É incontestável que as mulheres, assim como os homens, trabalham desde os primórdios da raça humana. Mas o que nos leva a pensar, como sociedade, que algumas atividades são especificamente “de mulher” ou “de homem” e ainda que as funções femininas não devem ser remuneradas ou são de “segunda linha” e por isso devem pagar menos? Por que ainda persiste no imaginário coletivo o carimbo de homem provedor e mulher cuidadora?

As tarefas relacionadas a manutenção do lar, os cuidados com crianças, idosos, pessoas enfermas ou com necessidades especiais são delegados às mulheres da família e de forma não remunerada.

Com a Revolução Industrial e o surgimento em larga escala de fábricas e novas tecnologias, muitas mulheres ingressaram na força de trabalho assalariada, ainda que em condições degradantes e com remuneração inferior à dos homens.

Mais recentemente, no período das guerras mundiais e do pós guerra que trouxe uma crise econômica global, em inúmeras famílias o trabalho dos homens era insuficiente para sustentar a casa, além do que, muitas casas perderam os homens que tinham a condição de único provedor. Essa nova realidade forçou a entrada de uma quantidade imensa de mulheres no mercado de trabalho.

Depois de muitas lutas e conquistas sociais e políticas, a maior parte das profissões atuais permite o acesso das mulheres sem proibições expressas. Pelo menos em teoria.

Mesmo com a entrada definitiva das mulheres no mercado de trabalho, se observa uma segregação de tarefas e de especialidades. As profissões tidas como femininas, têm pior remuneração e mais informalidade.

Dentre os trabalhos considerados de baixa renda e sem necessidade de escolaridade, as mulheres têm maior probabilidade de atuarem no serviço doméstico, enquanto os homens têm maior chance de trabalharem por conta própria, como na construção civil ou comércio autônomo. Essa diferença de segmentação de trabalho ocasiona diferença de renda, pois o trabalho doméstico tipicamente tem renda fixa e ainda que se trate de trabalhadora diarista, a renda costuma ser limitada. Já o trabalho masculino nas funções de base, como na construção civil, pode alcançar valores variados e geralmente mais altos.

Dentre trabalhos que dependem de educação formal, a desigualdade também aparece. Um estudo realizado por Regina Madalozzo, professora do Insper revela que na medicina há uma diferenciação pelas especialidades, sendo que é consideravelmente maior a presença de mulheres em áreas de pediatria, medicina da família, ginecologia e obstetrícia. São áreas que envolvem tratamento de pacientes que requerem cuidado próximo e contínuo. Já as áreas de cirurgia, cardiologia, medicina esportiva, ortopedia, medicina legal e urologia, há menos de 30% de mulheres, e essas áreas possuem melhores remunerações.

Ainda, existe um contingente consideravelmente maior de homens nas carreiras de engenharia, finanças e tecnologia, que requerem muito tempo de estudo e dedicação e permitem altos ganhos.

Mas como desmistificar a obrigação feminina do cuidar e permitir com que as mulheres possam, de fato, escolherem por si próprias seu caminho profissional em qualquer área de seu interesse? Como dar a liberdade que as meninas merecem para que elas realmente escolham suas profissões e atividades no futuro?

Primeiramente, precisamos de uma nova perspectiva sobre o trabalho familiar.  O trabalho familiar é digno e gratificante, porém precisa ser de fato valorizado. E somente será valorizado, quando compreendido que é responsabilidade de toda a família, não apenas das mulheres.

O trabalho doméstico não remunerado obriga a mulher a ter outras pessoas que a sustentem, e por consequência, a depender de outras pessoas para sua sobrevivência. Um passo importante ao reconhecimento do trabalho familiar foi dado na Argentina, que reconheceu o direito à aposentadoria das mães que dedicam suas vidas aos cuidados dos filhos.

Um estudo publicado por pesquisadores do Bowdoin College nos EUA, revela o panorama do impacto dos cuidados com as crianças sobre a carreira das mulheres da família no Brasil. A falta de creches acessíveis, além de limitar a entrada das mães no mercado de trabalho, afeta as demais mulheres da família. Para lidar com as demandas de cuidados infantis, as famílias desenvolvem estratégias que envolvem trocas entre os membros da família. Parentes do sexo feminino são especialmente afetadas por essas trocas, geralmente envolvendo o cuidado com irmãos mais novos. E, ao cuidar de irmãos pequenos ou familiares com necessidades especiais, compromete-se a educação das filhas mais velhas, o que também impõe custos à sociedade em perda de capital humano potencial.

A sociedade, empresas, políticas públicas e a própria família devem incentivar as mulheres desde cedo a compreenderem que existem demais opções para sua vida, além do trabalho familiar não remunerado, caso assim o queiram, devendo fomentar a entrada no mercado de trabalho, em especial em profissões que pagam mais e dependem de melhor remuneração.

Em especial, a mudança de paradigma desse cenário deverá provocar a quebra do ciclo da falta de escolaridade e da pobreza com o fortalecimento dos modelos. Meninas e mulheres veem os exemplos das mulheres da própria família quando escolhem, ainda que inconscientemente, o rumo da própria vida.

Adicionalmente, é necessário esquecer a ideia de que o gênero é limitante para trajetória de vida e de carreira, e de que as mulheres sejam menos aptas para exercer funções que requerem raciocínio, lógica, estudo e poder de decisão.

Ainda, as mudanças no mundo do trabalho nos levam a crer que no futuro haverá cada vez mais diversidade de carreiras, aumento do trabalho remoto, flexibilidade das organizações e novas formas de contratação que permitirão a qualquer um perseguir as áreas de seu interesse e encaixá-las dentro de suas responsabilidades familiares.

Uma observação atenta e realista nos permite compreender que as funções atribuídas a cada gênero variam muito ao longo do tempo e do espaço, e que as escolhas particulares devem ser respeitadas, independentemente do gênero. E por consequência, é justo concluir que ainda há espaço para a flexibilização desses papéis e para a verdadeira valorização das escolhas individuais.

Trabalho de mulher é todo aquele que ela quer fazer. E cabe a todos, como sociedade, garantir um caminho seguro até as oportunidades, oferecer suporte e respeito às escolhas individuais.