Zoom, Teams, Whatsapp, Hangout, Skype, Google Meet. Eis alguns dos principais aplicativos de videoconferência que chegaram com força para substituir as reuniões presenciais desde que as pessoas se viram forçadas a trabalhar em home office — e que hoje integram a rotina de centenas de milhões de profissionais no mundo todo.

Para se ter ideia da sua súbita popularidade, antes da pandemia do coronavírus o Zoom contava com cerca de 10 milhões de participantes de reuniões por dia, número que já supera os 300 milhões. E tudo indica que a tendência veio para ficar. Muitos acreditam, afinal, que o trabalho remoto continuará sendo amplamente adotado pelas empresas mesmo após o atual período de isolamento.

No entanto, o que em princípio é visto como uma solução também pode ter lá seus problemas e complicações potenciais. Isso porque tudo aquilo que é novo ou diferente demanda experimentação, adaptação e… tempo. Não à toa, tanto as companhias quanto os profissionais vêm batendo cabeça para compreender os do’s e dont’s relacionados a essas novas plataformas de comunicação, a fim de tornar seu uso o mais produtivo e equilibrado possível. Mas, vamos combinar, não tem sido nada fácil.

Prova disso é o surgimento do termo Zoom Fatigue. A “fadiga de zoom”, em português, é o cansaço mental relatado por quem participa de videoconferências em excesso — uma reclamação feita por nove entre dez pacientes de Adán Pelegrino Jardim, psicólogo especializado em terapia cognitiva.

“O fato é que somos seres sociais acostumados com interações face a face, nas quais nosso cérebro é programado para decodificar automaticamente não apenas a fala ou tom de voz das pessoas, mas também seus comportamentos não-verbais, como respiração, olhares, gestos, sinais e até mesmo linguagem corporal. As reuniões virtuais, por sua vez, não possibilitam essa leitura completa, o que faz com que gastemos mais energia para captar e interpretar tudo o que é necessário.”

Segundo Cristiano Nabuco, coordenador do Grupo de Dependências Tecnológicas do IPq – Instituto de  Psiquiatria da USP, a repentina substituição do contato “off” pelo “on” vem obrigando a mente a passar por um processo de readaptação.

“Pesquisas indicam que aproximadamente 75% do que é transmitido não acontece por meio das palavras, e sim dos recursos não-verbais. Quando se tira isso e se força o relacionamento via tela, muitas perguntas ficam no ar, deixando o cérebro aflito”, afirma ele. “Para compensar, é comum as pessoas tentarem se aproximar do monitor e elevarem o som da sessão, bem como se expressarem no vídeo de maneira mais contundente, até artificial, para se fazer entender. Se quer mostrar que concorda com algo, digamos, reforça acenando com a cabeça ou levantando o polegar. Ou seja, dá um jeito com o que é possível.”

Esgotamento e frustração

Além disso, há outros fatores que concorrem para a hiperestimulação cerebral e o estresse, como a constante autocrítica ao olhar para si próprio na tela o tempo todo. E, ainda, o fardo de ter de sentar-se em frente a uma câmera por longos períodos (com a mobilidade drasticamente reduzida), muitas vezes encarando múltiplos rostos (incluindo chefes, colegas, conhecidos casuais, clientes e até estranhos).

Sem contar no bombardeio de novos estímulos a serem processados, tais como os frequentes atropelos nas falas, os cortes e delays sonoros típicos da tecnologia, assim como as gafes e os entraves técnicos próprios de quem trabalha em casa. Entre eles, esquecer o microfone ligado (enchendo a conversa on-line de ruídos desnecessários), dificuldade na conexão, baixa velocidade da internet, cachorros e gatos invadindo o escritório, filhos chorando e por aí afora.

“Outro dia ouvimos uma música funk vinda do vizinho de um dos membros da equipe, o tipo de imprevisto que não me aborrece tanto, mas que atrapalha”, lembra Viviane Raniro, analista de produtos digitais de um grande banco brasileiro que participa de seis a sete reuniões por vídeo diariamente, com duração de em média uma hora cada, e quase sem intervalo entre uma e outra.

“Comecei na companhia há só três meses e estou muito satisfeita. Tenho uma posição desafiadora e venho ajudando a implementar uma série de projetos bacanas. Porém, em função da grande quantidade de videoconferências, no final da jornada me sinto esgotada, sem falar nas dores de cabeça recorrentes.”

Bastante comunicativa e sociável, a analista conta que na empresa anterior em que atuava as videoconferências eram escassas. “Meu nível de exposição aumentou bastante”, diz ela. “Estou tentando me ajustar à nova realidade de trabalho e, no paralelo, lidar com a frustração de não conhecer pessoalmente ninguém com quem interajo no cotidiano, nem mesmo meu chefe, com quem fiz a entrevista de emprego… por vídeo.”

Para tentar minimizar a estafa mental, Viviane malha na academia do prédio todas as manhãs. Sua cadeira e mesa ergonômicas, assim como seu apoio de teclado e o de notebook, tudo cedido pela companhia, também ajudam.

Práticas simples e ferramentas adequadas

De acordo com os especialistas, Viviane está certa.  Levando em consideração, é claro, os protocolos de saúde e higiene da quarentena, atividades físicas são importantes, uma vez que liberam endorfina e dão uma sensação de profundo bem-estar. “Corpo em movimento significa cérebro oxigenado e alerta, o que torna mais fácil a captação das informações”, explica Adán.

 Contar com um local confortável, bem iluminado e com a estrutura ergonômica adequada à realização do trabalho? Básico e fundamental. A seguir, outras recomendações simples para minimizar a fadiga resultante das videoconferências “non stop”:

  • lembre-se de que não é porque você pode usar o vídeo que precisa usá-lo. Quando for possível, substitua-o por chamadas de áudio;
  • se tiver um monitor externo, que permite uma distância física maior entre você e a tela, use-o;
  • sempre que der, não hesite em desligar sua imagem;
  • não “salte” direto para outra tela — e-mail ou celular, por exemplo — nos intervalos entre as chamadas de vídeo. Nesses curtos períodos, é aconselhável esticar as pernas, olhar para o céu azul pela janela, tomar um café, anotar algo em papel etc.
  • a mesma lógica vale para o final do dia, quando é comum a pessoa se sentir drenada de toda a energia. Nada, portanto, de correr para o Whatsapp, o Instagram, os games ou as séries da Netflix. O ideal é mudar o tipo de operação mental e partir para atividades off-line, como falar com alguém por telefone ou ler um bom livro;
  • faça reuniões objetivas, de 30 minutos ou no máximo uma hora.

Para tanto, seu mediador deve avaliar quem deve realmente participar da reunião para:

  • que a sessão não se torne improdutiva;
  • preparar os tópicos e os materiais a serem abordados e enviá-los à equipe antes do encontro, a fim de que todos possam se preparar e chegar com ideias e eventuais soluções;
  • se conectar com antecedência e começar sempre no horário marcado, mesmo que falte alguém;
  • manter a reunião no rumo certo;
  • no final, elaborar a ata com os pontos discutidos e as decisões tomadas;
  • e sair com plano de ação definido: quem vai fazer quais tarefas e suas respectivas datas de entrega.

Os cuidados com a visão

Por fim, nunca é demais lembrar que, além do aspecto mental relacionado ao Zoom Fatigue, as causas do cansaço também podem ser físicas. Mais especificamente, associadas à visão, já que durante as chamadas de vídeo nossos olhos têm um foco único e muito próximo da tela.

“Os músculos dos olhos ficam continuamente contraídos, sem relaxar, ocasionando não apenas fadiga, mas ressecamento e irritação. Por isso a importância de mudar o foco do olhar para fora do computador de tempos em tempos, possibilitando que os músculos oculares se contraiam e relaxem alternadamente, como tem de ser”, diz  Leonardo Marculino, oftalmologista, que menciona ainda os malefícios da luz azul emitida pelas telas, capaz de provocar insônia e até envelhecimento precoce dos olhos.

Para contornar tais problemas, ele sugere:

  • desviar os olhos do computador por pelo menos cinco minutos a cada uma hora;
  • lembrar de piscar propositalmente;
  • pingar lubrificantes oculares regularmente;
  • manter uma distância razoável da tela e posicionando-a no nível abaixo do queixo:
  • optar por monitores grandes;
  • jamais participar de uma videoconferência via celular (só em último caso!);
  • colocar filtro de luz sobre a tela do computador;
  • usar óculos com filtro de luz azul (sempre com prescrição oftalmológica);
  • procurar um oftalmo para verificar a possibilidade de adquirir óculos para perto. Dependendo do caso, mesmo pessoas com menos de 40 anos e sem problemas de visão podem usá-los em favor de seu conforto visual.
[Em tempo: munir-se de paciência e esperança de que em breve voltaremos a interagir — ao vivo e em cores — também vai bem.] 😉

 

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