Você gosta de Fórmula 1? Os brasileiros em geral adoram. Seja a causa ou a consequência, já tivemos diversos brasileiros campeões mundiais: Emerson Fittipaldi (1972, 1974), Nelson Piquet 1(981, 1983, 1987) e Ayrton Senna (1988, 1990-1991), o super-herói nacional.

O automobilismo sempre foi uma combinação de muita paixão, criatividade, tecnologias e inovações buscando superar limites, e conquistar vitórias. Neste momento, uma nova tecnologia chega de forma mais forte à F1 – e o público já consegue ver nas transmissões o quanto esta tecnologia poderá mudar o esporte, a competição em si e até o entretenimento do público.

Se você assiste às transmissões da TV você deve ter reparado que em alguns momentos surgem informações na tela mostrando dados diferentes dos tradicionais, como o número de voltas e ou distância entre os pilotos. As transmissões estão sendo inundadas por “predições”, as tentativas de adivinhar o futuro: quantas voltas faltam para um piloto “encostar” no da frente e começar uma batalha pela posição? Qual a provável estratégia de pit stops? Quantas voltas mais os pneus aguentam? Qual o possível grid de largada? Isto tudo são aplicações de Inteligência Artificial: a capacidade de prever as coisas.

Quem está provendo a tecnologia para a Fórmula 1 é a AWS (divisão da Amazon), e tudo começa com dados. Cada carro de F-1 contém cerca de 300 sensores e coleta 1,1 milhão de entradas de dados por segundo (chamados data points). Mas não são apenas dados do carro, mas também da pista, das condições meteorológicas, tomadas de tempo e demais eventos. E tudo isto é combinado com dados históricos de mais de 70 anos de corridas pelo mundo. Estes dados todos são utilizados para que possamos treinar algoritmos de machine learning (o termo utilizado para descrever este subcampo da Inteligência Artificial) capazes de criar este efeito mágico de prever o futuro.

Ao final o que esta tecnologia faz se chama “predição”, que é um dos traços associados a inteligência humana. Predição, basicamente, significa tentar saber o que você deseja saber, mas ainda não sabe, utilizando as coisas que você já sabe, ou seja, os dados. Se eu tenho muitos dados sobre alguma coisa eu tenho chance de predizer o que vai acontecer. Se você gosta de matemática, estamos falando de probabilidade condicional.

Estes usos criativos da tecnologia podem mudar o esporte, a transmissão e a diversão do público. Mas se o esporte se tornar previsível, ele vai ficar chato.

Mas para explicar isto vamos falar de outro esporte.

Você gosta de Futebol? Eu sei que os brasileiros gostam mesmo é de gol. Então, imagine se pudéssemos criar uma novidade nas transmissões dos jogos de futebol. Imagine que existisse uma barrinha na tela mostrando a chance de ocorrer um gol nos próximos, digamos, 30 segundos. Seria como prever o futuro, certo?!

Como fazer isto? Antes de um gol, geralmente acontecem algumas movimentações em campo, a torcida se agita, o narrador aumenta o tom de voz, um ruído começa a brotar das arquibancadas… tudo isto são dados. Se conseguíssemos capturar e processar todos os dados, e como já sabemos se houve um gol 30 segundos depois, então teríamos o que precisamos para “predizer” um gol. Simples assim.

Acho que isto seria muito divertido e legal de ver numa transmissão.

Pois bem… eu fiz esta volta toda pelo esporte, para defender porque a inteligência artificial é algo muito diferente da inteligência humana.

Imagine que um jogador – um craque criativo – receba a bola, mas a barrinha de probabilidade de gol não aumente. Mas um gol logo em seguida aconteça em função da sua jogada. O que isto significa? Significa que o craque deve ter feito uma jogada tão criativa e improvável que a inteligência artificial não conseguiu localizar nos seus dados históricos. Agora imagine a capacidade de um piloto fazer algo incomum, e confundir os algoritmos.

Percebeu? Inteligência Artificial é predição. Criatividade é o inverso de predição. Inteligência Humana é o inverso de Inteligência Artificial. Não são modelos adversários, mas complementares.