Aos poucos, as empresas estão convocando seus funcionários a retornarem aos escritórios. Em muitos casos, a volta é voluntária e respeita o calendário de vacinação contra a covid-19. Em outros, o colaborador não tem escolha.

Mesmo nos casos em que a empresa oferece horários flexíveis, os funcionários estão precisando se virar nos 30 para encaixar as mudanças que aconteceram em suas vidas durante a pandemia à nova rotina de trabalho. Afinal, foram quase dois anos trabalhando de casa.

“Minha filha mais nova, a Antonella, tem 3 anos. Ela ainda não precisa ir para a escola, mas a matriculei mesmo assim, pois sabia que um dia iria voltar ao escritório”, conta Gabriela Tognozzi, gerente de marketing institucional do Bmg.

Essa não foi a única mudança que Gabriela precisou fazer para se adaptar à volta ao presencial. “Antes da pandemia, eu tinha uma pessoa que me ajudava em casa duas vezes por semana. Já sabendo que iria voltar, contratei uma que fica comigo todos os dias.”

Já a analista de comunicação Tania precisou demitir a babá depois do marido ficar desempregado. Enquanto estava em home office, ela conseguiu lidar com a falta de ajuda. “Antes da pandemia, meu filho ficava com uma babá e só estudava no período regular. Mas com a volta ao presencial, ele terá de estudar em período integral. É o único jeito de conciliar o horário de trabalho com o da escola”, conta ela, que pediu para não se identificar.

Pesquisa da It’sSeg mostra que 62% das companhias pretendem que seus colaboradores voltem ao trabalho presencial ainda neste ano. Mas uma minoria dos funcionários deseja retornar ao modelo 100% presencial: apenas 16%, segundo pesquisa da Adecco. A maioria prefere o modelo híbrido (40%) e o 100% remoto (33%).

A jornalista Mariana Reis, por exemplo, já retornou ao escritório. Moradora do bairro da Santa Cecília, região central de São Paulo, ela trabalha na avenida Faria Lima. Como tem asma, ela tem medo de pegar transporte público no horário de pico. Para evitar o metrô lotado, Mariana vai trabalhar de manhã de Uber. No fim do dia, ela espera a hora de rush passar para voltar para casa de metrô.

“Eu posso dizer que sou uma privilegiada, pois moro perto do meu trabalho. Levo 30 minutos para chegar lá de metrô e 20 se for de carro. E as pessoas que levam duas horas para ir e duas para voltar? Minha situação até que é tranquila”, conta.

Solteira e sem filhos, Mariana está trabalhando em esquema híbrido: três dias no escritório e dois em casa. Essa mudança já afetou suas idas às aulas de pilates. “Eu fazia dois dias por semana. Agora, uma das aulas faço de sábado, o que é ruim pra mim, pois gosto de acordar tarde no fim de semana. Acordo cedo só por causa da aula.”

Retorno a espaços menores

No escritório Leite, Tosto e Barros Advogados, o retorno ao presencial começou a partir de meados de julho. Para receber de volta os funcionários, o escritório passou por uma reforma, que incluiu a redução do espaço ocupado. A nova área só comporta 160 dos 200 colaboradores, ou seja, não é possível que todos trabalhem juntos todos os dias da semana.

“Os sócios, coordenadores e gerentes mantiveram uma sala no novo escritório. Os demais funcionários entram num app e reservam os postos de trabalho para usar de uma a três vezes por semana”, diz Luciana Arduin, sócia do escritório.

Entre as medidas de segurança adotadas está a realização de testes semanais para detecção de covid-19 nos funcionários que já voltaram ao presencial. “Como nem todo mundo está vacinado, estamos limitando a ocupação do espaço em 60%. Também criamos um vacinômetro para acompanhar o ritmo de vacinação dos colaboradores”, conta Luciana.

Renata Christina Silveira Araújo, sócia-executiva do Leite, Tosto e Barros, voltou ao escritório em sistema híbrido: faz presencial de três a quatro dias por semana. “Uma coisa que mudou na pandemia é que passei a acompanhar mais de perto a rotina da minha filha, que tem 9 anos. Antes, saía cedo para trabalhar e voltava tarde. Agora, eu participo mais da vida dela.”

Uma das mudanças que ela incorporou e que devem ser mantidas no novo normal é acompanhar mais de perto o dia a dia da filha. Nos dias em que trabalha em casa, ela busca a menina na escola. “Fizemos um esquema de revezamento entre três vizinhos que têm filhos na mesma escola. Cada dia, um leva para o colégio e outro traz para casa. Bem-bolados como esse não existiam antes.”

E quem não quer voltar?

Mas não é todo mundo que quer voltar. A analista de negócios Joice, por exemplo, quer largar seu emprego em uma consultoria voltada para pequenos e médios empresários. “Passei os últimos dias atualizando meu currículo e meu perfil no Linkedin, me candidatando a vagas e me inscrevendo em cursos”, conta ela, que pediu para não ser identificada.

O motivo da insatisfação foi o chamado da empresa para voltar ao presencial -era para ser cinco dias, mas ela conseguiu negociar de ficar um dia em home office. “Essa volta não faz sentido, pois consigo desempenhar perfeitamente meu trabalho de forma remota. Aliás, sou mais produtiva e trabalho até mais de casa. Não tem lógica querer que todo mundo volte. As empresas querem ser tão modernas, mas tratam seus funcionários de forma analógica.”

Ela diz que gosta muito do seu emprego, mas não quer mais ter que trabalhar de forma presencial praticamente todos os dias da semana. “Sou muita grata ao meu emprego, sei que sou boa funcionária, pois recebo esse feedback do meu chefe. Mas não tenho medo de começar em uma nova área, por isso vou até começar cursos em outras áreas.”

As empresas vão ter que lidar com situações como essa. “É loucura achar que todo mundo vai querer voltar. Tem gente que foi morar longe para ganhar qualidade de vida. Outros ganharam filho, adotaram cachorro. Vai ser muito difícil adotar uma política de trabalho que não preveja a flexibilidade”, afirma Lucas Oggiam, diretor do PageGroup.

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