Ficou bem mais difícil conseguir um estágio durante a pandemia. No início da crise, que privilegiou o trabalho remoto e aumentou a necessidade de profissionais sênior para uma adaptação rápida à nova realidade, muitas empresas reduziram a oferta de vagas para estudantes.

Dados de empresas e associações de recrutamento mostram que parte do mercado brasileiro, especialmente as grandes empresas, parece ter dado a volta por cima e retomado a contratação de estagiários a todo vapor. Por outro lado, o saldo do país mostra um cenário bastante árido para quem procura uma oportunidade.

O que mostram os dados? Os dados não são uniformes. A Cia de Talentos, que realiza processos de recrutamento e seleção para grandes empresas, registra crescimento na oferta de vagas de estágio desde o segundo semestre de 2020.

“No ano passado, quando começaram as restrições, a gente percebeu uma diminuição de vagas. Mas as empresas não deixaram de fazer os programas. Do segundo semestre em diante, a gente não só recuperou, como superou os números pré-pandemia”, afirma Ligia Oliveira, Gerente de Contas do Grupo Cia de Talentos.

Em contrapartida, o último levantamento do CIEE (Centro de Integração Empresa-Escola), que traz dados nacionais referentes ao primeiro semestre de 2021, mostra que a realidade do Brasil como um todo ainda não está tão animadora. Por mais que as vagas de estágio venham se recuperando, ainda há uma defasagem de aproximadamente 10 mil posições em relação ao patamar pré-pandemia.

Quando observado o comportamento das vagas de trainee, nota-se que a condição dos estagiários é especialmente preocupante. Enquanto a oferta de estágios ainda está longe de uma recuperação, as de treinamento interno de recém-formados têm alcançado patamares bastante próximos aos de janeiro e fevereiro de 2020.

Por que os estagiários foram especialmente prejudicados? A explicação passa pela falta de experiência e a consequente necessidade de acompanhamento, bastante dificultada pela adoção brusca do trabalho remoto.

“O número de estágios caiu muito mais do que o de aprendizes. Um empresa que contrata um estagiário quer tê-lo ali, presente, para que participe do dia a dia, conheça as pessoas, traga suas ideias. Então o trabalho à distância não é um grande estímulo”, explicou Humberto Casagrande, CEO do CIEE, em coletiva à imprensa.

Além da distância, há também a sobrecarga dos gestores que, em um momento de transformação para o mercado, estão precisando se dedicar a projetos de reformulação dentro das companhias. “A gestão passa a ter que delegar mais e pensar: ‘como eu vou fazer para monitorar o andamento das demandas e encaixar na minha agenda, que está insana, o momento de fazer o desenvolvimento do meu estagiário?’. Então, o mercado teve que olhar muito para desenvolvimento. Os estagiários precisaram passar por treinamentos de autogestão que anteriormente faziam mais parte da rotina dos trainees”, afirma Oliveira.

Como tem sido na prática? Letícia Marcelino (24), estudante de Letras da Universidade de São Paulo, está à procura de uma vaga de estágio desde o início da graduação, em 2019. Para ela, a maior dificuldade tem sido a falta de oportunidades. “Geralmente, as vagas que eu encontro não são específicas para a minha graduação. Quando tem alguma coisa para a área de Letras, costuma ser para a parte pedagógica que não é uma área em que eu tenho interesse e as bolsas tendem a ser muito baixas para a carga horária exigida”, ela explica.

Desde o início da pandemia, Letícia observa um aumento na complexidade dos processos de seleção, que passaram a ser 100% online. Como exemplo, ela cita os testes que precedem a entrevista com os gestores. De acordo com ela, há uma média de cinco etapas eliminatórias antes que o candidato consiga ter um contato direto com a empresa.

Quanto à experiência, as empresas brasileiras não são proibidas de solicitar esse pré-requisito, com exceção daquelas situadas no estado do Rio de Janeiro. Em maio deste ano, e Rio sanciou uma lei que proíbe a exigência de experiência prévia na admissão ou como critério de classificação na seleção de estagiários. Em caso de descumprimento, a multa pode chegar a R$ 30.000.

Ir para o mercado de trabalho sem ter passado pelo estágio é um problema? Caso o candidato tenha focado apenas no desenvolvimento de habilidades técnicas na faculdade, a falta de uma experiência de estágio pode ser bastante prejudicial. “O estágio é o que vai fazer a formação dele ser completa, especialmente em um momento de pandemia. Sem isso, é como se ele não conseguisse de fato aplicar ao contexto profissional tudo o que está vendo na faculdade e perdesse a chance de desenvolver habilidades de trabalho em equipe”, afirma Ligia Oliveira.

Há alternativas para conseguir experiência durante a faculdade? Existem outras opções. De acordo com Oliveira, ao longo do período universitário, é possível aproveitar muitas oportunidades para o desenvolvimento de habilidades técnicas e comportamentais. Como exemplos, ela cita o voluntariado, as organizações estudantis, empresas juniores e os centros acadêmicos. A especialista acrescenta ainda que há iniciativas das próprias empresas para desenvolver essas habilidades nos universitários, com treinamentos em ações e projetos sociais.

Quais ações são mais efetivas para quem busca aumentar suas chances de ser contratado como estagiário hoje? De acordo com André Vicente, country manager da Adecco no Brasil, é recomendável agir no sentido de fortalecer os seguintes pontos:

  • Busque oportunidades de forma ativa por meio de sites institucionais, agregadores de vagas, redes sociais.
  • Atente para oportunidades de contato com empresas dentro da universidade.
  • Foque no aprendizado contínuo e atualizações do mercado.
  • Realize atividades extracurriculares.
  • Invista em conhecimento técnico (idiomas e softwares).
  • Tenha um posicionamento que demonstre maturidade (saber o que quer e em que sentido deseja evoluir).
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