Uma das metas que as empresas passaram a perseguir com afinco é a ampliação do número de mulheres em cargos de liderança. Esse objetivo, entretanto, não se alcança da noite para o dia. Não basta abrir processos seletivos voltados exclusivamente para mulheres. É preciso reter e desenvolver a carreira das profissionais que já estão dentro das corporações.

O problema é que a trajetória feminina sofre várias interrupções, sendo a principal delas a volta da licença-maternidade. Muitas empresas ainda demitem a funcionária na volta desse afastamento. Pesquisa da FGV (Fundação Getulio Vargas) mostra que quase metade das mulheres são demitidas até 12 meses após o retorno da licença.

Por isso, muitas profissionais têm medo mesmo de engravidar e perder o emprego. “A decisão de ter filhos não deveria ser motivo de preocupação profissional. Não deveria existir a escolha abrir mão da carreira ou abrir mão do sonho de ser mãe. A mulher pode ser mãe e executiva, não precisa escolher entre uma coisa e outra”, diz Débora Ribeiro, gerente de contas estratégicas da Robert Half.

A importância da licença de seis meses

As empresas que possuem percentuais elevados de mulheres em cargos de liderança costumam oferecer um combo vantajoso de benefícios para as mulheres que retornam da licença-maternidade. O mais comum, e talvez um dos mais importantes, é a licença estendida de seis meses.

“Começamos essa política de licença estendida de seis meses no Brasil e estendemos para toda a América Latina. Por que fizemos isso? Primeiro porque sou mulher e estava na cadeira de presidente. Sei muito bem o que é para uma mãe deixar um filho com quatro meses na creche ou com a babá para retornar ao trabalho. O bebê ainda precisa muito da mãe”, disse Marcele Lemos, COO da Coface América do Norte.

Qual o caminho para mudar esse cenário?

Um bom começo é oferecer para a profissional a segurança de que ela não vai perder o emprego só porque ficou grávida. Na Danone, o apoio se inicia no momento em que a colaboradora comunica que está grávida ao seu gestor.

“Tudo começa no anúncio da gravidez no trabalho. Os gestores são orientados para que esse momento seja positivo e de acolhimento. Pesquisas mostram que para 80% das mães ter um gestor empático faz toda diferença em sua jornada dentro da empresa. Um gestor com quem possam se abrir e negociar flexibilidade”, afirma Pollyana Pádua, gerente de talentos e diversidade da Danone.

Outra medida simples e que reforça a sensação de que o emprego estará lá na volta é incluir a grávida no planejamento de transição de cargo. “A partir do sexto mês de gestação, já recomendamos que o gestor pense em como a atividade dela será cuidada durante sua jornada parental para que se sinta segura com suas decisões e faça uma transição tranquila”, diz Pollyana.

Isso acaba de acontecer com Maria Padilha, business partner da Danone, que retornou da licença em dezembro e a partir deste mês vai cobrir o afastamento de outra colega. “Quando voltei, minha gestora e meu diretor me deram as boas-vindas e disseram para ficar tranquila com a volta, pois tinham planos para mim. Como uma colega saiu em licença, assumi novas responsabilidades e estou aprendendo coisas novas.”

Um sinal de que a gestação não é problema é contratar e promover mulheres grávidas. “Nosso papel [de recrutador] e das empresas é contratar a melhor pessoa para aquela vaga, não importando se ela está grávida ou não. Não vamos esperar você voltar da licença para te contratar se você é a pessoa certa”, afirma Debora, da Robert Half. (Leia: Elas foram contratadas e promovidas grávidas – por que isso não deveria surpreender)

Outro caminho importante é oferecer benefícios que ajudam a mulher a se adaptar melhor ao novo momento da vida, como horários flexíveis de trabalho. Antes da pandemia, as funcionárias do BV podiam trabalhar três dias remotamente e dois na empresa até o filho completar 1 ano. Hoje, 100% da empresa está em home office.

No Mercado Livre, as profissionais retornam da licença-maternidade após quatro meses com uma jornada flexível e mais curta. “Ela começa com meio-período e a jornada vai aumentando gradualmente até atingir oito horas diárias quando a criança fizer 2 anos”, diz Claudia Soler Fajolli, gerente sênior de benefícios do Mercado Livre.

Essa jornada mais curta não é descontada ou compensada depois por banco de horas. “A remuneração não sofre nenhum desconto, a jornada é realmente mais curta”, afirma ela.

Na Coface, as mulheres têm a licença de seis meses e também podem por dois meses usufruir de uma jornada mais flexível. “A volta é momento muito difícil, pois a mulher cria um vínculo muito forte com o bebê. Quando ela retorna, é como se tivesse se separado de um pedaço dela”, diz Marcele. “Por isso, demos essa flexibilidade para ela ir se acostumando.”

Um novo começo

Na Danone e no Mercado Livre, as mulheres que voltam da licença-maternidade passam por uma nova integração ao trabalho. “O gestor e equipe são preparados para acolher e receber de volta aquela profissional que ficou fora”, afirma Claudia, do Mercado Livre.

Na Danone, a profissional que volta da licença passa por um novo onboarding. “Ela recebe um kit de boas-vindas igual ao dado a quem está entrando na empresa. Sabemos que o retorno não é fácil, que muitas mudanças acontecem em seis meses e por isso tratamos a volta como nova integração para que ela se sinta bem vinda e reinserida na companhia”, conta Pollyana.

No e-book Retenção de Mulheres no Pós Licença-Maternidade, elaborado pelo Movimento Mulheres 360, são sugeridas outras políticas para segurar essa mulher, como repetição de nota de avaliação de desempenho. Na Qualicorp, por exemplo, os meses da licença foram incluídos apenas recentemente no cálculo da participação nos lucros. Na gestão anterior, esse período não era contabilizado.

Mais benefícios

Além de tudo isso que já foi falado, a lista de benefícios que as empresas oferecem para suas profissionais após o retorno da licença costuma incluir:

    • Salas de amamentação
    • Auxílio-creche e/ou babá
    • Horários flexíveis de trabalho
    • Vale-presente para o bebê

Mas o que as mulheres gostariam de ter (e poucas empresas oferecem) é uma creche dentro do local de trabalho (veja abaixo).

Futuro do trabalho é flexível e híbrido

Para Marcele, da Coface, o trabalho híbrido, que será o modelo que adotado pela empresa após o fim da pandemia ajudará a mulheres a lidar com a dupla função de mãe e profissional. “Essa política vale para todos os funcionários, homens e mulheres. Mas será uma forma de permitir que as pessoas fiquem mais próximas de suas famílias enquanto trabalham.”

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