A pesquisa “Maternidade e Mercado de Trabalho”, feita pelo site de empregos Vagas.com, aponta que 70% das respondentes afirmam já terem sido questionadas em entrevistas de trabalho se eram mães ou planejavam ser. A pergunta, que pode parecer inofensiva, muitas vezes é seguida por outras – mais específicas, invasivas e, não raro, eliminatórias. Entre elas: ‘com quem vai deixar seu filho para trabalhar?’, ‘quem cuidará do seu filho se ele ficar doente?’, ‘você é quem vai pegá-lo na escola?’, ‘mora perto de seus pais?’, ‘tem babá?’, e por aí afora.

“As mulheres, e em especial as mães, têm comprovadamente menos oportunidades em toda a sua jornada profissional em comparação com os homens, a começar pelas atitudes discriminatórias de alguns recrutadores durante os processos seletivos”, diz Margareth Goldenberg, consultora e gestora executiva do Movimento Mulher 360, que reúne mais de 80 empresas interessadas em promover a equidade de gênero e o empoderamento feminino.

A seguir, veja os principais pontos da entrevista concedida pela especialista ao portal 6 Minutos, na qual fala sobre como agir diante de questões pessoais pouco apropriadas ao contexto profissional, a importância de combater os preconceitos relacionados à maternidade, o avanço das empresas no sentido de tornar seus ambientes mais inclusivos, e muito mais.

Vagas

As dificuldades relacionadas ao ingresso das mulheres no mercado de trabalho costuma se dar ainda antes da entrevista, com o anúncio das vagas. Sua descrição invariavelmente é redigida no masculino e, na maioria das vezes, ilustrada com um homem branco de terno ou capacete. Detalhes como esses contribuem para reforçar estereótipos e afastar potenciais mulheres candidatas.

Currículo

Ao optar por se inscrever para uma vaga, é hora de atravessar a delicada etapa da análise do currículo. Ao constatar que a candidata é mulher, tem filho(s) e mora em um bairro distante da empresa, digamos, muitas vezes ela é descartada ali mesmo.

Entrevista

Ao ser chamada para uma entrevista de emprego, caso a candidata se sinta incomodada com perguntas que passem do ponto, direcionadas a aspectos de sua vida pessoal e sua rotina com os filhos, a sugestão é interromper a sequência de indagações e se posicionar, sempre de forma tranquila, honesta e segura. Uma boa saída é dizer ao recrutador que está percebendo certa preocupação da empresa de que seu papel como mãe possa impactar negativamente no seu desempenho profissional. A partir daí, peça que ele explique melhor o motivo por trás de tais questionamentos e quais as reais atribuições do cargo. As viagens são uma constante e trabalhar fora do horário do expediente, ou mesmo aos finais de semana, é algo recorrente? Assim sendo, explique até que ponto é possível atender as demandas, e de que forma, sem entrar em detalhes desnecessários.

Outra dica é enfatizar que você já passou por outras companhias e o fato de ter filhos nunca afetou sua produtividade nem seu comprometimento. Esse tipo de atitude levanta a cortina e eleva o nível da conversa, além de denotar maturidade, profissionalismo e transparência.

Planejamento familiar

A mesma lógica vale para perguntas que giram em torno de seus eventuais planos para engravidar. Uma resposta breve e objetiva, como “ainda estou avaliando a questão, mas certamente o fato de me tornar mãe não vai atrapalhar meu avanço profissional”, é uma opção. A candidata pode aproveitar o gancho, inclusive, para questionar se a empresa cultiva um ambiente pró-família e propício à maternidade.

Legislação

A Lei 9029/1995, específica à análise das práticas discriminatórias nas relações de trabalho, prevê que toda pergunta de cunho privado em uma entrevista de emprego deve ser evitada, pois contraria o princípio da equidade e da não discriminação. A função dos recrutadores, portanto, não é interferir nas questões pessoais dos candidatos, e sim buscar suas habilidades e expertises. Simples assim.

Script único

Uma prática cada vez mais disseminada por empresas que promovem ações afirmativas voltadas para a diversidade e inclusão pressupõe um script único para entrevistas de emprego. Restrito a questões de âmbito profissional, esse roteiro padrão e imparcial tem com objetivo evitar os vieses inconscientes – ou seja, preconceitos baseados em estereótipos de gênero, raça, classe, orientação sexual, idade etc. – presentes nos profissionais que conduzem os processos seletivos. Uma das premissas deste script é a inexistência de perguntas referentes à pretensão salarial. O recrutador deve simplesmente informar ao participante qual a remuneração relacionada à vaga –  um avanço e tanto, sobretudo para as mulheres, que costumam anunciar expectativas salariais mais baixas que os homens.

Condicionamento operante

A falta de autoconfiança feminina tem muito a ver com o fato de as mulheres serem fruto de uma sociedade patriarcal e machista, com papéis pré-definidos desde muito cedo. Meninas ganham bonecas, mamadeiras e cozinhas, sendo incentivadas a cuidar, enquanto os meninos brincam com espadas, aviõezinhos e espaçonaves, e são treinados para vencer vilões e defender princesas. Isso acaba se desdobrando em escolhas profissionais distintas. Muitas mulheres buscam profissões ligadas à educação e saúde. Os homens, por sua vez, se tornam engenheiros, tecnólogos e administradores. Não por acaso, eles desenvolvem determinação para avançar na carreira, demonstrando mais disposição para o risco. Uma pesquisa da Harvard Business Review mostrou que ao se depararem com uma vaga que exige 10 habilidades diferentes, as mulheres se inscrevem apenas se dominarem todas. Já para os homens, bastam seis.

Curva de aprendizagem

Diversos estudos vêm mostrando que a jornada da maternidade ajuda a desenvolver nas mulheres habilidades socioemocionais altamente valorizadas pelas empresas, tais como gerenciamento de estresse, resolução de conflitos, negociação, concentração, criatividade e planejamento, entre tantos outros. Abordar as soft skills adquiridas por seu “intensivão materno” durante a entrevista de trabalho também pode ser uma boa alternativa. Há quem, aliás, as coloque no próprio currículo.

Boas práticas

Principalmente durante essa pandemia, descobrimos o verdadeiro poder das redes sociais e, entre outras coisas, a importância de escolher a organização em que realmente gostaríamos de atuar. A boa notícia é que cada vez mais companhias vêm investindo em ambientes diversos e acolhedores. Entre as boas práticas do mercado voltadas para mulheres e mães estão programas de contratação de grávidas, bancos de currículos femininos, jornadas de trabalho flexíveis, extensão das licenças maternidade e paternidade, políticas de não demissão após o período de licença-maternidade, creche, auxílio-creche, auxílio-babá e por aí afora.

Mães não são “categoria única”

Cada mulher tem uma visão, uma motivação, um contexto, um arranjo familiar e planos específicos. Quando se trata de mães, há quem queira dar um tempo na vida corporativa, desacelerar só um pouquinho ou, ao contrário, dar um gás na carreira em prol de uma vida confortável e do futuro da prole. É fundamental que empresas e recrutadores compreendam essas premissas básicas, abram espaço para o diálogo, incentivem as diferenças e convivam bem com elas. Sem subestimar, pressupor ou decidir nada por nós. A ideia é aprendermos juntos a avançar. Seja pelo amor, pela dor… ou pela inteligência.

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