Ainda que muito possa ocorrer no Brasil e no Mundo, como uma terceira onda de covid, não podemos nos furtar da tarefa de começar a imaginar o amanhã. O mais importante nesse exercício não é apenas extrapolar o hoje, mas realmente imaginar possíveis fatos e quais serão as possíveis reações a eles, seja em nossas casas, empresas ou na sociedade.

O interessante é que, dado o alcance global e similar em intensidade que a pandemia trouxe, há uma grande oportunidade de maior acerto nos cenários, se mantivermos o olhar aberto ao que está ocorrendo em outras partes do mundo, além de explorar as tecnologias corretas para o momento em que vivemos.

Felizmente, conseguimos monitorar com razoável facilidade o que está ocorrendo hoje na Ásia, Europa e nos Estados Unidos. Essas tendências são compartilhadas por empresas internacionais, como a GfK, em textos, lives, artigos em seus sites e blogs. Ainda que sejam mercados muito diferentes em qualquer análise que se faça, com um pouco de eliminação de ruído, podemos nos preparar ativamente para reações similares no Brasil, com alguns meses de atraso.

Apenas como referência, já sabemos que em cidades americanas onde a vacinação cobriu a maior parte da população, os produtos mais comprados passaram a ser roupas, produtos de cuidado pessoal, preservativos, malas de viagem e despertadores. Percebemos aqui o caráter de revenge spending, típicos de momentos pós crise, o qual também já observamos em algumas cidades e grupos no Brasil, com suas festas ou viagens frequentes de fim de semana.

Como outra referência, sabemos que nos países do Leste Europeu a compra por supermercados através da internet não retrocedeu tanto quanto era esperado com a reabertura dos escritórios. Também é fato que não tem crescido mais, atingindo um plateau que não se moverá sem esforços adicionais de varejos e indústrias.

Outro aspecto importante é que será uma retomada em K, com alguns setores, países e segmentos da população saindo mais fortes de tudo isso e voltando ao consumo rapidamente, enquanto outros lutarão por um bom tempo para recuperar seu poder de consumo e padrão de vida.

A classe média e alta, muitas vezes conectada à indústria do conhecimento (knowledge workers), manteve seus empregos e gastou menos em serviços durante a pandemia, gerando uma boa poupança. Essa parcela da população igualmente seguirá trabalhando em home office parcialmente, portanto pesem os gastos voltarem a se orientar para o mundo externo, o “Cocooning 2.0” ainda terá seus efeitos e permitirá serviços e produtos para melhoria da experiência de se trabalhar de casa, se divertir com amigos na varanda gourmet, se entreter virtualmente no sofá, etc. Essa mesma turma está buscando casas maiores, muitas vezes em cidades próximas de São Paulo e outros centros, o que dispara a busca de escolas melhores na região escolhida, por exemplo.

Mas há o outro lado, das classes média baixa e baixa, que sofrerá por um tempo com o emprego não ideal. As contratações aumentarão, mas em muitos casos iniciarão com contratos de trabalho temporários, mesmo em empresas formais. Ainda mais preocupante é o desafio do primeiro emprego, para jovens que se formaram em condições piores de ensino e que precisam trabalhar urgentemente para ajudar na perda de renda da casa. É de antecipar, infelizmente, que esse emprego será em atividades com pior remuneração e de estabilidade precária.

Porém arrisco dizer que há um elemento que vai prevalecer no processo de recuperação: a busca pela otimização de recursos. Por um lado, temos a aceleração e intensificação da agenda de ESG, em empresas e governos. A Europa tem utilizado seu soft power para levantar alto essa bandeira e recuperar parte da narrativa perdida em outras frentes, encontrando eco na mídia brasileira, mas também em casas de investimentos e presidentes de empresa, o que antecipo poderá ser uma bandeira política mais relevante para as eleições de 2022.

Este mesmo conceito de otimização está relacionado aos investimentos das empresas, sejam eles de tempo ou dinheiro. O tempo que dedicamos ao trabalho tem sido bastante questionado, em função do aumento exponencial de enfermidades mentais e físicas. Haverá natural pressão da sociedade para que essa tendência não siga crescendo e teremos duas alternativas: sermos mais eficientes e/ou empregarmos mais gente. Acredito que a sociedade empresarial buscará a eficiência e, para isso, precisará fazer melhores escolhas de onde alocar horas de suas equipes de trabalho, o famoso “foco”, mas igualmente veremos maior atenção à automatização de tarefas repetitivas, em base à robotização de processos.

Finalmente, está a otimização de investimentos financeiros, ou seja, a cultura do retorno sobre o investimento, a qual também ajuda a focar esforços. No final das contas, é aqui que os dois grandes elementos desse texto se unem: a correta identificação de tendências (para onde vai o mundo?) e a exploração econômica eficiente das oportunidades (como ganho mais dinheiro com isso). Nessa linha, os avanços obtidos em Inteligência Artificial têm papel fundamental, pois justamente conseguem trazer aos olhos dos dirigentes das empresas qual o impacto amanhã das decisões tomadas hoje.

Desde o início de 2021, em conversas com clientes na América Latina, observamos uma abertura sem igual para nossas soluções preditivas, baseadas em informações recorrentes e bem estruturadas, sem o viés das “políticas corporativas” na análise. Ainda que muitas empresas já tivessem alguns mecanismos básicos de previsão (demanda, sensibilidade de preços, força de marca), a quebra nas tendências foi tão grande que muitos modelos internos perderam seu nível de assertividade. Para corrigi-lo, muitas áreas internas foram desafiadas a encontrar o caminho para o amanhã, porém essa busca naturalmente leva em conta o momento da empresa e a visão do dirigente local, fazendo com que a inferência humana no algoritmo seja maior que a desejada (ou esperada).

Eu acredito que esse é o momento de se abrir ao mercado e buscar consultores externos para reconstrução dos processos de decisão, sempre baseados em dados e orientação preditiva. É fato que esses consultores não conhecem tanto do negócio como os funcionários da própria empresa, mas também é verdade que em um mundo de cabeça para baixo, com tantas mudanças, talvez seja essa a fortaleza desses outsiders. Outro elemento importante é que os advisors não precisam seguir as agendas internas, isto é, se o diretor da área X acredita que a melhor linha de produtos é a Y, um consultor externo tomará isso como um input para a análise, mas não necessariamente para a reconstrução do algoritmo. Com isso, ele poderá, de maneira isenta, reforçar a visão interna ou sugerir uma revisão da estratégia.

No entanto é imprescindível armar esse modelo de maneira colaborativa. O input do diretor acima tem que estar presente na elaboração do briefing aos consultores e, quando da devolução da resposta do algoritmo, o diretor precisa ser envolvido para gerar uma verdadeiro processo de “inteligência aumentada”. O que as empresas clientes devem buscar com advisors são alternativas para o amanhã, justamente o que dá título ao texto, as quais apresentem os impactos de cada decisão, com intuito de que a empresa otimize seus recursos no atingimento das metas.

Enfim, como sociedade empresarial, não podemos nos furtar de gerar cenários e o momento para agir é agora. Se ainda há muitas nuvens no céu, o uso eficiente de informação preditiva é tão necessário quanto são os instrumentos para pilotos experientes. Esse é o papel fundamental da Inteligência Aumentada: apontar o rumo, para que os pilotos corporativos se sintam mais seguros em seu trajeto em direção ao futuro.