Imagine que você tenha decidido comprar um novo modelo de smartphone e já na loja, saca várias notas de R$ 50,00 do bolso e vai as colocando no balcão, uma a uma, até somar o valor pedido pelo aparelho.

Enquanto você vai colocando as cédulas em cima do balcão, pontadinhas agudas vão lhe atormentando o peito. Você sente as agulhadas mas decide por ignorá-las, afinal, um novo smartphone já já estará em suas mãos. Você observa que as cédulas que você deposita em cima do balcão vão se acumulando até formar uma respeitável pilha (a título de curiosidade, um celular de R$3.000,00 significaria 60 cédulas empilhadas, o que resulta em aproximadamente 6 cm de altura).

Ao completar a quantia pelo novo aparelho de celular, você olha para todo o seu dinheiro no balcão e a sensação que sente não é, necessariamente, de prazer. Ao contrário, parece um incômodo, um desconforto, uma dor. Física, inclusive.

Não se preocupe, pelo menos, não demasiadamente. Há um nome para esse sentimento, chamado pela economia comportamental de “a dor do pagamento”, ou pain of paying, em inglês, e sua comprovação já se deu por inúmeros estudos acadêmicos ao redor do mundo.

Mas dói de verdade?

A teoria existe desde 1998 e os estudos vêm sendo feitos incansavelmente desde então. Os mais recentes usaram imagens cerebrais mapeadas por ressonância magnética (Raghubir e Srivastava, 2008) e mostraram que o ato de pagar em dinheiro vivo estimulava as mesmas regiões do cérebro envolvidas no processamento da dor física. E quanto mais caro for o preço, maior é a dor. Ou seja, caro leitor, o desconforto que sentimos ao pagar por algo em dinheiro vivo não é mera impressão. A dor é real.

E pagar com cartão de crédito, não dói?

Dói, mas muito menos. Com cartões de crédito, a dor do gasto é atrasada (pelo menos, até que chegue a fatura mensal). A grande habilidade dos cartões de crédito é a de nos fazer gastar sem sentir, e isso acontece porque os cartões separam o prazer da compra da dor do pagamento.

Além disso, a rapidez com que acontece o processo de compra usando um cartão de crédito, inibe análises mais criteriosas. Você se lembra de como pagar em dinheiro pode demorar? Significa abrir a carteira (um momento carregado de ansiedade por si só nas grandes cidades), contar as notas, entregá-las ao vendedor, esperar pela conferência, receber o troco, fazer (ou simular) uma conta mental de conferência do mesmo, guardar o dinheiro na carteira e sair da loja. E ainda não acabou para todo mundo. Lembre que há os que só conseguem respirar aliviados após guardar as notas dentro da carteira seguindo determinadas ordens e padrões.

Como pagar com o cartão de crédito é muito mais rápido do que pagar com dinheiro, e exige muito menos da nossa atenção e energia, a dor do pagamento, apesar de existir, é sentida de forma muito mais suave.

O lado positivo de gastar em dinheiro

Como em tudo na vida, existe o lado positivo de gastar em dinheiro vivo, que é o de prestarmos mais atenção ao quanto estamos gastando. Para pagarmos R$5,00 ou R$50,00 no cartão de crédito, o processo é o mesmo: digitamos a senha e voilá!, compra aprovada. Mas, para usarmos aquela nota novinha de R$50,00 que acolhemos tão carinhosamente na carteira, pensamos duas vezes antes de efetuar a compra.

Existe até um nome para esse pensar duas vezes antes de gastar – se chama “momento vacilante”, onde fazemos uma rápida contabilização mental de prós e contras desse gasto. É nessa hora que pode ocorrer a desistência de uma compra por impulso, por exemplo. E é agora que sugiro que tiremos vantagem da dor do pagamento. Oras, se pagar em dinheiro dói, e se pensamos duas vezes antes de usar aquela nota bonita guardada na carteira, essa pode ser justamente uma boa estratégia para àqueles que buscam diminuir seus gastos e fazer sobrar dinheiro.

Se você quer ou precisa reduzir gastos diversos nesse final de ano (alô, compras de Natal!), que tal fazer o teste de deixar o cartão em casa e optar pagar com dinheiro vivo? Logicamente não vale tentar burlar a experiência com PIX ou TED – o desafio é pagar em dinheiro vivo. Certamente você gastará menos e dinheiro sobrando é sempre bem vindo, ainda mais se formos lembrar das contas que nos esperam em janeiro, mas isso fica para um próximo texto. Pagar em dinheiro pode até doer, mas cá entre nós, se podemos usar essa dor a nosso favor, por que não?