Muitas empresas aproveitaram o avanço da vacinação contra a covid-19 para anunciar seus planos de volta ao trabalho presencial. Pesquisa da It’sSeg mostra que 62% das companhias pretendem que seus colaboradores voltem aos escritórios ainda neste ano.

Mas será que todos os funcionários querem (ou conseguem) deixar o home office depois de um ano e meio trabalhando de casa? Pesquisas mostram que o desejo de voltar ao escritório está longe de ser uma unanimidade. Nos Estados Unidos, mais de 50% dos trabalhadores gostariam de continuar trabalhando de casa, segundo pesquisa do Pew Research Center. Em outro levantamento, esse feito pela Korn Ferry, 70% disseram que voltar ao trabalho presencial pode ser difícil e estranho.

No Brasil, uma pesquisa feita pela Vulpi com desenvolvedores mostrou que 86,58% preferem trabalhar de forma remota, 6,88% no modelo híbrido e 6,54% de forma presencial.

Mas o que fazer se a empresa quer voltar e o funcionário não? Para descobrir como resolver esse impasse, o 6 Minutos conversou com especialistas em direito do trabalho e em recursos humanos.

Primeiro, vamos ao que diz à lei. Cleber Venditti, sócio da área trabalhista do escritório Mattos Filho, disse que que somente as gestantes não são obrigadas a retornar ao trabalho presencial. “Pela lei, elas devem trabalhar remotamente e, se isso não for possível, não trabalhar sem prejuízo de salário. Tirando isso, a empresa tem liberdade para determinar o retorno dos funcionários quando bem entender.”

Mas todo mundo tem que voltar? As empresas podem elaborar um cronograma de retorno escalonado, dependendo de sua necessidade. “A decisão de retorno ao presencial tem que ser comunicada com 48 horas de antecedência”, afirma Venditti.

E se o funcionário não voltar? Olhando apenas do ponto de vista legal, o funcionário pode até ser demitido por justa causa. “Se as faltas não tiverem justificativa médica, isso pode configurar abandono de trabalho”, disse o sócio do Mattos Filho.

E se o funcionário insistir em trabalhar remotamente? “Se eu não vou presencial, mas continuo trabalhando remotamente, a empresa pode demitir sem justa causa por descumprimento de norma interna”, afirma Venditti.

Isso significa que as empresas vão sair pressionando seus funcionários pela volta? Não parece que esse vai ser o caso. “Decidir voltar ao presencial não é como ligar e desligar um botão. Embora a lei permita que as empresas determinem que seus funcionários voltem, não significa que elas vão fazer isso. Se não houver uma atenção com isso, as consequências podem ser danosas”, afirma Wilma Dal Col, diretora do ManpowerGroup.

É compreensível essa resistência ao trabalho presencial? Com certeza. Afinal, passados 18 meses, as pessoas fizeram adaptações em suas vidas para dar conta do teletrabalho. “É loucura achar que todo mundo vai querer voltar. Tem gente que foi morar longe para ganhar qualidade de vida. Outros ganharam filho, adotaram cachorro. Vai ser muito difícil adotar uma política de trabalho que não preveja a flexibilidade”, afirma Lucas Oggiam, diretor do PageGroup.

Como deve ser a volta? Não vai ser do dia da noite nem todo mundo de uma vez. “Pelo que tenho acompanhado das empresas, não vai ser hoje nem na próxima semana. Até pelo histórico de outros países, muitas vão deixar a volta para daqui 2 ou 3 meses”, disse Lucas Nogueira, diretor de recrutamento da Robert Half.

Esse tempo deve ser dado por dois motivos, segundo ele: 1) pelo modelo que foi adotado internacionalmente e 2) porque as empresas precisam se adaptar a essa volta também. A tendência de volta é pelo modelo híbrido, com três dias de trabalho em casa e dois no escritório.

“O desafio da volta não é só do funcionário, mas do gestor também. Vai ter rodízio? Quem vem e quem não vem? Como o gestor lida ao mesmo tempo com equipes remotas e presenciais. Tudo isso vai começar a ser testado”, afirma Oggiam.

Nessa fase de adaptação, empresas terão que lidar com outros desafios. “Todo mundo percebeu que a produtividade em casa aumentou significativamente. Como fica agora com o presencial?”, questiona o diretor da Robert Half.

Vai ser necessário dar flexibilidade de jornada aos funcionários? Isso parece ser ponto pacífico. As empresas que não oferecerem esse tipo de flexibilidade vão perder funcionários. “Atração e retenção de talentos é um desafio enorme hoje em dia. As empresas que não tiveram uma política flexível vão perder em retenção e atração de colaboradores”, diz Oggiam.

Mas precisa voltar mesmo? Para Wilma Dal Col, do ManpowerGroup, essa é uma pergunta que as empresas devem se fazer seriamente e não apenas voltar por voltar, porque as outras estão fazendo isso. E a resposta deve considerar a necessidade presencial daquele trabalho.

“O RH deve conversar com a diretoria da empresa para levantar alguns pontos: pro nosso negócio, é necessário retornar 100% ao presencial? As funções precisam de retorno imediato? Preciso dessas pessoas presencialmente? Como está a produtividade com o teletrabalho? É essencial retornar?”, defende a executiva.

Oggiam diz que há áreas em que o trabalho presencial é mais necessário. “É mais desafiador trabalhar remotamente em áreas de produção, comercial, engenharia, áreas em que é preciso estar em campo. Mas mesmo essas devem voltar ao presencial com flexibilidade.”

Para Wilma, planos de retorno baseados no percentual de ocupação do escritório podem ser uma armadilha. “Você não pode voltar por número de cadeiras. É preciso considerar a atividade que cada um desempenha e entender se ela precisa ser presencial ou não.”

Top 5 funções mais adequadas ao trabalho remoto
Para CIOs/CTOs:
-Engenharia na nuvem
-Rede/Gestão de sistemas
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Para CFOs:
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Para gerentes de contratação:
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