As dinâmicas do trabalho foram modificadas desde o início da pandemia. Com a vacinação em ritmo avançado no país, o momento é de retomada aos escritórios e de readaptações de empregados e empregadores em um novo cenário, com a necessidade de implantação de protocolos de segurança contra a Covid-19.

Diante desse cenário, tanto empregados quanto empregadores se depararam com pontos positivos e negativos do home office e do retorno ao trabalho presencial. No home office, verificou-se o aumento da síndrome de burnout, tendo em vista que as pessoas estavam trabalhando mais, com dificuldade de separar vida pessoal de vida profissional, empregados com filhos viraram professores, dentre diversas outras atividades domésticas que se acumularam.

Por outro lado, o retorno ao trabalho presencial e das creches e escolas, mesmo após a vacinação, ainda causam insegurança para muitos.

De acordo com a legislação trabalhista e os planos de retomada das atividades econômicas em todo o país, caso houver determinação do empregador para o retorno do trabalho presencial e o funcionário insistir em trabalhar remotamente, ele poderá ser demitido por descumprimento de norma interna. Todavia, a tendência é que as empresas sejam cautelosas nesse aspecto e encontrem a melhor solução para ambos.

Diante disso, escritórios e empresas têm buscado a adoção do sistema de trabalho híbrido, isto é, parte realizado remotamente, parte presencialmente, de acordo com uma agenda pré-estabelecida ou ainda deixando os empregados livres para decidirem quais dias preferem ir ao escritório.

Segundo levantamento realizado para Robert Half, consultoria de recrutamento especializado, 95% dos executivos acreditam que o rodízio entre o home office e o escritório será um modelo abraçado de forma permanente pelas empresas.

Todavia, esse modelo também traz diversos desafios. Com o trabalho tele presencial, foi possível a contratação de pessoas de diversas localidades, sendo possível selecionar profissionais qualificados espalhados por todo o país. Com o retorno do trabalho presencial, muitos não conseguirão retornar, seja porque mudaram de cidade, estado ou país, seja porque sempre residiram em outra localidade.

Além disso, a legislação trabalhista, que precisou adequar-se às novas modalidades de trabalho, ainda traz muitas lacunas que precisam ser esclarecidas e podem gerar insegurança na adoção do modelo híbrido.

Por outro lado, existem diversas empresas e escritórios que se adaptaram ao home office e não pretendem retornar ao trabalho presencial. Muitos devolveram os imóveis que eram alugados, algumas empresas e escritórios que ocupavam prédios inteiros ou diversos andares de prédios, se depararam com uma drástica redução de custos e o trabalho em casa fluiu normalmente, ou até melhor. Especialistas entendem que escritórios e empresas deverão oferecer a modalidade de trabalho home office para novos talentos, já que será uma exigência da nova geração que entrará no mercado de trabalho, que busca por flexibilidade e qualidade de vida, em paralelo com a carreira.

Na contramão da tendência, David Solomon, CEO do Banco Goldman Sachs, afirmou em uma conferência “acho que para uma empresa como a nossa, que está dentro de uma cultura de aprendizagem colaborativa e inovadora, isso não é o ideal. E não pode ser um novo normal. É uma aberração que vamos corrigir o mais rápido possível”.

Embora acredite que a pandemia de covid-19 tenha ajudado a impulsionar a adoção de tecnologias digitais e criado maneiras para o banco operar com mais eficiência, Solomon acredita que não haverá grandes mudanças no longo prazo e que não existe espaço para o home office em sua corporação.

Por outro lado, a Microsoft, Facebook e Twitter disseram que os funcionários teriam a opção de trabalhar de casa permanentemente. O Facebook, especificamente, sugeriu que até metade de sua equipe poderia trabalhar remotamente por 5 a 10 anos. Todavia, a empresa alegou que os trabalhadores remotos poderiam receber um salário mais baixo, já que suas despesas seriam menores morando longe de São Francisco e do Vale do Silício, nos Estados Unidos.

Para além da mera adaptação das empresas aos protocolos de higiene e segurança e dos desafios da legislação trabalhista (ou de sua falta), presenciaremos a criação de novas culturas de trabalho em cada empresa e escritório, conforme os diferentes modelos de negócio e acompanharemos o impacto duradouro da quarentena nas novas experiências de equilíbrio entre qualidade de vida e dedicação ao trabalho para os profissionais que enfrentarão o mercado de trabalho pós pandemia.