Não é de hoje que a onda de produções audiovisuais vem substituindo os conteúdos textuais. Pesquisa realizada pela Cisco mostrou que em 2021 nada menos que 82% do tráfego de internet no Brasil será representado por vídeos que, cada vez mais rápidos e facilmente consumíveis, têm sido muito usados para atrair e engajar na internet (haja vista o sucesso de plataformas como TikTok e Instagram).

E mais do que isso, vêm fazendo com que empresas e segmentos inteiros reavaliem seus conteúdos a fim de aprimorar suas estratégias – sejam elas voltadas para marketing, treinamento, vendas, educação etc. A novidade mais recente é a adoção, por parte do mercado de recrutamento e seleção, do chamado videocurrículo, ou “currículo vivo”.

A ferramenta funciona como uma espécie de mini anúncio pessoal que, com duração de no máximo três minutos, permite aos candidatos contarem sua trajetória de forma rápida, objetiva e inovadora – sem excluí-los, no entanto, de nenhuma outra fase do processo seletivo, que envolve currículos tradicionais, dinâmicas de grupo e entrevistas online.

Bastante difundida nos Estados Unidos, a tendência aos poucos vem ganhando fôlego por aqui, principalmente em função do cenário de distanciamento social, trabalho remoto e aceleração digital causados pelo novo coronavírus.

“A pandemia serviu para democratizar o uso do currículo em vídeo, considerado um jeito dinâmico e eficiente de enxergar com mais precisão alguns aspectos importantes para a escolha dos melhores candidatos às vagas”, diz Leandra Cortelleti, fundadora e headhunter da Le War Pro, consultoria de gestão de pessoas que desde 2019 solicita videocurrículos a todos os profissionais aderentes às suas posições em aberto (após a triagem dos currículos comuns e antes de uma eventual entrevista online).

“A ferramenta permite ter uma impressão geral e instantânea dos participantes, que desse modo conseguem mostrar um pouco de sua personalidade e essência, assim como suas melhores realizações e real interesse pela oportunidade em questão.”

Competências subjetivas

Cabe a cada empresa definir a etapa do processo seletivo na qual o currículo em vídeo será solicitado, assim como duração e formato – que vai desde um roteiro livre até a definição de perguntas específicas a serem respondidas pelo candidato. O fato é que a maioria dos recrutadores ainda prefere usar o recurso com parcimônia, reservando-o sobretudo para vagas que demandam habilidades comportamentais, as chamadas soft skills. E, ainda, para cargos que prevejam interação direta com clientes ou com variadas interfaces internas, por exemplo.

“Essa é uma metodologia nova, à qual ainda estamos nos adaptando e compreendendo as melhores maneiras de utilização”, diz Leonardo Casartelli, diretor de marketing e produto da empregos.com.br. “Quando bem estruturado e usado de forma profissional e específica, porém, o videocurrículo sem dúvida permite que os entrevistadores tenham subsídios para avaliar competências extra-CV convencional, tais como criatividade, empatia, postura, desenvoltura, capacidade de análise e síntese e até fluência em outro idioma, entre outras fatores bastante apreciados pelas empresas.”

Singularidade e notoriedade

Em um levantamento recente apresentado pelo Linkedin, 79% dos recrutadores acreditam que ver um vídeo é mais eficiente do que ler um currículo para selecionar um candidato. Por essas e outras, enviar uma versão audiovisual pode significar sua grande chance de brilhar em meio a dezenas, centenas e até milhares de concorrentes.

Mas antes de tomar a iniciativa, os especialistas sugerem verificar se a empresa considera esse um instrumento de avaliação interessante. Se esse for o caso, basta caprichar no script e treinar para que sua apresentação consiga de fato transmitir suas singularidades – sem precisar se preocupar tanto com a produção do vídeo em si. “Embora esse novo formato em princípio possa assustar um pouco, não é preciso ser ator nem contar com uma superprodução para gravar o vídeo”, explica Leandra. “Basta um celular com câmera e disposição para narrar, da maneira mais clara e espontânea possível, suas principais conquistas, seus valores e projetos mais relevantes.”

Há quem opte, entretanto, por produzir um material filmado e editado de forma mais sofisticada. Para tanto, existem ferramentas de criação de vídeo e portais especializados, como StaffMerge e Biofie, que auxiliam nessa tarefa, bem como estúdios profissionais para aluguel. Além disso, algumas plataformas são ideais para compartilhar os vídeos com os recrutadores, como o YouTube e o Vimeo.

Hora de brilhar!

Caseiro ou profissional, a finalidade maior do CV audiovisual é garantir o interesse e não desviar a atenção dos recrutadores, que destacam algumas regras simples a serem seguidas ao produzir sua pièce de résistance. São elas:

  • monte o roteiro de seu videocurrículo com no máximo três minutos, seguindo o formato e as especificações estabelecidos pelo recrutador;
  • caso não haja um modelo padrão como referência, aproveite para explorar mais sobre você, sua área de atuação e experiência, um ou dois resultados expressivos relacionados ao perfil da vaga e à cultura da empresa. E, por fim, porque está se candidatando àquela vaga, naquela companhia;
  • providencie um local de gravação silencioso, com cenário organizado e poucas informações, além de bem iluminado;
  • vista-se como se fosse participar de uma entrevista, sempre levando em conta o nível de formalidade da companhia;
  • pense em uma roupa que não chame atenção, com cores mais neutras e discretas;
  • apresente-se com cabeça e costas eretas;
  • certifique-se de que a câmera está imóvel e é de boa qualidade;
  • pratique o que tem de falar algumas vezes com a câmera desligada;
  • treine bastante, ficando sempre atento à fluência e ao semblante (tranquilo e sorridente, de preferência);
  • grave com o celular na horizontal e não com câmera de selfie (para evitar ficar se olhando o tempo todo);
  • e, é claro, nada de simplesmente reproduzir (ou ler!) as informações do currículo impresso.
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