Sabe o que é presenteísmo? A palavra pode definir a condição do indivíduo que está fisicamente presente no trabalho, porém mentalmente ausente. Ou seja, está desconectado emocionalmente de suas tarefas e incapaz de desempenhar suas funções de forma satisfatória. Mesmo assim, segue trabalhando.

Para especialistas, o presenteísmo é um grande mal que assola todos os ambientes corporativos no mundo contemporâneo. Um problema silencioso, mas muito nocivo, de difícil identificação e gerenciamento, que afeta tanto a saúde física e mental dos profissionais quanto a saúde financeira das empresas.

Ainda pouco conhecido pela maioria das pessoas, o conceito envolve prejuízos na casa dos bilhões. Um estudo da GCC Marketing descobriu que, embora os funcionários estivessem ausentes do trabalho por em média quatro dias por ano, eles confessaram ser improdutivos durante um total de 57,5 dias – o equivalente a quase três meses úteis.

Não é de se estranhar, portanto, que o presenteísmo custe aos Estados Unidos até 150 bilhões de dólares por ano. No Brasil, a estimativa do rombo é de aproximadamente 42 bilhões de dólares, de acordo com pesquisa da ISMA (International Stress Management Association), associação voltada à prevenção e ao tratamento do estresse.

“A condição está relacionada principalmente ao medo de perder o emprego, ao alto nível de responsabilidade profissional ou ao forte vínculo estabelecido com aqueles que recebem o ‘produto’ de seu trabalho, a exemplo de professores e profissionais da saúde”, diz o doutor Fábio Camilo, head de psicologia da Vittude, startup brasileira especializada em terapia online, e doutor em psicologia da saúde. “O cenário de incertezas criado pela pandemia, com vida remota e enorme pressão para se manter focado e engajado, pode ocasionar o surgimento ou agravamento do quadro.”

Mudanças súbitas

Assim como não há causas definitivas para o presenteísmo – que pode estar ligado a questões pessoais, doenças ocupacionais, falta de propósito profissional e insatisfação no trabalho – o problema não se dá sempre da mesma forma, podendo variar de funcionário para funcionário. Um bom indício, que merece a plena atenção das lideranças, é quando o profissional passa a apresentar quedas bruscas na produtividade, juntamente com desvios em seu padrão de comportamento.

Se antes costumava pensar em soluções criativas e realizava suas atividades com motivação e maestria, além de não perder nenhum prazo de entrega, ele passa, digamos, a operar no automático, adiar ou acumular tarefas e cometer erros básicos. Considerado comunicativo, concentrado e calmo, torna-se calado, evitando emitir opinião, se mostra indiferente ao entorno, bem como impaciente e irritadiço durante conversas e reuniões. Fora a pressa de colocar um fim ao expediente ou, ao contrário, o excesso de horas extras – o que não se traduz necessariamente em aumento de produtividade. Dores de cabeça e musculares constantes, doenças gástricas e insônia são outros indicativos importantes.

Perdas e conflitos

Aparecida Silva, sócia-diretora da Estação 4 Consultoria em Desenvolvimento Humano, lembra da história do gestor de uma empresa-cliente cuja produtividade começou a deslizar ladeira abaixo logo após seu divórcio. Ansioso, altamente estressado e sem condições de produzir como deveria, ele não detectou um erro crasso cometido por um membro do time – o que acabou gerando um prejuízo de cerca de 100 mil reais para a companhia.

“Qualquer um de nós está sujeito ao presenteísmo vez ou outra, seja porque não dormimos direito na noite anterior ou tivemos um contratempo, por exemplo. Isso só se torna realmente um problema quando passa a ser recorrente e impacta negativamente todos os envolvidos, incluindo chefe, colegas e a organização em si”, diz ela. “Essa questão atrapalha o bom funcionamento das empresas e pode provocar refações, recalls e perda de clientes fiéis, promovendo queda nos índices de lucratividade. Sem contar a falta de interação e eventuais conflitos entre as equipes, ocasionados sobretudo por desequilíbrios na carga de trabalho.”

Presenteísmo X absenteísmo

Ao pesquisar sobre o presenteísmo, é provável que você chegue a outro termo corporativo, esse bem conhecido e que igualmente prevê perda de conexão entre o trabalhador e seu ofício: o absenteísmo. Nesse caso, a condição pressupõe ausência frequente do profissional no trabalho por motivos físicos e emocionais. A grande diferença é que as empresas têm a oportunidade de colocar alguém em seu lugar, seja um substituto provisório ou definitivo. Já no presenteísmo, o comparecimento do funcionário improdutivo não permite uma solução fácil, sendo mais prejudicial a longo prazo. Na prática, o custo para as organizações é cerca de dez vezes maior que o absenteísmo, segundo pesquisa do Global Corporate Challenge (GCC).

Correção e prevenção

Para interromper a espiral de perdas inerente ao presenteísmo e evitar que o quadro se agrave, levando ao esgotamento total, à despersonalização e ao sentimento de menos valia – tríade característica da síndrome de burnout – é fundamental que as empresas criem estratégias de correção e prevenção. Canais de comunicação abertos e assistências médica, jurídica e psicológica certamente ajudam, assim como a definição clara de cargos e metas, promoção de ações de treinamento, incentivo e reconhecimento.

Mais importante do que isso, no entanto, é desmistificar a ideia de que a situação tem a ver com “fazer corpo mole”, má fé, falha de caráter e por aí afora. E, ainda, criar um ambiente de confiança e apoio no qual os indivíduos fiquem de fato à vontade para mostrar suas necessidades pessoais – e humanas. “A saúde mental nas companhias ainda é um tabu que precisa ser quebrado”, afirma Fábio. “É preciso ter em mente que procurar ajuda médica não é sinal de fraqueza, mas sim de força.”

Para ilustrar o longo caminho a ser percorrido nesse sentido, ele explica que boa parte das pessoas ainda prefere pagar a terapia do próprio bolso a usar o apoio psicológico 100% subsidiado por suas empregadoras (um benefício mais comum do que nunca em tempos de pandemia), basicamente por vergonha de os outros pensarem que não estão “aptas para o trabalho”. Aparecida, a consultora, concorda. “Conheço uma empresa que custeou terapia para cerca de 40 funcionários, a maioria seniores. Apenas dois deles aceitaram.”

 

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