Quando o primeiro filho de Cauê Ribeiro nasceu, há três anos, ele não pode participar muito do primeiro mês de vida do primogênito. No Brasil, a licença-paternidade é de 5 dias. Após muita negociação na empresa em que trabalhava, ele conseguiu ficar 15 dias em casa.

No fim de dezembro, nasceu seu segundo filho. Diferentemente da primeira vez, Ribeiro tirou dois meses de licença. Isso aconteceu porque ele trabalha no Bmg, que ampliou o período de licença-paternidade.

Várias empresas também estenderam a licença-paternidade. Esse é o caso da Reserva (45 dias), Mattos Filho (60 dias), PwC (2 meses), Diageo (6 meses) e Sanofi (6 meses). Em comum, elas fazem parte do programa Empresa Cidadã, que prevê a prorrogação da licença-maternidade (de 4 para 6 meses) e da paternidade (de 5 para 20 dias).

Ana Karina Bortoni, CEO do Bmg, diz que ampliar a licença é bom não só para o homem, mas para as mulheres também. “Essa medida despertou um olhar de que todo mundo pode ficar fora por um tempo e tudo bem, independentemente de gênero.”

Na Medtronic, os funcionários têm direito à licença-paternidade de 20 dias e podem acrescentar uma licença de apoio à família, que dura seis semanas. “A companhia considera natural a ampliação da licença e se planejou para a ausência dos profissionais nesse momento tão importante”, afirma Anna Karina Sá, diretora jurídica da Medtronic, vai no mesmo raciocínio.

“A presença do pai neste momento é fundamental para fortalecer os laços e também a consciência de uma paternidade responsável, como uma participação equânime na educação dos filhos. Sabemos que ainda temos um longo caminho pela frente”, diz Tatiana Fernandes, sócia da PwC Brasil.

Abaixo, reunimos as histórias de alguns pais que puderam contar com uma licença-paternidade estendida. Veja o que eles contam:

Dirceu Acerbi Filho, pai do Daniel, de 3 anos, e Maria Valentina, 2 anos

Supervisor comercial da Reserva, Dirceu usufruiu da licença-paternidade de 45 dias no nascimento dos filhos. Quando o Daniel nasceu, há três anos, a nova política de licença já estava em vigor.

“Esses primeiros 45 dias são um período delicado e muito necessário para a mãe, que acabou de dar à luz. Estar presente nesta fase te faz entender coisas que passariam despercebido se estivesse numa licença mais curta. Digo isso em relação a tudo. São muitas preocupações, que você só vai entender a real se estiver ali presente”, afirma ele.

Como foi ficar de licença por 45 dias? “Foram os melhores 45 dias da minha vida. Pude aprender a ser pai ali, com a mão na massa, trocando fralda, fazendo parte do time de revezamento de descanso. Esse revezamento é necessário para a mãe. Esse comecinho é muito desgastante para a mulher e ter alguém ali para poder contar é muito importante. E pro pai não tem coisa melhor do que vivenciar esses primeiros 45 dias, o primeiro sorrisinho.”

E a sua segunda licença? Dirceu diz que estar junto por mais tempo após o nascimento do segundo filho foi ainda mais importante. “A gente tem que participar todo dia. Mas se a gente não está junto nesse comecinho, tudo seria mais difícil para minha mulher. A Valentina nasceu e a gente já tinha o Dani, que ainda era novinho. Foi trabalho dobrado, mas nesse comecinho é bem difícil. Ter um pai presente todo dia dá mais tranquilidade, são dois braços a mais, dois olhos a mais, um colo a mais.”

A licença ampliada é um risco ao emprego do homem? “Não tive essa preocupação. Se a empresa de dá essa possibilidade, não acho que vou ser demitido porque fiquei 45 dias fora. Essa licença é importante. É preciso sair do trabalho e vivenciá-la, sem preocupação. É um momento especial, é preciso vive-lo como se fosse único. Se você ficar preocupado com o emprego, não vai vai aproveitar a licença.”

Dirceu, da Reserva com os filhos Daniel e Valentina
Crédito: Arquivo Pessoal

Cauê Ribeiro, pai do Tom, de 7 meses, e do Léo, de 3 anos

Superintendente de marketing institucional do Bmg, Ribeiro usou a licença ampliada de dois meses somente no nascimento do segundo filho. Quando o primogênito nasceu, ele trabalhava em outra empresa. “A primeira licença foi curta demais. Você volta para o trabalho com a ansiedade de deixar sua esposa em casa tendo que resolver sozinha todos os pepinos.”

Com o nascimento do segundo filho, Ribeiro disse que sentiu a diferença de poder curtir mais tempo dos primeiros dias de vida da criança. “Você fica full time para a criança. Ela dorme melhor, fica mais amparada. Tive um ganho em termos de construção de relacionamento. Consegui dar muito mais atenção para a família.”

Segundo ele, foi essencial estar em casa por 60 dias. “O primeiro filho ficou com ciúmes quando o segundo nasceu. Então, acabou se apegando muito a mim, já que o novinho passava mais tempo com a mãe, mamava o tempo inteiro.”

Ribeiro diz que esse tempo a mais foi bom para sua esposa também. “Quando comparo, vejo que existem coisas que a gente não percebe quando volta ao trabalho depois de poucos dias de licença. É fácil deixar tudo nas mãos da mãe para ela resolver. Afinal, ela está lá o dia inteiro. Mas não é assim. A licença ampliada é importante para a mulher, que fica segurando toda a bronca sozinha. Tira o comodismo do homem ficar só trabalhando e deixar todo o cuidado do filho com a mãe.”

Como foi poder tirar uma licença de 60 dias? “Foi maravilhoso. Pude conhecer meu filho de verdade, pois estava ali presente quando ele fazia cocô, trocava fralda, pegava no colo. A gente passa a perceber por que chora e porque não chora. Pude ficar mais tempo com o outro filho, levar para passear e andar de bicicleta. E tive mais momentos de troca com a esposa, de participar das decisões do dia a dia, como quando dói o dente ou tem uma febrinha. No primeiro filho, todas essas decisões eram tomadas somente pela esposa.”

Segundo ele, o período de licença de 60 dias parece adequado para a realidade atual. “Depois de 60 dias, parece que as coisas começam a entrar nos eixos. Fica tudo muito redondo. Se fisse um carro, é como se ele tivesse recebido chassi, motor, rodas e agora pudesse rodar. E a gente volta ao trabalho mais agradecido à empresa.”

A licença-paternidade maior ajuda a reduzir a discriminação contra a mulher no mercado? “Ajuda, com certeza. Na minha opinião, a licença deveria ser parental, homens e mulheres deveriam ter o mesmo tempo de licença. Ou poderiam discutir entre eles como dividir esse tempo. Acho que isso sim favoreceria a contratação de mulheres.”

A licença maior ameaça os empregos dos pais? “Em nenhum momento me senti ameaçado pela organização por ficar 2 meses em casa. Até porque ouvi dos líderes do Bmg para viver minha licença-paternidade. E na volta recebi mais área, mais confiança, voltei cheio de ideias.”

Além disso, Ribeiro afirma que demitir um funcionário é tão custoso e improdutivo quanto contratar um novo. “O cara novo vai demorar os mesmos dois meses para começar a produzir como aquele que ficou em licença.”

Segundo ele, a licença-ampliada pode servir para reter talentos em setores aquecidos. “As pessoas recebem propostas para trabalhar em outro lugar. Mas por que mudar se na empresa que você está tem uma licença-paternidade dessas?”

Além disso, Ribeiro afirma que demitir um funcionário é tão custoso e improdutivo quanto contratar um novo. “O cara novo vai demorar os mesmos dois meses para começar a produzir como aquele que ficou em licença.”

Cauê Ribeiro, com os filhos Tom e Léo

Jayme Nigri, pai da Catarina, de 1 ano e sete meses

Qual sua visão sobre a licença-paternidade estendida? Para o COO da Reserva, a ampliação corrige distorções da lei. “Eu enxergo a licença-paternidade estendida como uma medida necessária, quase uma obrigação nossa como empresa. Eu acredito que seja quase uma correção de uma distorção legal da lei que garante uma licença muito reduzida de apenas 5 dias para os pais.”

Segundo ele, a medida ajuda os pais a exercer uma paternidade ativa. “Tudo que fazemos está ligado ao nosso propósito de cuidar, emocionar e surpreender as pessoas todos os dias. Nós temos muito orgulho de possuir esse projeto que visa incentivar a paternidade ativa de todo os pais da Reserva. Essa é uma forma muito clara e objetiva de tangibilizar o nosso propósito.”

Você usou esse tempo ampliado? “ Eu aproveitei muito o período. A licença é um momento para ficar mais com a família, mais presente e para quebrar a ideia de que o pai deve ajudar. Nós não precisamos ajudar, nós temos que participar ativamente. Quando falamos em ajudar se presume que o trabalho é do outro, quando na verdade cada um tem que fazer a sua parte.”

Segundo ele, a vida pessoal também se reflete na profissional. “Acabou a visão antiga de que somos uma pessoa no trabalho e outra em casa. Acreditamos que se você está bem em casa, bem com a sua família e com seus filhos, participando e se sentindo ativo, isso vai refletir no seu trabalho em performance também.”

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