Você conhece mulheres que foram contratadas ou promovidas grávidas? Pois é, em pleno 2021 isso ainda não é muito comum. Engravidar não deveria ser motivo de preocupação, mas muitas profissionais se surpreendem quando são selecionadas ou promovidas nessas condições. Acabam até se sentindo na obrigação de informar a gestação, quase que para se certificarem que o empregador não vai se arrepender depois.

Por que existe essa associação da gravidez com um algo negativo? Para especialistas em mercado de trabalho, a licença maternidade (de 4 a 6 meses, dependendo da empresa) foi vista por muito tempo como um obstáculo para o crescimento profissional da mulher. Pela lei, as empresas não podem demitir a trabalhadora grávida até cinco meses após o parto. Para não ter que ‘pagar’ por essa estabilidade, algumas companhias preferiam não contratar mulheres com planos de engravidar.

A demissão na volta da licença-maternidade, infelizmente, ainda é costume em muitas companhias. Pesquisa da FGV (Fundação Getulio Vargas) mostrou que quase 50% das mulheres são demitidas até dois anos após retornarem da licença.

Isso vem mudando? Sim, mas a passos não muito largos.  “Trabalho com recrutamento e é notável a mudança de postura das empresas. A questão da gravidez não é mais uma barreira e isso vem sendo impulsionado pelas ações de diversidade, que suportam não só a entrada como a permanência da mulher no mercado”, diz Fernanda Amorim, diretora da Page Executive.

Rodrigo Pádua, vice-presidente global de Gente e Cultura do Grupo Stefanini, diz que a gravidez nunca segurou o crescimento de nenhuma mulher dentro da companhia. “Faz parte do nosso DNA. O exemplo vem de cima. Temos várias mulheres diretoras que engravidaram, tiveram seus filhos e continuaram crescendo na empresa.”

Mas ele sabe que as mulheres ainda se preocupam com esse tema. “Não fazemos nenhuma pergunta sobre isso, mas elas se apressam em falar que estão grávidas, como se isso fosse ser um impeditivo para a contratação. Aí se surpreendem quando percebem que a gravidez não é um problema.”

O 6 Minutos conversou com três mulheres que quebraram essa barreira:

Ludmila Alecrim, 34, coordenadora de marketing da Cielo

Ludmila recebeu a notícia de que seria promovida a coordenadora em fevereiro do ano passado, quando estava grávida do Bento, hoje com 8 meses. “Acho que existe um sentimento universal entre as mulheres de insegurança no trabalho quando ficamos grávidas. Fiquei pensando no tempo em que ficaria ausente, aqui são seis meses de licença e ainda daria pra emendar com as férias. Fiquei muito surpresa, não imaginava que seria promovida naquele momento.”

E essa insegurança faz sentido? Ludmila diz que as mulheres não deveriam ter essa sensação. Se a gente parar para pensar, ficar grávida não deveria gerar um sentimento de insegurança. Você fez um bom trabalho, é mais do que merecido ser promovida. Mas parece que a gravidez anula todo esse mérito.”

A coordenadora conta que o chefe disse que em nenhum momento o fato dela estar grávida seria um obstáculo para a promoção. “Quando eu disse que não esperava, ele me disse que não queria me perder como funcionária e que era um reconhecimento pelo trabalho que já tinha realizado. Senti muita naturalidade dele ao responder que nem tinha pensando em não me promover por causa da gravidez.”

Mas não é todo lugar que é assim, certo? Ludmila diz que tem duas amigas que foram demitidas assim que voltaram da licença maternidade. “Infelizmente, essa é uma prática que ainda acontece em muitas empresas.”

E como foi o parto? Ludmila teve covid-19 e descobriu isso ao realizar os exames na maternidade. “Tive parto normal e ao entrar na sala de parto fiz o PCR. Tivemos que ficar totalmente isolados. Meu filho e meu marido fizeram o teste e negativaram, mas ficamos o tempo todo sem acesso a ninguém.”

Ludmila, coordenadora de marketing da Cielo/Arquivo Pessoal

Gabriela Facchinetti, 33 anos, coordenadora de RH da Stefanini Brasil

Quando participava do processo seletivo da Stefanini, Gabriela avisou que estava fazendo tratamento para engravidar. Na época, ela tinha saído de uma empresa e se dedicada à missão de virar mãe. “Eu estava há cinco anos em um cargo de coordenação, saí para ser mãe. Tomava remédio para ovular e achava que não entraria mais no mercado.”

Gabriela vinha de uma série de perdas gestacionais e por isso achou que devia avisar aos recrutadores que poderia engravidar a qualquer momento com o tratamento que fazia. “Achei bem mágico como eles trataram do assunto. A gestora da época me disse que a gravidez não era um problema, que eu podia vir.”

Em fevereiro, quando estava grávida de quatro meses, ela recebeu a notícia de que seria promovida a coordenadora. “Na época, cheguei a me questionar, pois seria promovida, ficaria mais alguns meses no cargo e depois sairia em licença. Mas a gestora tratou isso tão naturalmente, mostrando que para a empresa isso não era um problema.”

E por que as mulheres se justificam? Para Gabriela, ainda há preconceito com a mulher no mercado. “Tem a questão da licença ou do medo da mulher não se adaptar depois no retorno ao trabalho. Acho que o mercado está se adaptando e as mulheres vêm ocupando cargos importantes e estratégicos.”

Gabriela, coordenadora da Stefanini/Divulgação

Ana Paula de Medeiros Carracedo, 39, diretora de compliance da Qualicorp

A executiva descobriu que estava grávida no meio do processo seletivo. “Trabalhava em outra empresa e a Quali vinha me procurando há algum tempo. Começamos a conversar e no meio da conversa descobri a gravidez. Isso me deixou assustada, pois achei que pudesse ser muita coisa [trocar de emprego] para um ano tão desafiante e no meio da pandemia. Cheguei a falar que não iria, que não me sentia segura, que não sabia se seria uma gravidez de risco.”

E o que fez ela perder o medo de trocar de emprego? “A Quali me disse que a gravidez era uma coisa divina, que estavam me contratando para o longo prazo, não para um ou dois anos. Que preferiam acertar na contratação com a pessoa certa do que perder tempo com a errada.”

E como tem sido? Ana Paula diz que dentro da empresa a gravidez é tratada com muita naturalidade. “Sinto muito respeito e preocupação com o bem-estar.”

Ana Paula, diretora da Qualicorp/Divulgação

 

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