Em uma noite de julho, Stephanie Felts estava deitada na cama tentando processar desastres climáticos simultâneos em todo o mundo. De uma onda de calor esmagadora no Canadá a incêndios florestais nos Estados Unidos e inundações na China.

“Acabei de perceber, ok, que é o que teremos de melhor, não porque não possamos fazer nada para melhorar as coisas, mas porque simplesmente não faremos”, disse Felts, 43, que trabalha em serviços financeiros e agora mora perto de Atlanta. “Isso faz você se sentir como, ‘ei, o apocalipse está começando.’”

Ela não está sozinha. Mais pessoas estão achando difícil lidar com a sensação crescente de que governos e empresas não farão o suficiente para frear o aquecimento global. Para piorar as coisas, existe o conhecimento de que mesmo que a humanidade de repente se unifique em uma mudança histórica para adotar energia renovável, é tarde demais para evitar as consequências sombrias já irreversíveis.

Talvez, desde os piores momentos da Guerra Fria, não tenha surgido um desespero tão profundo e generalizado pelo futuro. Quer chamemos isso de ansiedade climática, sofrimento ecológico ou qualquer outra coisa, a profunda preocupação com o aquecimento global está afetando cada vez mais a vida cotidiana de muitas pessoas. A maioria dos adultos norte-americanos já diz que está um tanto ou extremamente ansiosa com o efeito que a crise climática tem sobre sua saúde mental, segundo pesquisa da American Psychiatric Association. Isso além do estresse de tentar se proteger contra o coronavírus.

Preocupações com o clima

Nos países em desenvolvimento, milhões lidam com os efeitos psicológicos do aquecimento global há anos. O aumento das temperaturas na Nigéria contribui para a desertificação, forçando os criadores de gado do norte a se mudarem para o sul em busca de alimentos para o rebanho. A mudança precipitou confrontos entre agricultores. O medo da violência devido a recursos cada vez mais escassos não é incomum.

O grande número de pessoas no mundo suscetíveis ao estresse induzido pelo clima fomentou um senso de urgência entre os profissionais de saúde mental que buscam entender o problema. Praticamente qualquer pessoa “pode ser afetada pela ansiedade climática, independentemente de sua vulnerabilidade pessoal ou relativa segurança”, de acordo com Susan Clayton, professora de psicologia e pesquisadora do The College of Wooster em Ohio.

Vários estudos encontraram uma minoria considerável dizendo que a mudança no clima já afeta seu funcionamento padrão. O conselheiro Andrew Bryant, de Seattle, disse que as pessoas estão preocupadas com o aquecimento global e com o fato de serem afetadas diretamente por um desastre climático. A psiquiatra Janet Lewis, de Nova York, afirmou que os indivíduos estão lutando contra a desarmonia cotidiana de atividades e coisas que eles sabem que são prejudiciais, como comer carne vermelha ou dirigir um carro a gasolina.

Os especialistas em saúde mental enfatizam que a comunicação com amigos e familiares continua sendo uma maneira eficaz de lidar com a situação. Ainda assim, apenas 37% dos americanos conversam sobre o aquecimento global regularmente com pessoas próximas a eles, segundo pesquisa do Yale Program on Climate Change Communication.

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