A desigualdade entre brancos e negros no mercado de trabalho se acentuou ainda mais durante a pandemia de coronavírus. Entre o primeiro e o segundo trimestre do ano, 6,4 milhões de homens e mulheres negras deixaram a força de trabalho, segundo dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua). Esse movimento foi muito menor entre não negros: 2,4 milhões.

O desemprego também atingiu mais fortemente negros do que brancos. Do segundo para o terceiro trimestre, 8 milhões de pessoas ficaram desempregadas no país. Desse total, 71% eram negros.

Com isso, a taxa de desocupação para homens negros passou de 11,8% para 14% neste período. Para homens não negros, a taxa evoluiu de 8,5% para 9,5%.

A taxa é ainda maior para mulheres negras, que avançou de 17,3% para 18,2% do primeiro para o segundo trimestre. Para mulheres não negras, o percentual ficou estável em 11,3%.

“É sabido que mulheres e homens negros enfrentam dificuldades maiores para conseguir uma colocação. A taxa de desocupação entre esses trabalhadores é sempre maior, mas a pandemia conseguiu criar ainda mais adversidades para essa população”, afirma o Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) em boletim especial.

Forma de inserção

Do primeiro para segundo trimestre, perderam o emprego 1,4 milhão de homens negros com carteira, 1,4 milhão de homens negros sem carteira, 1,2 milhão que trabalhavam por conta própria. Entre as mulheres, perderam seus postos 887 mil trabalhadoras com carteira; 620 mil sem carteira; 886 mil trabalhadoras domésticas; e 875 mil trabalhadoras por conta própria.

“Negros e negras enfrentam mais obstáculos para conseguir uma colocação, ganham menos e têm frequentemente inserção vulnerável e frágil. A pandemia no Brasil explicitou e acentuou essa situação. Homens e mulheres negros, ocupados em situação de informalidade, no trabalho doméstico e sem vínculo legal, foram os que mais sofreram os efeitos da parada da economia brasileira por causa do coronavírus”, afirma o boletim do Dieese.

Renda menor

Com empregos mais precários, a renda dos negros é muito inferior à dos brancos. De acordo com o IBGE, a renda média dos brancos foi de R$ 2.884 em 2019, ou seja, 73,4% maior que a dos negros (R$ 1.663).

“A população de cor ou raça preta ou parda está mais presente na informalidade, possui menos anos de estudo, está em atividades que remuneram menos, então tudo isso contribui para que a renda do trabalho seja menor”, explica o coordenador do estudo, João Hallak.

Dá para virar o jogo?

Lógico que dá. Essa reportagem do 6 Minutos mostra o que já está sendo feito para ampliar a participação de negros em cargos de liderança. Uma dessas iniciativas é o programa Conselheira 101, que tenta aproximar mulheres negras de lugares em conselhos de administração. Um estudo de 2016 do Instituto Ethos mostrava que só 4,9% dos conselhos possuíam conselheiros autodeclarados pardos, e nenhum preto.

O caminho de entrada também começa a mudar. Empresas como Magazine Luiza e Bayer abriram programas de trainee voltados para negros e uma das exigências que foi derrubada foi justamente o domínio do inglês. O entendimento é que essa exigência exclui pessoas do processo seletivo, já que o acesso a outro idioma depende da condição socioeconômica dos candidatos.

Ações afirmativas trazem efeito?

Muito. “Quando uma empresa como a Ambev abre uma seleção de estagiários negros, ela sinaliza para o mercado que a pauta da inclusão é importante. Isso gera um impacto positivo, porque toda cadeia que se relacionada com ela, seus concorrentes e empresas que têm a Ambev como referência param e pensam: ‘se é bom para ela, pode ser bom para mim também’”, afirma o consultor em diversidade e inclusão Guilherme Gobato, sócio-fundador da Diálogos Entre Nós.

Mas não basta só trazer os negros para dentro da companhia. É preciso incluí-los, fazer com que se sintam respeitados. “Uma coisa é trazer diversidade para dentro da empresa. Diversidade já existe na sociedade. Já a inclusão é uma escolha. Para incluir é preciso fomentar um ambiente de tolerância e respeito às diferenças”, afirma Gobato.

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