A Covid-19 desencadeou uma revolução no modo em que trabalhamos, planejamos e executamos nossas atividades. Os atributos profissionais exigidos pelo mercado, por tabela, também mudaram. Portanto, não é de se estranhar que os empregadores estejam particularmente interessados em ver expressos nos currículos os novos conhecimentos, habilidades e comportamentos adquiridos pelos candidatos durante a pandemia.

Segundo os especialistas, esse tipo de atualização ainda não é usual – mas deveria. Afinal, justificar eventuais lacunas nos empregos, mostrar a maneira como enfrentou os desafios impostos pela crise e, principalmente, o que aprendeu ao longo do caminho revela muito sobre seu perfil e sua atitude, podendo contar pontos a seu favor nos processos seletivos.

“A iniciativa pode destacar o candidato entre seus concorrentes e chamar a atenção dos recrutadores, aumentando as chances de convites para entrevistas”, diz José Augusto Minarelli, presidente da Lens & Minarelli, empresa especializada em outplacement. “A adaptação do currículo deve, inclusive, abranger perfis do LinkedIn e até cover letters que, complementares ao CV, preveem mais espaço para descrições específicas.”

A seguir, algumas recomendações para preparar sua narrativa profissional na fase de recuperação pós-pandemia, o que vale tanto para quem está ativamente no mercado de trabalho quanto em busca de recolocação.

Demonstre, por A mais B, sua capacidade produtiva

Não é de hoje que os coaches de carreira entoam o mantra sobre a importância de os currículos enfatizarem resultados, normalmente expressos por meio de números. Poucos, no entanto, são os que seguem esse oportuno e sábio conselho. “Com o aumento da competitividade e do desemprego, mais do que nunca as empresas precisam de pessoas capazes de contribuir efetivamente na busca por resultados”, afirma a sócia-fundadora da Intentus, Lilian Sanches, consultora especialista em carreira.

“Salvo se você for um profissional júnior, que ainda esteja descobrindo como gerar valor aos negócios, é fundamental deixar claro para o empregador como a sua atuação se transformou em algo tangível, evitando se prender a habilidades ‘tarefeiras’.”

Fique à vontade para mencionar lacunas no CV

Justificar “buracos” no histórico de empregos sempre foi motivo de desconforto para muitos. Diferentemente de agora, em que os profissionais vêm sendo incentivados a entrar no mérito de forma mais tranquila e direta.

“Diante de uma crise sem precedentes como a que vivemos hoje, os empregadores tornaram-se mais receptivos e empáticos a potenciais interrupções na carreira dos candidatos e os motivos que vêm junto com isso”, diz Lilian. “Isso porque as pausas podem ser atribuídas a desligamento por conta de reduções de custo, pedidos de demissão para dar suporte à família ou não colocá-la em risco, bem como o fato de a pessoa ter se tornado cuidadora em tempo integral etc.”

Seja pessoal (mas nem tanto)

Como as linhas entre trabalho e vida continuam a se confundir, tornou-se mais aceitável usar a experiência pessoal para demonstrar desenvolvimento profissional, pelo menos até certo ponto. É aconselhável, leia-se, prever algumas informações pessoais no currículo, desde que diretamente ligadas à função. Digamos que, mesmo fora do escopo de seu trabalho, você montou um grupo para ajudar seus colegas de equipe com dificuldades em lidar com ferramentas digitais. Ou, então, implementou algum processo inusitado e inteligente que permitiu economizar o tempo das pessoas, reduzir a sobrecarga digital e o estresse dos times. Descrever brevemente tais ações ajuda a valorizar aspectos como proatividade, criatividade, flexibilidade cognitiva e senso de liderança, entre outros.

Deixe clara sua disponibilidade “remoto-presencial”

Antes da pandemia, o fator “disponibilidade” girava em torno do nível de flexibilidade do profissional para possíveis mudanças de cidade, estado ou país, além de abertura para a realização de viagens frequentes a trabalho. Agora, os recrutadores também querem saber sobre sua disposição para atuar remota ou presencialmente. Em função de seu novo contexto de vida, você estaria inclinado a ir ao escritório todos os dias? Uma ou, no máximo, duas vezes por semana? Nenhuma? Registre.

Enfatize as habilidades-chave adquiridas no trabalho remoto

Além de os candidatos se esforçarem para comunicar como administraram a mudança para o home office e os desafios que tiveram de superar para serem bem-sucedidos, é importante ressaltar no currículo as habilidades-chave que desenvolveram nessa fase. Em especial, aquelas voltadas para gerenciamento de crises e conflitos, preparação para emergências e solução de problemas complexos. Sem contar as tão faladas soft skills, ou “human skills”. Entre elas, adaptabilidade, disciplina, resiliência, colaboração e autossuficiência para trabalhar, assim como a tão falada capacidade de comunicação.

“Anteriormente, saber se comunicar de forma regular e clara com as pessoas, tanto escrita quanto verbalmente, dependia muito da área”, afirma Lilian. “Não era pré-requisito para Financeiro e TI, por exemplo, ao contrário de agora, em que a falha na comunicação é sinônimo de ruídos e altamente prejudicial ao sucesso de qualquer projeto.”

Mostre sua pro-atividade na crise

Apesar das dificuldades e restrições decorrentes da crise do novo coronavírus, você se manteve ativo e de olho no futuro, e não prostrado, lamentando a própria sorte? Fez questão de estudar, ler, realizar cursos e treinamentos online (muitos deles gratuitos) em busca de desenvolvimento? Usou seu tempo livre para atuar como voluntário em alguma instituição? Correu atrás de oportunidades, fez trabalhos temporários ou de meio-período?

“Entre o saber e o fazer tem o querer”, explica a especialista em carreira. “Manter uma atitude positiva e demonstrar jogo de cintura para lidar com as adversidades reflete quem você é e como encara os problemas e as adversidades, algo que qualquer recrutador deseja ver em um candidato, sobretudo em um cenário de incertezas.”

Esclareça seus novos objetivos e propósitos

Com tantos questionamentos e diferentes enfoques trazidos pela pandemia, não são poucos os profissionais que optaram por se reinventar, descobrindo novos propósitos de vida e de carreira. Foi o caso de Gisela Ostronoff, gestora de novos negócios com mais de 20 anos de atuação em agências de relações públicas e eventos.

“O efeito devastador da crise levou à minha demissão, o que antecipou os planos de usar minhas competências em prol de atividades capazes de gerar benefícios para a sociedade e o meio ambiente”, diz ela.

“Por isso, hoje estou em busca de recolocação em companhias que forneçam soluções para problemas socioambientais. No paralelo, venho me dedicando a meus próprios negócios: um deles voltado para o desenvolvimento e implementação de projetos de educação e outro, focado na distribuição de produtos de limpeza ecológicos. Tudo isso devidamente assinalado tanto em meu currículo quanto em minha página do LinkedIn.”

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