenvolverá ainda está para ser visto. O que está claro é o enorme potencial de longo prazo, tanto para marcas quanto para os varejos. Se a experiência da China servir como referência para projetar o futuro podemos vislumbrar uma quinta parte das vendas concentradas no live commerce num horizonte de até cinco anos. E quando chegarmos a 2026, relembraremos de 2021 com aquela sensação de que esse texto teria sido escrito há mais de uma década.

Em termos demográficos, a geração Z e os millennials estão mais acostumados e dominam, mas não há limites, pois a pandemia foi responsável pela inclusão digital dos boomers e o live commerce começa a atrair os consumidores dessa geração.

Quado olhamos para o future buy, um estudo global da GfK acerca de hábitos e atitudes de compra, notamos que o potencial de crescimento do live commerce no Brasil é assombroso ao fazermos simples comparações as médias globais. No mundo, 72% dos consumidores declaram que fazem compras em geral nos apps/sites – no Brasil, o percentual é de 42%.

Se confrontamos estes números com as seguintes constatações ficaremos perplexos: 34% dos brasileiros compram via app/site de um varejista específico, ou seja, aquele que confiam. Em contrapartida apenas 15% dos consumidores no mundo declaram essa predileção. Se não bastasse essa impactante inversão de tendência, considerem que 11% dos consumidores globais quando compram elegem marcas pré-determinadas, aquelas que inspiram confiança e segurança. Entre os brasileiros, 18% declaram essa preferência, resultado em números consideravelmente acima da média global. Finalmente, mas não menos instigante: 22% dos consumidores globais declaram ver vídeos e tutoriais de revisão dos produtos versus 30% dos brasileiros.

Os brasileiros ainda são tímidos nas declarações de compra via app/site se comparado aos consumidores globais, mas está claro que eles necessitam de confiança, apoiados em todos os recursos que ofereçam condições para uma decisão de compra mais segura. Talvez por conta desse receio, ainda não nos divertimos como os consumidores globais quando compramos através de plataformas sociais. 34% dos Zs e 42% dos millenials declaram se divertir nas compras via plataforma social contra 49% dos Zs e 52% dos millenials no mundo.

Não duvide, pois já podemos intuir e prever que o live commerce trará segurança, interação e diversão para os consumidores brasileiros, aplacando o medo dos boomers aos Zs. Se você confia num varejo, tem preferência por determinada marca e quer interagir com os vendedores numa transmissão via app, certamente vivenciará uma melhor experiência de compra. Os maiores varejos brasileiros se movem rapidamente para ampliar em todos os sentidos as experiencias online proporcionadas aos seus consumidores e, ao mesmo tempo, começa a oferecer o live commerce como a mais nova alternativa de comprar com segurança e diversão.

Algo me diz que estamos às vésperas de um momento histórico no comercio eletrônico brasileiro, uma vez que a próxima Black Friday trará pela primeira vez a experiência do online com protagonismo, portanto uma incrível oportunidade de alavancar vendas e aumentar engajamento com as transmissões do live commerce. Afinal, quem não quer se divertir e ainda comprar o que se deseja no final do show?

Essa é a hora do show. Bem-vindo à próxima onda da revolução do comércio eletrônico.